Eu amo minha biblioteca pública

Você conhece a biblioteca pública mais perto de você? Você já visitou? Pegou um livro emprestado?

A existência das bibliotecas públicas faz alguma diferença na sua vida?

Eu cresci nos EUA e para mim a resposta é um alto SIM! Moro em São Paulo, faz 6 anos, e já visitei as duas bibliotecas do estado (na Parque da Juventude e no Villa-Lobos). Da rede municipal eu já frequentei: Mario Andrade, CCSP, o Arquivo Público do Estado, o Arquivo Histórico Municipal e três bibliotecas de bairro (das 52 que existem).

Não falo isso para parecer arrogante, mas para tentar dizer o que a biblioteca pública significa na minha vida.

Eu amo minha biblioteca pública

Quando eu visito os EUA, eu não vou às compras, não visito museus, não levo minha filha ao Shopping. Nós vamos para a biblioteca. Por que?

  1. Literatura é essencial (E gostosa)!

“Pesquisas do mundo todo mostram que a criança que lê e tem contato com a literatura desde cedo, principalmente se estiver acompanhada dos pais, é beneficiada em diversos sentidos: ela aprende melhor, pronuncia melhor as palavras e se comunica melhor de forma geral.” (fonte)

  1. Faz parte da cultura dos EUA.

Um estudo feito pelo Pew (uma instituição comparável IBGE) em 2013 avaliou o quanto Estadunidenses valorizam as bibliotecas públicas.

  • “95% das pessoas com 16 anos ou mais concordam que os materiais e recursos disponíveis nas bibliotecas públicas desempenham um papel importante em dar a todos a chance de ter sucesso;
  • 95% dizem que as bibliotecas públicas são importantes porque promovem a alfabetização e o amor pela leitura;
  • 94% dizem que ter uma biblioteca pública melhora a qualidade de vida em uma comunidade;
  • 81% dizem que as bibliotecas públicas oferecem muitos serviços que as pessoas teriam dificuldade em encontrar em outro lugar
E no Brasil?

O mesmo estudo não foi feito com brasileiros, mas é difícil acreditar que teriam as mesmas avaliações. Por que?

  1. Não existem bibliotecas para amar

O Estadão, em 2014, publicou um artigo citando que “Só 12,4% das escolas públicas da cidade de São Paulo, de ensino fundamental e médio nas redes municipal e estadual, têm bibliotecas.” Existe uma estimativa de que 90% das escolas públicas nos EUA têm bibliotecas. Isso não quer dizer que não há problemas com as bibliotecas de lá, mas é óbvio que mais crianças têm acesso lá do que aqui.

  1. Pessoas não acessam o pouco que existe

Poucas pessoas frequentam as bibliotecas, e menos ainda desfrutam dos recursos disponíveis. “Pouco mais de 48 mil pessoas (0,4% da população da capital paulista) estão autorizadas a pegar livros emprestados na rede municipal de bibliotecas.” (fonte)

Há necessidade?

Talvez seja uma questão cultural. Será que bibliotecas públicas têm menos relevância no Brasil?

Claro que não.

Bibliotecas publicas são tão importantes aqui quanto lá, por motivos diferentes.

No Brasil, livros são caros. Bibliotecas publicas são a melhor forma de fornecer literatura para todos os públicos, independentemente de custo.

Acesso ao livro tem um valor enorme em incentivar a leitura desde cedo, algo necessário num pais que lê menos de 5 livros por ano (um numero crescente, mas ainda baixo).

Educação e cultura são direitos constitucionais e bibliotecas contemplam os dois.

Como melhorar as bibliotecas públicas?

O prefeito Dória está com a proposta de entregar as bibliotecas para as Organizações Sociais (OSs). As justificações citadas são: melhor administração, ampliação de atividades culturais, aumento do acesso à cultura.

Julia*, integrante do grupo que cuida da página “Eu Amo Minha Biblioteca Pública” e bibliotecária, aponta os pontos fortes da rede em São Paulo.

A biblioteca pública serve para que as pessoas tenham acesso à informação e à leitura. O sistema de biblioteca de São Paulo é muito bem estruturado, comparado com a realidade das bibliotecas no Brasil. Funciona em rede, qualquer pessoa pode pegar os livros em qualquer lugar na cidade, tem bibliotecários de carreira que estão por anos em contato com a comunidade, e tem todo o trabalho do plano municipal do livro, leitura, literatura e biblioteca (PMLLLB).

“O que é assustador é que eles (da prefeitura) falam como fosse a grande novidade (as propostas de incluir outras atividades de cultura nas bibliotecas), e não é uma novidade. Já acontece atividades culturais nas bibliotecas.”

Ela explica o que significa entregar a gestão para OSs e os perigos econômicos e de qualidade do serviço para implementar essa proposta.

“O que a OS faz? Ela contrata profissionais, poucos qualificados, para economizar com o salário. O que é o grande problema da OS, além de afastar a bibliotecária da população? Ela faz o que ela quiser. Quem garante que a OS vai seguir as diretrizes? Quem garante que ela não vai passar a selecionar esse público que frequenta a biblioteca, de acordo com seus próprios interesses? (E) o orçamento da SP Leituras, OS que faz a gestão das duas bibliotecas do Estado, é de 18 milhões. Das 52 bibliotecas municipais, é de 40 milhões. Proporcionalmente esse gasto é maior.

Vale ressaltar que o Teatro Municipal é administrado por OS, que foi acusada de esquema de desvio de dinheiro público. O Fantástico fez uma reportagem destacando o risco de trabalho terceirizado e o desvio de dinheiro público.

O que queremos?

Existe um grande potencial para as bibliotecas públicas em São Paulo, já aptas para interagir e estimular o desejo por literatura na população que nenhuma outra cidade tem. É importante garantir ambientes acolhedores, focados no atendimento ao público e não apenas na guarda e organização dos livros. OSs não são a resposta para ampliar o acesso e desenvolver o trabalho atual e possível.

(Essa máteria foi desenvolvido em homenagem ao dia do bibliotecário, uma profissão predominante feminina, dedicada ao acesso à informação, educação e cultura. Agradecemos o esforço e compromisso delas!)

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*nome ficticio a pedido da entrevistada

Correção: uma versão anterior citou o orçamento das bibliotecas do estado como maior do que a rede municipal. O orçamento não é maior em termos absolutos.

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