8 de março. Dia Internacional da Mulher. 2017. Nessa data eu participei do seminário #smashtheglass. Acompanhei a manifestação “Aposentadoria Fica, Temer Sai”. E assisti o documentário: Nós, Carolinas.

Por tudo que foi explicado sobre as origens do dia (aqui, aqui e aqui) e por todas as análises do discurso misóginas que perpetuam diante à data (como aqui e aqui), senti falta de uma reflexão sobre o que esse dia significava para as mulheres nos eventos que ocorreram ao longo do dia.

Terminei o dia esclarecida sobre uma coisa — o único caminho para a igualdade de gênero, raça, orientação sexual, etnia, habilidade é a solidariedade.

#smashtheglass

O consulado do Canadá articulou com o governo do Estado de SP para promover um evento gratuito e debater o empreendedorismo feminino.

As falas mais marcantes do dia foram da Ana Paula Xongani, empreendedora, estilista de moda negra e youtuber.

Alguém que assistia pediu um conselho sobre como a mulher jovem pode lidar com as expectativas externas e internas. E a resposta da Ana Paula foi o que me norteou o resto do dia.

Eu acho que inventaram que a gente (mulheres) é desunida, mas a gente não é. A gente não percebe quantas somos. O que me fortalece é o bate papo, é o diálogo, é o olho no olho, é a ajuda. Por isso eu acho que é importante fortalecer os encontros. É muito mais fácil falar para vocês, estando aqui, do que se fosse uma plateia cheia de homens, por que eu estou me sentindo acolhida. Acho que a palavra para a gente se manter sã diante de tantas opressões é acolhimento. (Essa) solidariedade, que a gente tanto fala, é o que a gente precisa para caminhar.”

Manifestação

Houve um racha na organização da manifestação no dia. Um grupo se concentrou na Sé, outro no MASP.

As razões não ficaram muito claras. Conflito sobre as melhores práticas de organização? Prioridades divergentes? A juventude versus os sindicatos? Uma disputa de ego?

Independente do motivo, o resultado era uma chance perdida de nos juntarmos em massa e mostrar, para a cidade e o mundo inteiro, nossa força numérica.

Mas…espera….unificamos! Aposentadoria Fica, Temer Sai subiu a Brigadeiro Antônio, 8M desceu. Apesar dos conflitos entre os organizadores (que continua?), quando os dois grupos de mulheres se reconheceram, um grito de felicidade ecoou da multidão. Tambores ecoavam com mais força, nossos pés levantaram com mais leveza, e os passos ficaram mais suaves.

Mesmo com tudo que nos divide, e sempre irá ter coisas, o momento de se juntar foi de alegria espontânea e mostrou o poder da unificação.

Nós, Carolinas

Terminei meu dia assistindo: Nós, Carolinas, um documentário feito por um coletivo de mulheres: Nós, Mulheres da Periferia.

Em dezessete minutos, quatro mulheres da periferia de São Paulo, de 17 a 93 anos, relatam suas experiências com o racismo, o machismo e a exclusão econômica.

O resultado é profundo, artístico, lindo. Realmente, não consigo pensar em nenhuma crítica da obra.

O filme teve duas mostras, a primeira sessão esgotou. Depois da segunda exibição, alguém na audiência levantou para dizer que o documentário forneceu uma espécie de cura para ela, uma mulher periférica, invisível na sociedade. Ela falou que assistir mulheres no mesmo contexto, na mesma invisibilidade, sendo valorizadas em um filme, tocou-a profundamente.

Uma das personagens do filme, Tarsila, estava presente na exibição. Ela falou como é ser uma representante de tantas outras mulheres.

Um trabalho feito por um coletivo de mulheres, documentando as vidas das mulheres, valorizando suas falas e existências, conectando-as com as vidas de milhões de outras mulheres em São Paulo, propiciou uma experiência realmente inspiradora.

E agora?

Voltei para casa, exausta e energizada com essa mensagem de solidariedade. Desde então eu fico pensando: como nós, mulheres, podemos ser mais unidas? O que significa solidariedade em nosso cotidiano? Como nós podemos nos unir para atingir os sucessos da Ana Paula, a multidão de mulheres nas ruas, e de Nós, mulheres da periferia?

Pensei em várias coisas, mas identifiquei um passo fundamental para aumentar a solidariedade entre as mulheres.

Mais amor!

Quando você vê uma mulher com uma determinada roupa você a acha indecente? Uma mulher que “bebe demais”, “grita demais”, fala palavrão, não se comporta de acordo com o que você acha certo? Ela é insuficiente em algo e se excede em outra coisa?

Não tem como evitar o julgamento em si, o pensamento virá com certeza, isso está fora do seu controle, mas pense bem antes de acreditar nesse pensamento e espalhar esse julgamento.

Humanos têm uma tendência a achar que os próprios defeitos são questões pontuais e os dos outros são problemas de caráter. Por exemplo, se você se atrasar você provavelmente vai achar que foi devido à fatores externos. Se eu me atrasar, você vai ter uma tendência maior à me culpar como uma pessoa desrespeitosa ou irresponsável. TODAS nós temos nossos defeitos. Não existe o jeito certo de ser.

Minha filha não assiste televisão mais de 30 minutos POR SEMANA. Tenho muito orgulho disso. Facilmente julgaria outros pais, se eu não a deixasse comer açúcar desde um ano (a indicação é não comer antes dos dois anos, pelo menos).

Não somos inimigas ou juízas para condenar umas as outras. Será que é possível apoiar nossa diversidade e não crucificar as diferenças? A vida seria muito melhor, né?

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E você? O que você acha que nós precisamos fazer para melhorar nosso poder coletivo, essa tal de solidariedade?

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