“Sou jovem. Sou uma mulher negra. Ninguém vai dar lugar para mim”, diz criadora da Info Preta

O filme “Estrelas Além do Tempo” destacou que antigamente os computadores eram pessoas, e muitas vezes, mulheres. Com a introdução dos computadores eletrônicos, foi criada a área acadêmica da ciência da computação. Uma área que em sua origem teve uma grande presença feminina, aos poucos se tornou uma área com um domínio quase totalmente masculino. “Em 1984 cerca de 37% dos cargos em ciência da computação eram ocupados por mulheres. Em 2011, esse número caiu para 12 %.[1]

Além da área não ter representatividade de gênero, existe uma barreira maior, o racismo institucional. O exemplo em uma das maiores faculdades no Brasil, a USP (Universidade de São Paulo), ilustra esse fato.

“A maioria dos alunos que entraram na USP em 2010 são brancos (77,5%), seguidos dos pardos (10,6%), asiáticos (9,54%), pretos (2,16%) e indígenas (0,22%). Apesar dos asiáticos serem apenas 1,4% da população e os negros 34,6% da população paulista (Censo 2010), o número de asiáticos e negros que ingressaram na USP em 2010 quase se igualam, o que demonstra que os negros ainda não tem acesso a Universidade de São Paulo[2].”

Autodidata

Buh, técnica eletrônica de 22 anos e empreendedora, possui vários certificados, mas o conhecimento dela vem de muito prática. Ela relata que nos espaços acadêmicos ela sentiu intensamente o peso do racismo. “É muito difícil encontrar uma pessoa negra que nunca ficou sozinha no ambiente de aprendizagem. Eu tranquei a faculdade porque eu era excluída. As atividades tinham que ser em grupo, e mesmo sendo em grupo, as pessoas me deixavam de lado. Quando eu entrei no curso tinham oito pessoas negras, mas foram saindo. Sobrou eu e mais três. Na minha sala todo mundo era predominante branco. Tive tanta dor psicológica que eu achei melhor parar, sair e pensar em outras coisas. Eu peguei o tempo que eu tava perdendo lá, (recebendo) nota (mas) aprendendo nada, e vesti aquilo. Eu falei, bom o que eu vou fazer? O que eu sei fazer? Sei consertar.”

Solução: Info Preta

Diante à exclusão que o racismo proporciona, a resposta de Buh foi iniciar o próprio negócio, a Info Preta. A ideia do negócio tem cinco anos, mas com a atual forma existe desde outubro de 2015.

Além de ser uma fonte de renda e um espaço garantido para aplicar suas habilidades, a Info Preta, foi criado com “o intuito de proporcionar para todas as mulheres (cis e trans), moradoras periféricas em situação de vulnerabilidade, o acesso facilitado a computadores e a manutenção de seus computadores com preços acessíveis e muitas vezes gratuitos. Nosso objetivo é impulsionar mulheres para as exatas, conservar o meio ambiente, com o descarte correto dos eletrônicos e outros materiais. Acreditamos na potencialização da formação de mulheres em situação periférica através do acesso a computadores e notebooks, consequentemente democratizando o acesso à internet.”

A missão delas é

Promovendo a igualdade através da tecnologia.”

Os serviços consistem em: consultoria, manutenção, desenvolvimento de sites e aplicativos, reciclagem de equipamentos, instalações e cursos.

Info Preta também tem um foco social que norteia as ações da empresa. Elas criaram um programa chamado Notes Solidárias da Preta que “repara e conserta computadores, obtidos através de doações voluntárias, para serem consertados e doados às mulheres estudantes matriculadas regularmente em ensino superior e com boas notas.”

Sucesso

Buh nota que o Brasil, “tem uma cultura que preza muito a estabilidade,” mas, ela não acreditava nas opções mais tradicionais. “Sou jovem. Sou uma mulher negra. Ninguém vai dar lugar para mim. Em nenhum momento deram, não vai ser agora. Vou ficar esperando esse pessoal ter dó de mim?” Ela teve a coragem de criar seu próprio espaço, e seus pais foram muito importantes na trajetória dela. “Eles foram e são os que mais me apoiam.

O nível de sucesso que ela atingiu é um repúdio ao racismo que ela sofre. “Desde quando eu comecei, muitas portas estão se abrindo. A ponto de eu não entender o que está acontecendo ainda, de eu sair em revistas que as pessoas que me discriminavam vão ler. A vida dá muitas voltas.” Para Buh, é fundamental possibilitar essas oportunidades para outras mulheres negras.

Isso não quer dizer que ela abrace completamente o rótulo do sucesso. Quando perguntado sobre sua maior conquista até hoje, ela pausa por um tempo e responde, “Não sei. Acho que não tive minha maior conquista. Ainda falta bastante.”

Possivelmente, a dificuldade de assumir a conquista do seu trabalho é mais uma consequência nociva do racismo, que ela continua enfrentando diariamente. “As pessoas acham muito que preta sempre tem que ter os mesmos trabalhos, ou diarista, faxineira, gari. E quando você vê uma pessoa negra de outras áreas, as pessoas sempre acham errado. Tem lugares que eu vou por causa de eventos e o pessoal acha que eu sou da limpeza, com mochila nas costas e crachá. Aqui (no Brasil) o que mais pega é a cor.”

Futuro

Ela entende que um futuro com mais mulheres, principalmente negras, nas exatas, apenas vai ser possível com mais representatividade e honestidade. “Quando você mostra a realidade para a pessoa, você esta mostrando realmente o que acontece. Ou seja, que a pessoa é igual a você. Ela pode, então você também pode. É isso que eu faço aqui, quando vem o pessoal.”

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Como apoiar a Info Preta:

  • Ajuda com os custos do novo aluguel. A vakinha terminou em 15/02, mas ainda é possível fazer uma doação.
  • Doe seu note para o programa Note Solidário.
  • Conserte e compre com a empresa.

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Para mais informações sobre:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/23/politica/1471974537_807590.html

https://www.youtube.com/watch?v=1PaZFUaOl-A

http://azmina.com.br/2016/10/ja-pensou-em-contratar-uma-assistencia-tecnica-so-de-mulheres-negras/

http://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,diversidade-nao-e-50-do-role-e-50,10000086609

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