#nenhumespaçoamenos: mulheres protestam contra silenciamento no Slam Resistência

Poetas realizaram coro contra abusos e apagamentos ocorridos no espaço e na cena dos saraus e slams

Como forma de lutar contra os abusos e silenciamentos sofridos pelas mulheres em ambientes culturais – especialmente saraus e slams (batalhas de poesia falada), um grupo de cerca de 50 jovens se reuniu na última segunda-feira (3) no Slam Resistência, que ocorre na Praça Roosevelt, e fez um ato de resistência, com pelo menos 10 mulheres declamando poesias na batalha e também com a colagem de lambes e cartazes, pedindo respeito, marcados por hashtags como #nãopoetizeomachismo, #nenhumespaçoamenos e frases como machistas/racistas não passarão, sua literatura têm gênero? Quem julga o quê? E Luana Barbosa, presente!

Mulheres colaram lambes na Praça Roosevelt, onde ocorre o Slam Resistência (foto: Divulgação)

O movimento ganhou força após a edição do mês de março do slam, quando, segundo Helena Batista, algumas mulheres foram impedidas de batalhar e de fazer poemas durante a etapa conhecida como microfone aberto, que precede a disputa oficial, onde os poetas podem declamar suas poesias sem estarem concorrendo. Conforme ela e outras mulheres que frequentam a batalha, houve uma tentativa de silenciamento por parte de um homem que atua na organização do slam.

“Nesta segunda-feira tivemos pelo menos 10 mulheres batalhando. Na noite, são 20 poetas que batalham, então é bastante gente. A Mel Duarte venceu a competição e várias outras manas também colaram para assistir. O ato ocorreu porque no último slam, quando chegamos, já não havia mais vaga para competirmos, então pedimos para falar poesias durante a calibragem, mas nos foi dito que havia apenas mais duas vagas também para isso, contudo, observamos que um homem chegou depois e foi chamado à roda, para participar da batalha. Entendemos que houve machismo explícito aí por parte da organização e também silenciamento”, contou Helena.

Ainda de acordo com ela, outa mulher, Jade Quebra, foi hostilizada posteriormente pela organização do slam. “Ela é minha amiga, e contei para ela o ocorrido. Ela se sensibilizou com a nossa situação e postou algo sobre isso no Facebook e um dos organizadores a expôs na página do Slam Resistência, que tem mais de 300 mil seguidores, dizendo que ela era uma ex-mana que não merecia respeito, citou a mãe dela e disse que ela usou o slam para se promover, além de ter apagado os vídeos dela e do companheiro dela da página. Ou seja, além de um caso de machismo aconteceu um caso de racismo, porque as duas pessoas pretas tiveram seus vídeos, com sua arte, excluídos”, declarou a poeta.

Diante disso, as jovens poetas uniram-se com outras mulheres que frequentam saraus e slams e se posicionaram durante o encontro.  Antes da disputa poética começar, algumas afixaram lambes nas escadarias e postaram fotos e recados nas redes sociais.

Mexeu com uma, mexeu com todas, porque o machismo tem que ser combatido em todos os lugares, inclusive nos espaços artísticos à esquerda”, postou a poeta e atriz Luzia Romão.

Mulheres fizeram ato na Praça Roosevelt, em SP.
(foto: Victória Sales)

A poeta Mel Duarte, que foi a campeã da noite, também falou sobre o ato. “A galera chegou com muita força. Várias manas, de vários lugares, colaram e endossaram o coro que fizemos a cada poeta chamado. Sempre gritávamos: Luana, presente! Maria Eduarda, presente! Nenhum espaço a menos. E foi positivo. Os caras ficaram em choque. Quem precisava ficar em choque, ficou. Foi necessário fazer esse rolê pra gente se fortalecer e eu espero que a gente se fortaleça cada vez mais e leve essas discussões para outros espaços”, destacou.

A escritora Carolina Peixoto também destacou a importância do ato. “O recado não foi apenas para a organização do Slam Resistência, que foi machista na última edição. Tem uma pá de cara que já fez e ainda faz igual ele. Já passou da hora de vocês entenderem que estamos ocupando nosso espaço, que não aceitaremos mais ser silenciadas. Nunca mais”, disse.

Slam Resistência
O Slam Resistência ocorre desde 2014 na Praça Roosevelt e é um dos mais conhecidos no Brasil por causa dos vídeos virais lançados na fanpage do Facebook, que alcançam milhões de visualizações e contribuem para a popularização do formato do esporte no país. A cada edição, centenas de pessoas vão à praça para acompanhar o encontro.  Em março, o mesmo slam também foi alvo de repressão por parte da Guarda Civil Metropolitana. A poeta e atriz Luiza Romão fez um texto sobre o episódio, que pode ser lido aqui.