Dia 08 de março é o Dia Internacional da Mulher. Dia 09 é o Dia do DJ. A aproximação das datas exigiu de nós uma busca por uma mulher DJ. Em São Paulo existem várias, mas nenhuma com o mesmo carisma e história de vida do que a DJ Sandra Gabby. Ela tem orgulho de se promover como “a DJ mais velha do Brasil”, e com quase 92 anos não há dúvida de que ela detém esse título.

O intuito inicial era conversar com a Gabby, como ela é conhecida, sobre o que todo mundo quer conversar com ela, como é ser DJ com a sua idade.

Conversamos muito pouco sobre isso. Acabamos abordando vários outros assuntos, tais como a maternidade, liberdade e a política. Dalva, a irmã mais velha de Gabby, tem 93 anos e acompanhou a nossa conversa.

Numa sociedade que segrega não só pela raça e classe, mas também pela faixa etária, realmente foi um prazer passar uma tarde com a Dona Gabby e a Dona Dalva, duas artistas e referências de independência.

Mulher em SP

Gabby nasceu em Niterói, Rio Janeiro, no dia 5 de maio de 1925. Ela mora em São Paulo há 56 anos. “A cidade mudou da água pro vinho. A cidade era muito devagar. Tudo era feio. Usar calça comprido era feio (conforme as regras sociais da época). A mulher não tinha voz ativa para nada! A mulher não valia mesmo nada, coitada. Só era para lavar roupa, passar e cozinhar. Mas nós tomamos uma atitude, fomos à luta e vencemos! Hoje em dia a mulher está em tudo.”

Para mim, ser mulher é ter força, coragem, atividade. A mulher tem que ser mulher. Tem que mandar. Tem que dirigir. Ela tem que ser linda, maravilhosa. Acho que mulher já é bonita por ser mulher.”

Independência e Amor

Gabby é uma mulher muito independente, mas isso não significa que não teve amor na sua vida. “Fui casada por 27 anos com um empresário teatral, o João. Ele que me botou no mundo. Ele que me fez ser gente. É à ele que eu devo tudo na minha vida.” Seu profundo agradecimento pelo marido não indica uma mulher com medo de estar só no mundo. Em resposta à pergunta sobre outro casamento ela ri, “nada de homem. Não tem!” Dalva acrescenta, “Eles querem tomar o dinheiro das velhas.” As duas foram muito bem casadas (Dalva por 52 anos), e se recusam a estar com outros que não propiciem o mesmo respeito, amor e prazer.

Liberdade definiu uma das decisões mais definitivas na vida de Gabby — a escolha de não ter filhos. “Para você ser uma mulher perfeita, tem que ser mãe. Eu nunca adotei essa coisa de ser mãe. Amo crianças, (mas) quando eu era criança eu pedia a Deus para casar com um homem que não quisesse ter filhos. Jesus escutou.

Trabalhadora e Artista

A vida profissional é um ponto de orgulho para as duas irmãs. Dalva trabalhou como professora de história e geografia por 25 anos. Gabby foi secretária parlamentar da câmara municipal por 35 anos. Para as duas, esses empregos geravam estabilidade e respeito.

Para Gabby, o contato com a política a encantou de tal forma que ela se candidatou em 1987 para deputada estadual. Ela inclusive conseguiu 1.500 votos. “Eu não fui eleita porque meu partido não foi aceito pelo Tribunal Eleitoral. Fui muito bem apoiada, todos aceitaram. Adoro política. Amo política. Acho que só entra na política quem tem competência, e eu tinha muita competência para tal.”

Toda a família gostava de arte desde cedo. A mãe tocava piano, mas depois de parir oito filhos, morreu com 33 anos. Dalva também tocava piano. Gabby dominava o teatro: ela já foi vedete de teatro, e em 1949 foi escolhida a rainha das atrizes. Depois de 70 anos é fácil esquecer o significado de viver de arte nas décadas de 40 e 50. Ser artista “era considerado prostituição,” Dalva relembra. Gabby conta que, “tinha carteira de prostituta, a gente não pegou porque nosso pai não deixou.”.

Essa barreira social deixava as irmãs revoltadas, mas na época não tinham o direito de ir para as ruas e protestar como hoje. Mesmo assim, Gabby não desistiu da arte. Enquanto ela trabalhava na câmara municipal, ela se envolvia com o teatro e dava aulas de dança de salão.

A mais velha do Brasil

Gabby brilha com o reconhecimento do seu trabalho com DJ. “Amo ser DJ. Toco para os meus vizinhos. O gostoso é dançar. Eu boto música alegre, música eletrônica é muita alegre, mas tem que ser alta para dar mais vida.” Mas, mesmo nisso ela preza sua liberdade. “É meu aparelho. Eu toco quando eu quiser, a hora que eu quiser, ninguém tem nada com isso. Às vezes eu não toco nenhum dia, às vezes eu toco toda semana. Quando eu quero (eu toco).”