Para além da estatística: uma bailarina no campo das exatas

De todas as disciplinas nas ciências exatas, a estatística e a computação são as mais presentes em nosso cotidiano. Devido à prevalência da tecnologia, as pessoas percebem mais o impacto da computação do que o da estatística. Mesmo para as pessoas que “não gostam” de matemática ou números, é provável que você tenha contato com a estatística hoje. Diariamente lemos, escutamos, vemos e pensamos em estatística.

Os exemplos citados acima são simples, acessíveis e frequentes.

Para pessoas formadas em estatística, os conceitos e dados são muito mais complexos, com uma utilidade mais abrangente ainda. Angela, estatística e bailarina, 38 anos, comenta que,

“Amo essa possibilidade de trabalhar em diversas áreas, gosto de trabalhar com bancos de dados (datamining) e tirar conclusões sobre os dados coletados, gosto de criar ferramentas para previsões (modelos estatísticos) e gosto de ver como isso transforma positivamente as empresas e as pessoas (por exemplo: redução de custos com quebra de máquinas industriais, melhoria em tratamentos médicos, etc).”

Ambiente Familiar

Para Angela, ser uma mulher nas exatas nunca foi uma realidade distante. Sua mãe é matemática, e é a maior referência feminina para ela nas exatas. “Eu sou fã da minha mãe! Que é professora de matemática, e graças a ela, muitos alunos que detestavam matemática passaram a gostar!”

Seu pai é estatístico e incentivou sua confiança e interesse nas exatas. Embora não sinta as barreiras frequentes entre a maioria das mulheres, ela percebe que ainda existem muitos preconceitos em reconhecer o esforço e o talento feminino.

Eu me considero sortuda, pois nunca tive grandes problemas na minha carreira por ser mulher, sempre fui muito respeitada e sou até hoje. Porém, vejo muitas pessoas (homens e mulheres) que ainda fazem comentários pejorativos sobre mulheres que foram promovidas ou possuem cargos de liderança (principalmente se a mulher for bonita), comentários terríveis como: “Ah, se foi promovida é porque saiu com o chefe” ou “Ela só está naquele cargo porque é bonita”, isso é terrível.

Além dos números

Tal como a estatística não é apenas uma coisa, o mesmo se aplica as pessoas que praticam a disciplina. Angela não é apaixonada só pela estatística. Ela dança e dá aula de dança do ventre.

Os empregos para estatísticos ainda se concentram nas metrópoles, então tive que deixar a casa dos meus pais com 24 anos, para trabalhar em São Paulo. Sempre morei no interior e foi uma mudança drástica morar sozinha em uma cidade como São Paulo. A adaptação inicial foi difícil, me sentia sozinha, estava longe da minha família. Foi aí que procurei a dança para me ocupar e fazer amigas, escolhi a dança do ventre por causa da minha descendência libanesa por parte de pai.

A dança me ajudou (e ajuda até hoje), pois além de ser uma atividade física excelente. É uma arte muito rica e tem tudo a ver com minhas origens árabes. Atualmente também dou aulas (a noite e aos sábados) e foi uma coisa que aconteceu de forma inesperada na minha vida.

Sou uma apaixonada por dança, são 16 anos de muito estudo e dedicação. Dou aula em uma escola grande de São Carlos, o Ballet Expressão e é uma atividade que eu adoro. Com a arte posso extravasar e deixar fluir minha criatividade. A combinação é perfeita, pois com a estatística exercito o raciocínio lógico e com a dança exercito a criatividade. E essas atividades tão diferentes me ajudam a evoluir, pois uma influencia a outra de forma positiva.”

Na realidade, a dança traz mais questionamentos e críticas do que ser mulher nas exatas.

Enfrento preconceito com a dança, ainda mais dança do ventre. Por que as pessoas conhecem a dança de forma superficial e muitas vezes a tacham de vulgar. A cultura árabe é muito rica, a dança árabe é uma arte milenar e além da dança do ventre tradicional (que a maioria das pessoas conhecem) existem os folclores, danças específicas de cada região árabe. Eu estudo muito e ainda tenho muito o que aprender, existe uma gama enorme de modalidades dentro da dança árabe. Mas as pessoas são preconceituosas e o machismo aqui no Brasil é muito forte. Uma vez tive que ouvir de um ex-namorado que ele tinha que “tolerar” que a namorada dele dançasse com a barriga de fora. Estamos no Brasil, vamos à praia de biquíni, então fico aqui pensando por que uma barriga de fora é tão recriminada...”

Esperança

Quando ela pensa no futuro, ela vê esperança para as mulheres nas exatas. “Acredito que se uma pessoa é estimulada em diversas áreas desde criança, ela começa a mostrar sua verdadeira aptidão (exatas, humanas ou biológicas). Cada vez mais o número de mulheres nas exatas irá aumentar, até chegar nas proporções atuais dos homens.”

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