Mulheres avaliam primeiro mês da gestão Dória

João Dória, empresário de 58 anos e atual prefeito de São Paulo, foi eleito com 3.085.187 votos, recebendo 53% dos votos válidos.

Ele ganhou o cargo de prefeito da maior cidade da América Latina, no primeiro turno.

Isso significa que ele tem um mandato e o apoio inequívoco da população?

Conforme a rapidez e a quantidade de ações tomadas nos primeiros trinta dias da nova gestão, parece que ele entende que sim.

Nesse janeiro cheio de novidades, ele:

  1. Aumentou a velocidade das marginais de São Paulo, que tinha sido reduzida na gestão anterior;
  1. Aumentou em 14.8% (em conjunto com o Governador Alckmin) o custo da integração ônibus/metrô
  1. Instituiu o Programa “Cidade Linda” (Esse foi o motivo para ele se vestir de gari). Instituiu o Programa “Calçada Nova” para incentivar a população à recuperar as calçadas da cidade (O último foi o motivo para Dória andar de cadeira de rodas).

Paralelo à essas ações de “revitalização”, Dória iniciou a campanha contra a pichação em São Paulo. Propôs um aumento na multa para pichação, incentivou taxistas a informarem atos de pichação e cobriu uma parte significativa de grafite na Avenida 23 de Maio, com a justificativa que estavam danificados com pichação;

  1. Propôs um plano para entregar a gestão do CCSP e de 52 bibliotecas municipais às Organizações Sociais (OS). *O Teatro Municipal é administrado pela OS, que foi acusada de desvio de R$ 18 milhões;
  1. Propôs um novo plano de educação. O assunto sobre educação mais discutido na campanha, a falta de vagas nas creches, aparece no plano com a proposta de diminuir a lista de espera (para pelo menos 66 mil dos 130 mil na lista), recorrendo à convênios com OS. Expressou a possibilidade de cortar o programa Leve Leite e de criar creches em agências bancárias.
  1. Extinguiu a Secretaria de Políticas para Mulheres e a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial e as converteu em coordenações da Secretaria de Direitos Humanos.
  1. Assinou o decreto que liberou os Guardas Civis Municipais a tirar os pertences de pessoas em situação de rua. No entanto, garantiu que isso não acontecerá.
  1. Propôs o fechamento das farmácias do SUS. A nova forma de distribuição das medicações possivelmente será o fornecimento pela rede particular.

ilustração com doria e funcionarios apagando graffite e outros programasMULHERES AVALIAM

Do total do número de votos na eleição, 54% era de mulheres. Não é possível identificar quanto dessa porcentagem apoiou Dória ou votou branco/nulo/abstenção (38,84% dos votos), mas basta para entender que as mulheres são a maioria do eleitorado em São Paulo.

Então, como elas avaliaram as ações do novo prefeito?

 

retrato da eliana

Para Eliana, microempreendedora, mãe e empregada doméstica, a preocupação maior é se as ações, tal como a nova distribuição dos remédios, vão prejudicá-la, ao invés de ajudar.

Nós vamos ter que nos deslocar até o centro para pegar esses remédios? Ás vezes a gente não tem condução ou tempo para buscar um remédio, sendo que aqui eu não levo nem dez minutos para ir e voltar.”

Ela admite que não acha bonito alguns grafites, “porém, eu vi na internet que alguém fez uma pichação “a saúde, a educação e o transporte da nossa cidade tá um lixo e vocês estão preocupados com a pichação?” É verdade. Eu mesma estou esperando um exame de saúde à seis meses.”

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Gabs Leal, antropóloga que estuda o uso da rua a partir do grafite de SP, postou um texto no facebook (concedido e editado para publicação aqui) e observou que,

Se por um lado, estas ações (do prefeito) contemplam medidas necessárias, como a recuperação de calçadas, recolhimento de entulhos e a poda de árvores, por outro lado, a escolha inicial dos lugares (os quais sem dúvida alguma não são os mais necessitados deste tipo de ação) e a incitação de ódio contra parcelas minoritárias da população, como o caso da população em situação de rua, e grupos de expressão cultural, como no caso do pixo e do graffiti, explicitam esta questão.

