Minha filha de 2 anos não dorme—relato de sono

Aos dois anos de idade minha filha ainda dorme mal. Ela demora mais de trinta minutos para dormir, chora pelo menos uma vez por noite (e não para sem receber minha atenção ou a do meu marido), e acorda antes das 7 horas da manhã. Todos os dias. Eu nunca imaginei que isso seria minha realidade quando ela nasceu.

A vida é complexa.

Minha gravidez foi estressante e sem complicações, e meu parto dolorido e tranquilo (leia mais). Assim que o parto terminou, comecei a pensar na amamentação e no sono. Dois anos depois, eu continuo pensando no sono.

A vida continua complexa.

Essa complexidade tem me ensinado várias coisas.

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Logo depois do nascimento dela, durante a primeira consulta com o pediatra, ele me orientou em relação a me esforçar para fazer a distinção entre o dia e a noite. Crianças recém nascidas não tem essa distinção. Quando ela tinha poucos dias eu abria a janela, cumprimentava o sol e explicava para ela o que era o dia.

Aprendi a importância da rotina. Todos os profissionais me avisaram que a rotina era essencial para a bebê. Colocava-a para dormir no mesmo horário, com a mesma rotina, todos os dias, desde o início. À noite eu fazia massagem de shantala (a partir de seis semanas), fechava a janela, borrifava lavanda, deixava o quarto escuro.

Tinha certeza que esse esforço, de ensinar a diferenciar o dia da noite e implementar uma rotina, ia resultar em uma filha sem problemas para dormir.

Estava enganada.

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Com três meses, em janeiro de 2015, ela dormiu a noite inteira. Fiquei com a esperança que ia ser o início do processo dela dormir bem. No dia seguinte ela acordou várias vezes. Fiquei frustrada, mas ela só tinha 3 meses. Eu não perdi a esperança.

Foi nessa época que as pessoas começaram a me dar conselhos. Minha melhor amiga nos EUA me aconselhava a dar fórmula infantil (leite artificial em pó com suplementos vitamínicos, comercializado comumente em latas) à noite para garantir que ela não acordasse com fome. Várias senhoras no ônibus (sem eu falar nada), me avisaram que não era para ela tirar soneca durante o dia. Eu ignorei essas pessoas porque eu sabia que não queria dar fórmula para ela±, e tudo que eu li falava sobre a importância da soneca.

Aos seis meses introduzimos alimentos sólidos e a colocamos em um berço no outro quarto. Tinha certeza que ela ia começar a dormir a noite inteira. Não começou.

Em junho (com oito meses) ela dormiu três noites seguidas, a noite inteira. Essas setenta duas horas me deram tanta felicidade. Tinha certeza que dali pra frente nossos problemas estariam resolvidos. Mas os problemas continuaram.

No fim de outubro de 2015 (ela tinha feito um ano), mudamos de casa. A primeira noite ela dormiu a noite inteira. E todas as noites seguintes, por três semanas. Amava minha casa nova por isso. Eu virei uma pessoa nova: sorrindo, feliz, comendo menos, meditando todos os dias. Percebi quanto a falta de sono fazia mal para mim e para meu marido.

Viajamos no fim de novembro de 2015, e quando voltamos ela ficou muito doente. Ela parou de mamar nessa época (o que foi um alívio enorme para mim, nunca gostei de amamentar) e…. parou de dormir a noite inteira. Além disso, ela chorava muito para dormir, então começamos a ficar com ela até ela cair no sono.

Na minha cabeça, eu continuava pensando que ela ia dormir a noite inteira por motivos externos, como quando ela começou a escola (com 1 ano e 3 meses), ou quando ela começou a andar (com 1 ano e 4 meses). Imaginei que ela ia ficar com tanto sono das atividades que ia dormir. Mas não dormia. Quando ela começou a escola em tempo integral, em setembro de 2016, foi a última vez que eu pensei que uma mágica aconteceria e ela iria dormir a noite inteira. Mas não aconteceu.

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Eu tinha a sensação que todos os meus amigos, conhecidos, pessoas que eu sigo no Instagram, tinham filhos(as) da mesma idade que dormiam a noite inteira. Me sentia mal (e exausta), mas respirei profundamente e resolvi aceitar a minha situação.

