Há poucas mulheres nas exatas? Sim, sem dúvida!

As estatísticas apontam que as mulheres são entre 4% a 20% das pessoas[1] nas várias disciplinas que compõem as exatas. Na população brasileira, as mulheres são mais de 50% do total, claramente não há representatividade. O número exato é impossível definir, porque não existe um banco de dados nacional sobre quantas mulheres se matriculam nas faculdades, sejam públicas ou privadas, quantas se formam e quantas entram nas várias carreiras definidas como exatas.

Além disso, existem mulheres que trabalham nas exatas sem um bacharel ou educação formal, por uma infinidade de razões, como o racismo institucional (o caso da Buh) ou a exclusão devido ao gênero (algo que a Tamires enfrentou, mas conseguiu superar).

Mesmo sem saber os números precisos, sabemos que a realidade para as mulheres tem mudado lentamente, em grande parte no sentido positivo. Na ausência de dados quantitativos, sobra um levantamento qualitativo.

O que é a experiência atual de mulheres que nasceram num Brasil democrático (um marco significativo na proteção da igualdade de gênero foi a constituição de 1988[2]), que puderam votar na primeira mulher presidenta do país (em 2010 ou 2014) e entraram na adolescência com a proteção da lei Maria da Penha?

Conversamos com três estudantes universitárias da UFABC (Universidade Federal do ABC) — Sami, Pamela e Isabella — para entender melhor a realidade das estudantes femininas nas exatas.

Competidora

Sami, 24 anos, estudante de engenharia de instrumentação, automação e robótica. O objetivo dela é “entrar numa montadora e fazer parte da área de projeto de veículos.” Desde o ensino fundamental ela percebeu a paixão que tem pelas exatas. O que fortaleceu seu interesse foi o envolvimento com as olimpíadas de matemática e física.

Sou bastante competitiva. Na escola já era bastante pela questão da nota. Toda prova que eu fazia, eu tinha que tirar 10, principalmente matemática porque é a matéria que eu mais gostava. Quando teve a primeira olimpíada, que eu participei, só de ver meu nome no mural da escola e depois receber a medalha foi “nossa, quero isso, ser prestigiada pelos estudos.” A premiação na verdade é um reconhecimento pelo que você trabalhou.”

Na UFABC ela continua alimentando esse lado competitivo, através da Equipe BAJA. É um programa totalmente voluntário para que “equipes desenvolvam e construam protótipos Off-Road para participar de provas teóricas e práticas.” Ela é a atual coordenadora da equipe, cargo que ela assumiu com muito orgulho e dedicação.

Mesmo sendo a primeira mulher coordenadora da equipe (que teve início na faculdade em 2011), numa área com pouca representatividade feminina, ela nunca sofreu algum tipo de bullying ou preconceito por ser mulher. Agora que ela está entrando nos cursos mais específicos para sua área, ela pensa que pode ter mais dificuldades. “Agora que eu me deparei, porque eu entrei numa sala e de quarenta pessoas, só duas eram garotas. Realmente percebi que não tem muitas meninas nesse campo que eu quero seguir. Na verdade, eu acho que os problemas por ser mulher, eu (possivelmente) vou enfrentar agora. Já ouvi falar muito do preconceito dos professores, mas eu não sofri esse tipo de preconceito. Já aconteceu com amigas minhas. Creio que isso não vai me desmotivar.”

Como a maioria das mulheres nas exatas, ela reconhece o papel primário da sua família. “Se não fosse o apoio da minha mãe, eu não estaria aqui. Ela sempre me apoiou muito, em qualquer decisão que eu tomasse. Ela não entende muito porque ela parou de estudar no ensino fundamental. Ela não entende o que é fazer uma faculdade, mas ela entende que é um sonho para mim e isso é importante para ela também. Ela me apoiou muito.”

Bancária apaixonada pela matemática

Pamela, paulistana de 25 anos, formada em ciência & tecnologia (um curso interdisciplinar na UFABC), está terminando o bacharel em matemática e trabalha em um banco. Ela destaca a importância em combinar essas duas formações.

Em relação a fazer um curso só de matemática pura, eu não teria essa formação interdisciplinar que a gente tem. Eu não teria essa compreensão maior da ciência. Se eu só fizesse ciência & tecnologia, sem fazer matemática, eu não teria esse aprofundamento técnico que a gente tem, fazendo matemática pura, que eu gosto mesmo. Eu acho muito bacana. Adoro (matemática).”

Ela cresceu em um ambiente que valorizava as exatas.

