Raquel Almeida: a escritora de Pirituba, SP

Raquel Almeida, escritora, 29 anos, é uma mistura inesperada de força e tranquilidade, revolta e calma, sofisticação e simplicidade. Em um ser só, ela equilibra, o que pode parecer para algumas pessoas, contradições, mas na realidade são complexidades complementares, particulares à ela.

 Ruas e Raízes

Dentro dela mora o impulso de ocupar as ruas e explorar o mundo, mas, paralelamente existe essa dedicação à suas raízes profundas em Pirituba, Zona Norte de São Paulo. Ela nasceu e foi criada no bairro, e até o início de 2017 morava lá. Pertencer ao seu bairro e ir embora dele foi uma das grandes lutas de sua vida.

Eu nunca fui caseira. Na minha adolescência, o rap nacional estava em sua efervescência. Gostava de rap. Queria ir para o rap, para o samba, para vários lugares que eu não podia ir. Só que eu tinha primos que foram criados como irmãos em casa. Então eu fugia de casa e saia com eles. Toda vez que eu voltava, eu apanhava. Eu ia para os shows, para o samba, qualquer lugar, sabendo que quando eu chegasse eu ia ter minha recompensa (risos).

Para mim, valia a pena porque eu conhecia outras coisas, eu circulava, eu ia para uma coisa que eu gostava de fazer. Isso me ajudava, me formava como pessoa. O show de rap que eu fui escondida, ou de samba, me formou tanto quanto pessoa, quanto militante, quanto mulher.

O desafio maior sempre foi esse, a rua. Hoje em dia eu circulo na rua. Eu aprendi a andar na rua, a me proteger. A gente briga por esse direito de estar na rua. A rua é um lugar difícil para a mulher. São vários riscos que a gente corre. A gente aprende a andar em nosso território, e aprender isso já é um passo muito grande. Falo para todo mundo que eu ando por todo lugar meio desconfiada, mas eu chego no meu bairro e eu sei que estou protegida. As pessoas me conhecem, sabem que eu ando desde sempre ali, e me dá uma certa segurança. Conquistar esse direito à rua é um desafio desde sempre.”.

Literatura e Poesia da Periferia

Em 2007 ela co-fundou o Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente, que acontece no seu bairro de origem e tem como proposta, “construir, de forma participativa, referências positivas sobre o bairro, abrindo um espaço de livre expressão, produção cultural e registro dessa produção. O eixo de atuação do coletivo é a produção, fomento e difusão da cultura da periferia, nordestina e afro-brasileira.” Essa data antecipa o grande número de saraus atualmente em São Paulo.

Ela é pioneira na luta pelo reconhecimento e a divulgação da literatura e poesia da periferia, mas não busca o mesmo reconhecimento pessoal. Isso não é uma falsa humildade, mas o resultado por ter um foco voltado à arte e ao processo de criação. Mais do que qualquer outra artista entrevistada no blog, ela manifesta a alma de escritora/poeta, com um impulso para criar que ultrapassa pretensões e explicações.

Influência Materna

Possivelmente isso vem da sua mãe, uma baiana que casou aos 13 anos, teve a primeira filha aos 14, e não viveu a adolescência. A mãe escondia sua paixão pela escrita para cumprir o dever feminino dentro de casa.

Minha mãe estudou até a quarta série. Ela é uma mulher extremamente inteligente. Ela é leitora. Minha infância inteira eu me lembro da minha mãe lendo muito. Ela fazia isso escondida, meu pai não sabia da coleção de livros dela. Eu, curiosa que sou e sempre fui, gostava dessa coisa de “escondida”. Eu aprendi a ler com cinco anos e foi tutelada pela minha mãe, de me ensinar algumas coisas. Quando eu passei a estudar numa escola que tinha biblioteca, porque isso também era raro nos anos 90, eu comecei a emprestar livros da biblioteca para ela (ela pedia livros). Foi muito importante para mim.

Quando eu comecei a ter esse hábito da leitura, eu comecei a perceber que minha mãe escrevia muito, e sempre escondida. Escrevia e rasgava. A criança copia muito os pais, a gente reproduz muita coisa. Isso foi uma coisa boa que eu aprendi com a minha mãe.”

Ela

Desde cedo Raquel questionava sua criação, tanto a religiosa (evangélica) quanto a dos papéis de gênero tradicionais. Isso gerou muitos conflitos. Raquel nunca desistiu do seu desejo de, nos seus termos, pertencer ao mundo, como mulher, negra e artista.

Para quem quer acompanhar o trabalho dela, siga ela em sua página do facebook ou no seu blog. Ela estará presente na celebração de um ano do Sarau das Pretas, no Aparelha Luzia.