MC Luana Hansen: Artista, Ativista, Feminista

O Feminismo está em alta. Existem páginas no Facebook e contas no Instagram exclusivamente sobre o feminismo. É possível comprar roupas feitas para mulheres, por mulheres, com slogans de feminismo. Várias artistas, na rua e nas galerias, fazem arte com esse tema ou sob essa ótica. Há músicas, extremamente populares, que falam sobre o feminismo. Uma nova vereadora de São Paulo, Sâmia Bomfim, se identifica como feminista, e foi eleita em grande parte, por causa disso. Porém, ser feminista não exige uma postura política ou de militância.

Nessa onda atual de feminismo, poucas artistas se destacam por produzir não apenas para o mercado, e sim para incorporar a luta da igualdade das mulheres, em todos os âmbitos, em todos os instantes.

MC Luana Hansen é uma dessas mulheres: política, feminista, artista. Ela se identifica como mulher periférica, negra, lésbica. Ela vive a intersecção da opressão que essas identidades trazem — classismo, racismo, LGBTfobia. Ela não faz músicas pontuais sobre uma realidade quando lhe convém. Ela vive essas realidades diariamente, e a música flui da essência de quem ela é.

Feminismo Interseccional

Quando eu comecei a gravar “Ventre Livre de Fato”, isso 6 anos atrás, não tinha esse vertente de rap feminista como tem hoje. Não tinha. Existia uma galera que cantava punk rock. Quando eu percebi isso, vi esse cenário, eu senti falta de me ver.

Via aquela mesa falando de feminismo, falando de mulheres, falando até sobre racismo, mas não tinham mulheres pretas na mesa. Sentia carência de ver alguém parecida comigo, falando de coisas que fossem mais próximas da minha realidade. E aí, eu fui começando a perceber o quanto era importante quando eu falava no palco, tipo “eu sou mulher preta, periférica, sapatão” e as pretas sapatãs, “nossa, caramba, mana, alguém falou isso. Que lindo!” As coisas foram tomando esse lugar. Com o tempo, isso virou meio uma assinatura.

Sou a Luana Hansen. Mas, antes de ver a Luana Hansen, as pessoas já veem uma mulher negra. Antes de me verem como uma mulher, vão ver uma mulher negra e lésbica. É isso.

Meu nome, por ser Luana Hansen, não fala isso. Se ouvir a pessoa falar Luana Hansen, com certeza você não vai pensar numa mulher preta, periférica, lésbica. Talvez, você nunca vai pensar nessa Luana que eu estou te dizendo. Foi por isso que eu escolhi isso.”

Sucesso

MC Luana Hansen consegue ser humilde e crítica, sem ter a falsa modéstia que as mulheres são ensinadas a apresentar para o mundo. Ela tem orgulho do seu trabalho. Ela é uma artista muito acessível, dá entrevistas para a grande e para a pequena mídia. Acolhe pessoas novas em casa como se fossem amigas de longa data. Possivelmente, isso venha de uma trajetória muito longa de carreira, e de muita luta para conquistar seu espaço e reconhecimento para seu talento.

Já estou no rap há 16 anos. À dez anos eu vivo da música. Hoje, eu tenho uma breve noção de quem é a Luana Hansen. Não sei te dizer a proporção que meu trabalho tem. Não consigo enxergar. As pessoas falam “seu nome está rodando o mundo”, mas por ser uma coisa totalmente feita aqui em casa, ali no estúdio, não tenho a noção dessa imensidão, de como meu trabalho está ganhando espaço. Isso é uma coisa que estou digerindo ainda.”

Apenas no ano passado, em 2016, com o lançamento e sucesso inesperado do clipe de “Ventre Livre de Fato”, foi que ela percebeu o quanto sua voz importa.

É uma música que fala sobre aborto, num país como o meu (Brasil), totalmente religioso, onde o aborto é pecado. Essa é a primeira música que eu cheguei a 100 mil visualizações, num clipe que eu gravei, eu e uma amiga na Paulista. Quando a Globo me chamou para ir no programa “Amor e Sexo” para cantar Ventre Livre, aí eu tive noção (do impacto da minha voz). (Pensei) olha, estou indo lá para cantar minha música.. Não estou indo para ser intérprete de ninguém. Estou indo para interpretar quem eu sou, falando do que eu acredito e ninguém mandou eu não fazer.”

Musica & Militância

Mesmo atingindo um nível de sucesso e uma maior visibilidade, MC Luana reconhece que existem barreiras para ela que não existem para outras artistas.

Todo meu trabalho é político. Eu gravo, eu produzo, tento produzir só com mulheres, numa forma totalmente independente. Acho que isso também pega no meu trabalho. Não tenho aliança com os caras.

Tudo tem muito a ver comigo, não só pela posição política, mas também pela minha orientação sexual. Eu acho que também eu ser lésbica, numa sociedade totalmente machista, impede mais os meus trabalhos, além de ser feminista. Já tem aquele negócio “vamos isolar o trabalho dela, por que o trabalho dela tem a conotação de ser feminista sapatão”. E não é isso. Tento falar de uma forma ampla.

Meu trabalho não tem uma assessoria de imprensa. Não tem alguém que vai entrar na imprensa e falar de mim. Não tenho uma produtora que vai vender meu show para todo e qualquer lugar. Você não acha meu CD em nenhum lugar para comprar. É uma coisa totalmente independente, tem que comprar comigo num show.”

Tudo isso faz com que meu trabalho seja totalmente político. E ao mesmo tempo, faz com que as pessoas comecem a respeitar meu trabalho de outra forma. Tudo isso faz com que as pessoas comecem a ouvir meu trabalho. Acho que todo mundo, quando fala comigo, tem uma ideia, “não, a Luana é política mesmo, ela defende mesmo. Ela vai gravar CD na Fundação Casa com as minas, ela vai fazer a Marcha Mundial das Mulheres, ela vai fazer a primeira marcha da Luana, lá em Ribeirão com a família da Luana (Barbosa dos Reis Santos).” Estou nos lugares de fato. Estou nos atos, na rua com as minas, não estou só no palco.”

Para quê?

As pessoas falam para Luana que o objetivo dela, de que a música dela desperte uma consciência maior nas pessoas que a escutam, seja sobre racismo, violência contra a mulher, ou transfobia, é uma utopia. No entanto, ela continua com esse sonho.

Mais do que eu ter uma música com as bases foda, que você vai ouvir na balada e descer até o chão, acho que para mim o que importa, é a pessoa parar e falar “peraí, quero entender o que ela está falando. Peraí, ela falou da Cláudia que foi arrastada.” Eu queria que as pessoas tivessem essa gana. Eu queria que uma mulher que estivesse casada e não quisesse transar com o marido, e o marido chegasse muito louco e falasse, eu quero transar com você, ela percebesse que ela está sendo estuprada, a partir de ouvir uma música minha. Eu queria que as pessoas tivessem esse despertar.”