“Quem você é?”: terapeuta, negra e lésbica explica processo de reconhecimento

Como você sabe quem você é?

Por exemplo, se você se identifica como mulher branca, como você sabe que você pode assumir essa identidade? E para uma mulher negra? Ou mulher heterossexual? Ou mulher lésbica? Ou qualquer outro rótulo?

Quem você é depende das interpretações dos outros, ou você por si só controla isso?

A trajetória de Karla, psicóloga e terapeuta holística de 41 anos, na construção da sua identidade, revela muito sobre como a sociedade responde às tentativas de autoafirmação. Como ela se identifica é uma aprendizagem constante, que exige que ela supere as limitações do que as pessoas veem e aceitam.

Terapeuta Holística

Karla se formou em psicologia e sua carreira profissional, do primeiro emprego registrado até hoje, sempre foi na área social. Paralelamente a seu trabalho formal, ela desenvolve atividades como terapeuta holística, tais como constelação familiar, reiki e experiência somática. Ela explica a distinção.

Tem uma formalidade na psicoterapia que na terapia holística não tem. No meu ponto de vista, eu consigo ampliar mais as possibilidades de relação e de atendimento. Eu atendo também através da psicoterapia, porém eu me identifico mais com a terapia holística.”

Essa visão ampla do ser humano, desde as experiências corporais até a ancestralidade de cada um, é que informa o seu jeito de se posicionar no mundo.

Mulher Negra

Karla se identifica como mulher negra. No Brasil, um país em que o racismo se manifestou no branqueamento da população e na proposta de apagar outras identidades, assumir isso é uma conquista. Apesar de vários avanços no conceito de raça nos últimos anos, poucas pessoas a aceitam como mulher negra. Para a maioria da população ela não é branca e não é negra. A sociedade gostaria de colocar ela como parda, ou seja, sem identidade própria. Ela resiste, mas não como militante. Com um espírito de paz e tranquilidade, ela aceita o que outras não são capazes de aceitar.

“(Sou negra por causa da) minha ancestralidade. Meu pai era negro. (Sobre) essa questão de me reconhecer como negra, as pessoas não me reconhecem como negra. As pessoas falam que, no máximo (!), eu sou morena. Elas não me acham negra. Só quem tem uma visão de o que é ser negra entende que não é só a cor da pele. (Mas) a grande maioria entende que (ser negra) é o tom de pele.”

Uma das consequências da invisibilização é internalizar o racismo produzido pela sociedade sem saber.

Até pouco tempo eu falava assim, “o cabelo bom” ou “o cabelo ruim”. Cleyse (sua esposa) que me corrigiu. (Eu falava assim) porque é tão natural. Pessoas falam isso o tempo todo, você reproduz.”

Orientação Sexual

O processo de se entender como lésbica não foi como ela esperava. Mais uma vez ela tinha que descartar as pressões sociais para entender o que era verdadeiro para ela.

Tem gente que fala “desde sempre eu soube”. Não (foi assim). Antigamente, eu tinha uma coisa de autoestima baixa. Eu era muito introspectiva, passava anos sem cortar o cabelo, usava tênis, (roupas para esconder o corpo). Isso traz uma conotação. Pessoas olhavam e (me) chamavam de “caminhão”. Isso era bem agressivo para mim.”.

Esse rótulo, dado pelos outros, não era como ela se via. “Tinha muita dificuldade em arrumar um namorado. Hoje eu entendo (risos). Mas na época (me achava) um ser estranho.” Foi com terapia e experiência de vida que ela se descobriu.

Quem sou eu?

Karla é uma mulher negra, que atua como psicóloga e terapeuta holística, casada com outra mulher. Mas tudo o que isso significa não resume quem ela é. Quem é a Karla ainda está sendo construída.

Penso ou sinto que sou uma pessoa que estou me conhecendo, ou me reconhecendo. Eu não tenho essa resposta hoje, nesse momento. Eu venho de um processo de me desconstruir mesmo. Venho passando por várias transformações, na forma que eu me relaciono com as pessoas, o que eu desejo, o que eu quero. Hoje não tenho uma resposta pronta.”

Não importa tanto o resultado dessa busca, quanto a sua liberdade em definir-se por si, independente da aprovação ou não da sociedade.

Constelação Familiar

Para quem tem interesse em aprender mais sobre essa terapia holística, há um encontro no dia 8 de abril. (link). É um momento para “refletir sobre nossa existência e a conexão com nossa ancestralidade!” Quem tiver interesse é só entrar em contato.

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