Preparativos para chegada do bebê

Antes de a minha filha nascer eu passei muito tempo pensando no meu parto, o que eu podia e o que eu não podia fazer, e o que eu deveria comprar.

Se fosse hoje, eu focaria em outras coisas. Em parte, porque eu sei que um bebê exige pouca coisa material, apesar de toda a propaganda dizer o contrário.

Juro.

A melhor preparação para a chegada de um bebê não é pintar um quarto ou comprar fraldas, é pensar e conversar com seu(sua) parceiro(a) e/ou com uma rede de apoio sobre os possíveis desafios. Pensar e conversar não significa que você estará preparado — é impossível realmente estar preparado para um novo ser humano totalmente dependente de você — mas, significa sim que você não ficaria totalmente surpresa diante dos grandes desafios, no momento mais frágil e confuso da sua vida. É maravilhoso ter um filho(a), mas não é fácil.

Hoje em dia eu pensaria nas seguintes questões:

  1. Como enfrentar o julgamento?

Quando eu engravidei, uma amiga me deu um conselho (eu que pedi). Ela me avisou que as pessoas iam dar muitos palpites, e que eu deveria escolher duas pessoas de confiança e ignorar o resto.

Nos momentos de crise ou dúvida todo mundo fala, mas eu só escuto essas duas pessoas.

Eu diria a mesma coisa para qualquer pessoa pedindo minha opinião. Isso E preparar-se. A quantidade de besteira que você vai escutar é incrível.

Tinha minhas duas pessoas, mas eu não estava preparada para o julgamento que uma criança estimula. A quantidade de palpite, NÃO SOLICITADA, é enorme. O número de vezes que as pessoas ficam irritadas é impressionante.

Li que falta empatia no Brasil[1], mas acho que vai além disso. Por que as pessoas têm tanta necessidade de dizer como o outro deve viver e se comportar? (me diga, se você entende o por quê!).

Eu viajei para os EUA com a minha filha quando ela tinha menos de um ano. Ela, que nunca foi boa de dormir, ainda estava acordada a meia-noite. Quando eu insisti para ela dormir (tirei os brinquedos) ela começou a chorar, porque ela estava exausta (bebês não são racionais). A mulher, uma brasileira de 20 e poucos anos, ao meu lado, começou a respirar profundamente e dar indiretas. Eu falei para ela que ela não estava ajudando. Ela respondeu que eu não estava fazendo nada para minha filha não chorar (estava balançando ela, sussurrando para acalmar ela, e inclusive liguei o vídeo, mesmo detestando mostrar vídeos para ela) e eu não tinha respeito com os outros. Minha resposta foi perguntar, “você tem filho(a)?” Ela falou não. Respondi que isso era óbvio, porque ela não tinha noção do que eu estava fazendo. Passamos o resto da viagem sem conversar, com aquela tensão chata.

(Thais Farage fala muito sobre a intolerância que a sociedade tem em relação às crianças e as consequências disso).

Tenho parentes que me criticam porque eu não crio minha filha para acreditar em papai noel, por não colocar a comida na boca dela ou por não deixar ela brincar com o celular.

Ando de ônibus em São Paulo. E as pessoas comentam sobre tudo.

Por que eu não coloquei brinco nas orelhas dela (isso acontece menos agora, que ela tem mais cabelo e “parece” mais menina)?

Por que eu a deixo chupar o dedo (isso incomoda pessoas a tal grau que não dá para entender)?

Eu não sabia que chupeta é melhor?

Por que eu a coloquei na escola?

Por que eu não a coloquei na escola (antes dela começar)?

Por que ela tem um pano?

E quando ela, ou qualquer criança, chora ou faz birra, várias pessoas olham fixamente. Dá a impressão que elas estão julgando o cenário.

Já vi um cobrador falar para uma mãe com o filho chorando, “não dá para fazer nada para ele parar de chorar?” Ela respondeu: não. Disse que a chupeta tinha caído no chão e ela não ia dar sem limpar. Várias pessoas falaram, dê a chupeta!

Diariamente, vemos nos noticiários informações chocantes sobre violência gratuita. Por que em casos de vida e morte, violência e ódio extremo, a sociedade fica calada e com a mãe fazendo seu melhor, criticamos sem parar?

Não dá para entender. Só sei que eu deveria ter me preparado, emocionalmente, para o ataque de comentários diários.