Minha filha é perfeita: carinhosa, corajosa, sensível com os outros. Só que ela dorme mal. Eu podia aceitar isso.

Pensei, cada criança traz seus desafios, para algumas mães/pais é uma criança que é mais agressiva, para outras é uma criança que come pouco, para outras é uma criança mais insegura. Para mim, era uma menina que dormia mal. Tudo bem.

Até que em novembro de 2016, quando ela teve uma infecção na garganta, o tal do dormir mal (acordar uma vez por noite para pedir água ou carinho por um tempo curto) piorou. Ela demorava mais para dormir, e acordava duas vezes durante a noite, por um tempo maior, pedindo para sair do quarto, brincar, ficar acordada.

Resolvi me consultar com a Denise Gurgel, fisioterapeuta que trabalha com a questão do sono. Anotei três dias/noites de nossa rotina e marquei uma consulta.

Durante a consulta, a primeira coisa que a Denise falou para mim foi que a minha filha estava controlando sua rotina. A segunda coisa foi que a minha filha não tinha autonomia para dormir.

Pode ser que isso seja óbvio para outras pessoas, mas eu fiquei chocada. Não sabia. Pensei que eu e meu marido estávamos no controle. Fomos nós que determinamos o horário, seguindo a mesma rotina todo santo dia. Não deixávamos ela comer doces à noite ou assistir televisão. Não éramos nós controlando a coisa toda?

Não.

Minha filha, com seus pedidos, enrolações e brincadeiras estava controlando a gente. Referente à autonomia, ela estava acordando para a gente dar água para ela porque nós não a ensinamos a pegar sozinha. Eu não ensinei minha filha a ter a confiança de acordar e voltar a dormir sem ajuda. EU! que faço tanto esforço para definir sua rotina e para ela ser independente! (ela tem uma cama montessoriana, bebe e se alimenta sozinha, toma banho com pouco ajuda).

Eu entendia a importância da rotina e de sua consistência, mas não conseguia aplicar esse conhecimento na vida real, numa forma eficaz.

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Não ensinei minha filha como cair no sono e dormir sozinha. Muitas pessoas conseguem fazer isso sem nenhuma dificuldade. Sofro até hoje por essa falta de conhecimento. Quero dormir!

Fico muito frustrada de não ter feito o trabalho que estou fazendo agora, antes. Mudar seus hábitos e costumes agora não é nada fácil. Ainda comparo minha falta de sono com as pessoas com filhos(as) que dormem 8 horas ininterruptas. Como eu não consegui fazer isso?

Mais uma vez eu reconheço que, a vida é complexa e meu melhor às vezes não é o suficiente, mas muitas vezes é mais do que suficiente.

Apesar da minha falha com o sono dela, minha filha é muito saudável, feliz, não apresenta nenhum problema na escola ou com outras crianças, trata nosso gato com gentileza e sensibilidade. Ela é um grande prazer em nossas vidas e nas vidas das pessoas que a conhecem.

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Criar filho é bem assim — fazer seu melhor, não atingir o esperado, e depois perceber que tinha várias outras formas e maneiras mais adequadas para fazer aquilo. É uma dúvida, suposição (chute), e fracasso atrás do outro.

Apesar do que muitas pessoas falam (sem solicitação), que HÁ a resposta certa, não há. O que existe é o que é possível naquele momento da vida.

Faz muito tempo que minha filha não dorme a noite inteira. Estou miserável. Quero dormir. Ao mesmo tempo, estou grata. Ela me traz muita alegria. A vida é complexa. Isso é meu maior insight desde a gravidez, e continua sendo uma lição de vida.

Se você tiver suas próprias dificuldades (com comida, mordidas, birras, etc) não se esqueça disso. Você, como eu, está fazendo seu melhor nesse momento — independente de como outras pessoas fariam ou qual seria o resultado. Se você pudesse fazer melhor/diferente, você faria. Tenha paciência com você mesma e a complexidade da vida.

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±Eu não dei fórmula infantil para minha filha, MAS eu reconheco que muitas mulheres não vivem numa realidade que possibilita amamentação. Indico esse site (em inglês) para obter mais informações cientificas e neutras sobre o assunto.