#nossoamorexiste: me descobri uma mulher bissexual e quero falar sobre isso

No blog já tratamos vários assuntos relacionados às mulheres, tais como participação política, sexualidade e presença na área de exatas. Agora, estamos com uma nova série sobre casais de mulheres.

O intuito é valorizar a representatividade e as mulheres que se amam, bem como documentar suas histórias sem o exotismo muitas vezes conferido a casais de lésbicas e/ou trans. Quero falar do amor e de como ele existe e resiste.

Um motivo pessoal

Quando você pensa numa mulher lésbica o que vem à sua mente? Ou uma mulher bisexual? É uma imagem, uma palavra, uma personagem? Há uma conotação exótica ou fora do padrão para você ou essas mulheres que fazem parte do seu cotidiano? Vale a pena pensar nisso?

Minhas respostas a estas perguntas explicam o meu motivo para propor a série para o blog.

Assumi que eu era bisexual aos 35 anos de vida. Eu estava casada com um homem e grávida da minha primeira filha. Por que demorou tanto para eu entender minha orientação sexual? Por que ninguém nunca falou para mim que existiam outras opções. Eu não tinha referências para meus sentimentos ou um contexto em qual os encaixar.

Tudo bem, eu pensei. Isso é uma questão de idade. A nova geração jamais teria esse problema. Várias psicólogas já falaram para mim que os adolescentes de hoje têm uma sexualidade tão fluida que nem existe mais a questão de hetero ou homosexual. Em apoio a esse posicionamento, pesquisas mostram que menos de 50% dos adolescentes entre 13 e 20 anos se identificam como heterosexuais. Cerca de de 40% se identifica como bisexual.

Há ainda um longo caminho

Pronto. Nos livramos de preconceito e noções muito limitadas de gênero e orientação sexual, né? Não precisamos lutar tanto para questões de representatividade e inclusão?!

As realidades vividas indicam que a luta continua.

Mulheres lésbicas sofrem a barbaridade de estupros corretivos. Mulheres trans correm risco de vida por viverem num país que mais as matam.

E ser bisexual, para muitas, é mais um exercício de explorar a sexualidade do que aceitação de outras possibilidades de amor e namoro.

Num artigo sobre bissexualidade, o psicólogo Oswaldo Rodrigues Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, explicou que “Um dos fatores coerentes com este aumento é a percepção de que se pode ou até se deve experimentar mais as vivências sexuais, portanto, muitos podem se encontrar num rótulo bissexual neste momento, porém, podem mudar daqui a 5 ou 10 anos.”

Descoberto

autora com 9 anos e cabelo curto

Eu deveria ter percebido ainda jovem que eu era bisexual. Existiam inúmeros sinais. Durante o ensino infantil eu era meio moleque, mas sempre preferia a companhia de meninas. No início do Ensino Médio eu tinha duas amigas com que eu “brincava” de fazer sexo. Éramos jovens e não fazemos muito além de beijar e tocar os peitos, mas era uma atração sexual que eu nunca entendi como um indicador sobre minha orientação. No colégio eu olhava – escondidamente – a revista do Playboy do meu pai biológico e fantasiava em transar com mulheres. Na faculdade sentia atração sexual por uma amiga, mas nunca levei isso a sério.

Por que não? Por que mulheres são objetos de sexo. Sentir atração sexual por elas não significava muito por mim. Em paralelo, eu realmente gostava de alguns homens. Gostar de homem era normal, o que era para fazer. Namorar com uma mulher nunca entrou na minha cabeça como uma possibilidade real. Mesmo quando eu realmente gostava de uma.

Com 30 anos uma amiga minha se pronunciou lésbica. Ela foi uma das minhas primeiras amigas próximas a assumir essa identidade mais “tarde”. Passamos tempo juntas e percebi o quanto que eu gostava dela, em todos os sentidos, mas nunca tinha tido a segurança de dizer algo para ela. Logo em seguida, conheci meu marido.

Importa? Sim!

Agora, casada e mãe, com a vida mais tradicional possível, vale a pena assumir minha sexualidade? Sim. Amo meu marido. É quase impossível imaginar um/a parceiro/a mais adequado para estar comigo. Nunca namorei com uma mulher e provavelmente nunca vou. Mas mesmo assim sou bisexual. Não assumir isso é negar uma parte importante de quem eu sou em todos os sentidos (sexualmente, emocionalmente, politicamente).

Eu olho para meu redor e mesmo com casamento homoafetivo legal e mais abertura sexual, eu vejo poucos referências de casais de mulheres. Isso me incomoda.

Se eu soubesse que sentir atração pela mulher não resumia apenas uma fantasia sexual, eu teria tido um amor com outra mulher? Se eu tivesse visto exemplos de mulheres namorado, apaixonadas, em relações saudáveis eu seria a mesma pessoa?

Não me arrependo de ter a vida que eu tenho. No entanto, quero que outras mulheres, que minha filha, saibam tudo é possível: uma mulher amar outra mulher e ter uma relação saudável, maravilhosa, satisfatória, é normal e mais do que possível. Isso é o motivo, proposta e objetivo da série #nossoamorexiste.

#nossoamorexiste: participem!

Enviam-nos seus relatos de amor ou participem em uma entrevista.

***