Como bem sabemos, a efemeridade faz parte destas práticas, assim como as repressões policiais sempre estiveram presentes. No entanto, esta narrativa belicosa e intolerante tende a radicalizar e recrudescer a criminalização, incentivando a vigilância e punição não só por parte do Estado, mas também por parte da população.

Este tipo de polarização no discurso provoca consequências perversas, incitando conflitos e intolerância nas relações cotidianas entre esses diferentes grupos. E, neste cenário, é a cidade que perde.”.

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Aline, 31 anos, dona de uma loja de sapatos na zona norte, acha que é cedo para fazer uma avaliação do novo prefeito. “É pouco tempo para saber se ele está no caminho certo.” Ela não concorda com o aumento de velocidade, com o que foi feito com a Av. 23 de Maio ou com a proposta para as farmácias, mas falou “vi muitas outras coisas boas que ele fez, (como) pagar os professores. Ele ainda está indo no caminho certo.”

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retrato ana paula

Ana Paula, 35 anos, professora efetiva desde 2008, disputa a possibilidade de colocar as metas da educação em prática.

É impossível. É muito desejoso que as vagas sejam abertas, mas tem que ser com prédios, estrutura material e recursos humanos adequados. O que acontece é que as ditas conveniadas pagam muito mal a seus funcionários em comparação com as professoras dos CEIs ( centro de educação infantil) administrados pela rede. As conveniadas não garantem a formação, e tudo isso afeta a qualidade de atendimento aos bebês e crianças.”

Ela faz uma reflexão importante sobre a extinção das duas secretarias.

Quando você iguala, não atende as diferenças e especificidades de cada segmento. Acho ruim, pois descaracteriza e empobrece o trabalho, declarando-os apenas como minorias em busca de direitos e não como segmentos populacionais com demandas específicas.

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retrato marcela mml

Marcela, que faz parte da executiva nacional do MML (Movimento Mulheres em Luta), na Zona Leste de São Paulo, reflete sobre as consequências dessas várias ações. “Todas essas medidas são parte de uma mesma política privatista e excludente e que tem por objetivo separar ricos e pobres, sendo que às trabalhadoras e trabalhadores o lugar reservado é a periferia da cidade, por exemplo, e o aumento da integração de transporte afeta diretamente essa população que mora mais distante e que necessita de mais transportes coletivos para ter acesso à cidade.”

Ela entende por que uma porcentagem da população feminina espera ações positivas do novo prefeito.

Nem sempre há uma compreensão global do objetivo das medidas, visto que o prefeito se aproveita das necessidades imediatas da população para impor um projeto político, como por exemplo, uma mãe que precisa de creche para poder trabalhar e deixar seu filho em segurança.

Entretanto, ao se deparar com a qualidade dos serviços ou a falta dele, elas sentem o impacto direto em suas vidas, gerando uma contradição que faz com que elas sejam obrigadas a enfrentar o projeto como um todo, que não responde as sua necessidades e, a partir disso, vão ganhando consciência.

Não por acaso, as mulheres estão a frente de diversas manifestações em São Paulo e no país, por direto a moradia, a saúde, educação, emprego e contra a violência machista. Cabe aos movimentos ajudar a organizá-las e aprofundar essas experiências. O Movimento Mulheres em Luta, a partir de uma compreensão classista da luta das mulheres, se dedica a essa tarefa e busca intervir nesses processos para apresentar ao conjunto das mulheres trabalhadoras um projeto de sociedade em que seja superada a opressão e a exploração capitalista.”

RESUMO

João Dória — empresário que declarou R$ 33,9 milhões apenas em obras de arte, um homem cis, branco, hétero — é capaz de criar políticas que trarão melhorias para uma população com rendimento mensal de R$1.482, 52.6% feminina, 37% negra e 8% lésbica, gay e bissexual?

Conforme as ações dos primeiros trinta dias, a resposta é não.

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