“Nunca observei qualquer diferença de desempenho em sala de aula que estivesse relacionada ao gênero”, diz professora de engenharia

A nova série, #maismulheres, trata das experiências das mulheres brasileiras nas exatas. Em quase todas as entrevistas, as mulheres relatam a importância dos parentes (seja dos pais ou outros familiares) na escolha de carreiras nas exatas, onde existe pouca representatividade feminina. Para Michèle, professora universitária formada em engenharia civil, 48 anos, seus pais foram peça fundamental na sua trajetória nas exatas.

Apoio Familiar

Tive sim, dúvidas e insegurança no início, vários percalços ao longo desses 30 anos (de carreira), mas nunca me senti menos capaz ou inferiorizada pelo fato de ser mulher. E devo isto aos meus pais, Miguel e Lúcia, que se respeitavam e compartilhavam responsabilidades e decisões. Na nossa casa, nunca houve qualquer episódio de machismo — nunca mesmo! — então, pra nós três, as filhas, nunca fez o menor sentido desistir de qualquer coisa por sermos mulheres. Na minha vida acadêmica e profissional, isso foi e, até hoje, é fundamental. Eles me ensinaram a não desistir.

Ela identifica auto-crença e persistência como peças-chave no desenvolvimento das habilidades necessárias para as exatas.

Como professora de adultos, eu posso afirmar que nunca observei qualquer diferença de desempenho em sala de aula que estivesse relacionada ao gênero. Não sou especialista, mas posso relatar que, no meu caso pessoal, o fato de não vivenciar o machismo em casa, contribuiu muito para que eu acreditasse na minha capacidade de fazer qualquer coisa. Funcionou pra mim – que virei Engenheira – e para as minhas irmãs, uma Bacharel em Letras e a outra Jornalista. Essa condição familiar tão propícia acaba “neutralizando” o efeito deletério de um ou outro que tentasse atrapalhar, seja na rua ou na escola (o que, de fato, acontece algumas vezes). Infelizmente, não é todo mundo que tem a sorte que eu tive. Com toda a minha timidez, eu tive medo, claro. Mas fui com medo, mesmo, e ainda vou.”

Como Mulher

Essa confiança e persistência, mesmo diante do medo, eram fundamentais para ela como estudante e profissional na área.

Eu escolhi, passei no vestibular e ingressei na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) sem nem saber direito o que era Engenharia Civil. Tive muitas dúvidas no início, mas nunca relacionadas ao fato de ser mulher e de compor uma minoria na minha turma. Ao longo do curso, é claro que eu e minhas colegas vivenciávamos algumas situações desagradáveis — tanto por parte de alguns (felizmente poucos) colegas, como de professores — piadinhas sexistas eram bem comuns e toleradas naquela época, por exemplo.

Apesar de nunca sentir o peso do machismo como uma barreira, ela reconhece que é um fator para as mulheres. “O que é mais difícil pra mim, como mulher – e, aí, eu suspeito que nem seja uma exclusividade da minha área – é o preconceito velado. São as pequenas coisas, muitas vezes travestidas de delicadeza ou cavalheirismo, tão sutis — que dificultam qualquer reação. Mas sim, a mulher sente e sabe que é preconceito.

Desafiando Expectativas

Pessoas têm noções do que são as exatas e estereótipos de quem gosta e o porquê. A proposta do blog, e em particular a dessa série, é questionar o que achamos sobre as mulheres brasileiras nas exatas. Michèle explica o que ela aprecia sobre a vida de professora, e revela a real mágica do ensino-aprendizagem.

O que eu mais amo, é justamente o fato de que, ao contrário do que se acredita, nem tudo aqui é tão exato. Eu, particularmente, trabalho como professora e pesquisadora na UFJF. Como professora — não tem nada menos exato do que o processo de ensino-aprendizagem — é muito bom contribuir um pouco para a formação de mais engenheiros e engenheiras (o Brasil precisa tanto da gente). E, na minha área de pesquisa, que é a Modelagem Computacional, cada estudante que procura a minha orientação, querendo aprender alguma coisa nova, faz com que eu me sinta de novo uma iniciante, me obriga a estudar junto e, daí, acabo aprendendo muito também. Em poucas palavras, justamente por não ser nada tão exato quanto parece, o que eu mais amo é a sensação de estar sempre começando algo novo.

Uma Grande Engenheira Brasileira

Vivemos numa sociedade que valoriza grandes ações e nomes com peso histórico. O que fazer num mundo com tão poucas referências femininas? É essencial buscar fontes de inspiração, mesmo que elas sejam desconhecidas. Michèle relata que realmente está difícil identificar uma mulher famosa na sua área. Porém, isso não significa que o trabalho das mulheres não mereça reconhecimento.

Resolvi até fazer uma busca na internet pra entender o porquê (não me vem à mente nenhum nome de uma “Grande Engenheira Brasileira Famosa”). Vi que no Brasil, praticamente não havia engenheiras nas universidades até meados dos anos 60. Eu mesma, durante a minha graduação, que foi de 1987 a 1991, não tive professoras nas disciplinas específicas do curso. Nem uma sequer! E no mestrado e doutorado, que fiz na UFRJ entre 1992 e 2000, quase todas as disciplinas que eu fiz foram ministradas por homens — tive apenas uma professora.

Ainda assim, quero falar de uma engenheira que eu admiro muito. É uma ex-aluna que hoje está fazendo doutorado em Engenharia Civil na UFRJ. Ela passou pela UFJF faz pouco tempo, teve as melhores notas da turma—era muito, muito inteligente. Ela fez intercâmbio em Portugal e ingressou na universidade através das cotas para negros oriundos de escolas públicas. Eu prefiro não dizer o nome dela – mas eu a considero um exemplo. Ela sintetiza a mulher engenheira que eu admiro.”

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