#maismlheres: De gamer a técnica de informação, a realização de uma mulher no campo das exatas

Daniela, desenvolvedora de software, 34 anos, está numa profissão que poucos entendem, dominada pelos homens, e que não foi fácil para acessar.

O Início: Videogames

Os videogames tem a reputação de incentivar a preguiça, e são frequentemente culpados por alguns dos males sociais. No entanto, pesquisas mostram que existem seus benefícios sociais.

Para Daniela, o videogame incentivou sua paixão pelas exatas.

Meu irmão (mais velho) havia ganhado um Atari 2600 e eu imediatamente me apaixonei pelo videogame. Vivia brigando com ele para poder jogar, mesmo sem saber jogar direito. Depois com o tempo acabei me aproximando dos computadores pela curiosidade de saber como eram feitos os jogos.

O Percurso

Mesmo sabendo que ela queria trabalhar com computadores, demorou muitos anos para ela entrar no ramo. Ela tinha que enfrentar as expectativas externas e a falta de recursos disponíveis.

Quando eu fiz o meu primeiro vestibular, eu lembro que a minha família ficou um pouco frustrada. Minha família tinha uma cultura muito forte de que só existiam três profissões “válidas”: advogado, engenheiro e médico. Eu queria trabalhar com computadores, mas não tinha Engenharia da Computação em nenhuma faculdade pública da minha cidade natal (Curitiba-PR), então acabei me matriculando em Engenharia Elétrica. No final das contas foi frustrante, porque também não era o curso que eu queria e acabei desistindo do curso na metade. Só fui me formar anos mais tarde, em Análise de Sistemas. Na verdade eu entrei e saí da área várias vezes. Depois que eu larguei a faculdade de engenharia, eu cheguei a fazer três anos de Medicina, depois tentei ir para a área da administração, contabilidade e até mesmo vendas. Mas no final acabei voltando, porque na TI (Tecnologia da Informação) eu me sinto mais realizada.”.

Ela entende o seu trabalho atual, numa área que ela realmente se sente realizada, como uma das suas maiores conquistas.

Hoje estou trabalhando em uma empresa excelente e com tecnologias avançadas, fazendo um trabalho que poucas empresas no Brasil têm maturidade para fazer hoje. A minha equipe desenvolve sistemas de recomendação utilizando ferramentas de Big Data, aprendizado de máquina e ciência de dados, que são as últimas grandes tendências do segmento da tecnologia.”

“Somos Capazes”

Infelizmente, fazer o que ela ama — desenvolver softwares — exige que ela lide com os preconceitos que perpetuam sobre as mulheres.

Todos os dias eu sofro algum tipo de preconceito. Geralmente são pequenas demonstrações que eu deixo passar sem dar muita bola, por já estar “calejada”, mas tem dias que não são tão pequenas assim, ou eu não estou com o melhor dos humores e fica mais difícil de suportar.”.

Tem poucas mulheres nas exatas, em parte por causa do preconceito, em parte porque as mulheres são criadas para acreditar que elas não são capazes.

Nós somos condicionadas a acreditar que não somos capazes. Eu acredito que ainda existe essa questão da tipificação de que as exatas são para os homens. Existe este mito, e muitas mulheres acreditam nele.

Uma vez eu vi um estudo que mostrava que quando um homem vai mal numa prova da faculdade de TI, ele geralmente culpa a prova, mas quando acontece o mesmo com uma mulher ela culpa a si mesma, como se ela estivesse forçando a barra para estar ali, e aquele desempenho ruim fosse prova de que ela não deveria estar.

A gente precisa cada vez mais e mais de mulheres como referências, para mostrarmos que isto está errado. Não é porque você vai mal em um teste, que você não tem capacidade para trabalhar com isso, mas toda esta mitologia de que as exatas são para os homens acaba criando esta cultura onde nós mesmas nos sabotamos.”

Contribuição e Inspiração

Daniela contribui para desafiar essa realidade. “Recentemente eu tive a oportunidade de palestrar e ser coach em um evento chamado Rails Girls, onde meninas com todos os tipos de perfis tiveram a oportunidade de ter o primeiro contato com a tecnologia e desenvolver a sua primeira aplicação. Este evento é direcionado justamente para estas meninas que tem curiosidade pelas exatas, mas não sabem muito bem o que é, e nem por onde começar. Estes eventos acontecem durante o ano todo e em várias cidades, no Brasil e no mundo, e como não exigem nenhum conhecimento prévio, são um excelente ponto de partida para quem tem curiosidade sobre a área.”

O pedido para identificar uma mulher brasileira nas exatas que você admira (viva ou morta) deixa a maioria da população perplexa. Daniela apontou Paula Bellizia, presidente da Microsoft Brasil. “Eu ainda não conheço a história dela, mas só pelo fato de ela ter chegado à posição de CEO de uma multinacional americana ela tem toda a minha admiração.”.