  1. Como criar uma comunidade?

Parece que dois adultos para um bebê é mais do que o suficiente. Temos a vantagem em termos numéricos, de raciocínio e tamanho. Mas não é.

Entre a falta de sono, as mudanças do corpo, o palpite dos outros, as exigências cotidianas de tarefas domésticas e de trabalho, criar um(a) filho(a), com qualidade e bem estar emocional, exige uma tribo.

Tenho pouca família no Brasil, e ninguém disponível de confiança para cuidar da minha filha gratuitamente — minha mãe mora nos EUA, e minha sogra não tem condições físicas para cuidar de alguém. Minhas cunhadas trabalham e/ou procuram emprego. A madrinha da minha filha é aluna universitária numa outra cidade.

Nos EUA é muito comum termos acesso às “baby-sitters”, tradicionalmente, adolescentes que cuidam de crianças por algumas horas por um valor acessível. Só a classe média alta consegue ter acesso às babás. Essa cultura não existe no Brasil, e para a minha família, que não consegue arcar com os custos de uma babá (e não quer participar de um sistema com raízes profundas na escravidão), mas, precisa de ajuda como todos os pais e mães precisam, a gente fica na mão.

Eu deveria ter investido muito mais tempo em criar vínculos com outras famílias e pessoas interessadas e capazes de ajudar um ao outro. Não sei bem como, mas eu acredito que existam espaços que facilitem isso.

Para as pessoas religiosas, pode ser a igreja. Não sou religiosa. Imagino que o mais adequado para mim seria o envolvimento num movimento, ou nos programas como primeira infância no SESC Bom Retiro. Se vocês têm outras ideias/sugestões, me passem!

  1. Como lidar com meu(minha) parceiro(a) (especificamente, nossa relação sexual!)??

Depois de a minha filha nascer, eu conheci dois casais que se separaram no primeiro ano de vida dos(as) seus(as) filhos(as). É chocante e compreensível.

Pensei em divórcio várias vezes no primeiro ano de vida da minha filha. É um momento tão difícil. Parei de ser a mulher que eu conhecia e virei mãe da minha filha. Perdi minha autonomia, noção de mim, sono (Não vamos subestimar as consequências graves de não dormir!).

Mesmo sabendo que tinha que criar tempo para o meu relacionamento, era impossível (em parte porque eu não tinha alguém para ficar com ela, e em parte porque não tínhamos a energia para criar esse tempo). Em qualquer momento livre, nós queríamos trabalhar e/ou fazer coisas de interesse pessoal.

Uma manifestação disso era nossa vida sexual. Estava casada quando eu engravidei e pari (e ainda estou). Nos últimos dois meses da minha gestação não tivemos relações sexuais. Meu parto (que foi natural, sem anestesia. Pelo amor!) resultou em eu tomar pontos em minha região íntima. Isso doeu, causou uma infecção e mudou a aparência da minha vagina. Eu tive absolutamente NENHUM desejo durante seis meses. Mesmo quando voltamos a ter relações, o que eu queria mudou (ele não podia tocar em meus seios, por exemplo).

Felizmente, essa falta de contato físico e da relação sexual foi tranquila para o meu parceiro, e passamos por essa fase.  Mesmo assim, eu acho que teria sido útil discutir e pensar nisso antes de acontecer. Poderíamos ter definido o mínimo necessário para a sobrevivência de nosso relacionamento (porque o primeiro ano de vida É sobrevivência) e ter feito um esforço para garantir aquele mínimo.

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Só para ressaltar, é impossível se preparar para um bebê. Sua vida vai mudar de tantas formas inesperadas e desconhecidas. O que é possível é pensar, refletir e imaginar. Você terá dificuldades, mas se você se sentir julgada, isolada e desconectada, você não está sozinha.

Para quem enfrentou situações semelhantes, por favor compartilhem suas aprendizagens e palavras de sabedoria.

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Leia mais sobre minha experiência de gravidez e parto.

Leia mais sobre minha experiência com a amamentação.

Leia mais sobre como estimular seu próprio desejo sexual.

Leia mais sobre relações sexuais e maternidade.

Leia mais sobre a experiência da minha família com o sono.

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[1] https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2016/10/31/ja-se-colocou-no-lugar-do-outro-ranking-diz-que-brasileiro-nao-tem-empatia.htm