Meu pai, por mais que ele não tenha nenhuma formação e não tenha muito estudo, ele sempre gostou muito (de matemática). De criancinha ele mostrava aquelas curiosidades (de matemática, como a tabuada do 9 e a inversão nos resultados), e eu tenho um irmão mais velho e ele acabava sempre comentando, depois de uma certa idade, as coisas que ele aprendia comigo.”

Pamela entende que a sua trajetória na matemática foi possível devido à sua crença de que era possível enfrentar e superar dificuldades. Ela percebe que as meninas, em geral, são criadas para acreditar que elas são mais frágeis e sensíveis.

Um problema que muita gente acaba tendo com a matemática é que quando você está aprendendo, naqueles primeiros anos, e chega no desafio, já por ter esse estigma todo que a disciplina tem, o aluno acaba não sendo muito incentivado, seja pelos professores ou em casa. Você chega na primeira dificuldade “ah não, tudo bem. Matemática é difícil mesmo.” Ainda mais se a gente é menina, porque “não, menina geralmente não é muito boa (nisso)”. Em comparação às colegas com as quais estudei, eu acho que a grande diferença foi a confiança. Não que eu tenha sido uma criança super empoderada, mas não ouvir essa parte do “não, é difícil mesmo” ajudou muito.

Ser a menina boa em matemática foi algo positivo para ela na escola. Na faculdade ela percebeu pouco preconceito por ser mulher. Na vida profissional ela tem referências de mulheres fortes, que ajudam a enfrentar o preconceito mais velado. “No trabalho ninguém nunca aponta que você não sabe porque você é mulher, mas a gente passa pelo fenômeno do homem explicativista (mansplaining) — um homem me explicando algo que eu já sei. Isso acontece. Há um momento em que você tem que se apegar e se mostrar firme ali, e barrar esse tipo de coisa.”

Persistente

Isabella, a mais nova das três, com 23 anos, estuda engenharia da informação e faz licenciatura em física. Das três, ela também é a que mais percebeu as consequências do machismo nas exatas.

No bacharelado de ciência & tecnologia nunca senti isso (a desigualdade de gênero). Na física isso acontece (entrar numa sala e só ter eu), mas em engenharia da informação é mais ainda. É um curso muito específico. É difícil, então quem fica é só quem gosta mesmo. Nessas últimas aulas que eu peguei, esse quadrimestre só tinha eu (mulher), de 30 pessoas. (No entanto), aqui na UFABC eu nunca senti preconceito com outros alunos.” Infelizmente, nem todos os professores atuam com a mesma crença na igualdade de gêneros.

Ela estudou por quase dois anos na Alemanha, com o projeto Ciências Sem Fronteiras. Por mais que os brasileiros valorizem a Europa e tenham a noção de que é uma sociedade mais “civilizada”, também existe pouca representatividade feminina nas exatas lá.

Na Alemanha também tive essa surpresa. Foi uma coisa que mexeu mais comigo, por estar mais vulnerável pela questão da língua, por estar num outro país. Peguei as matérias do curso de engenharia elétrica, com ênfase em microtecnologia, e quando entrei na sala todo mundo virou. Só havia homens, quinze pessoas e só eu de mulher. Tinha dificuldade com a língua, e aí olhavam para mim e tentavam falar comigo em alemão, e por eu não falar direito, as pessoas achavam que eu não tinha capacidade disso. Demorei quase um mês pra aceitar (a situação).

Ela quer continuar os estudos na Alemanha e fazer os avanços acontecerem no Brasil. “Tenho vontade de voltar para a Alemanha, morar lá e pesquisar para a indústria. Não para a universidade, pelo menos aqui no Brasil. Porque a pesquisa aqui no Brasil fica no papel, muitas vezes você não vai aplicar. Eu quero pesquisar, mas eu quero aplicar. Existe um déficit muito grande nesse sentido no Brasil, e para eu preencher esse gap, eu preciso pesquisar fora. Não porque a lógica do Brasil é ultrapassada, não é isso. A gente não tem condições hoje.”

Estudantes Femininas: o futuro nas exatas

Ainda em 2017 existem mulheres que são as únicas na sala de aula, que são pioneiras por serem as primeiras em tal coisa (como a coordenadora da Equipe Baja), e que têm que lidar com homens que explicam algo que elas já dominam. Muito melhor que o século XX, mas não significa que não há muito a melhorar.

Essas mulheres jovens, estudantes universitárias (e profissionais), são exemplos da importância de incentivar e desafiar as mulheres à acreditarem mais em si e sonharem que tudo é possível.

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[1] http://artedemulher.com/language/pt/2017/02/mulheres-exatas/

[2] http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2013/10/constituicao-de-1988-e-marco-na-protecao-as-mulheres