Thais: Empreendedorismo, Maternidade e a Internet

O que vem à sua mente quando você pensa na palavra moda?

Beleza? Roupa? Revistas? Modelos? Gente Famosa? Exclusão? Racismo? Gordofobia? Exploração?

Cada mulher que se veste tem uma relação particular com a moda, mesmo que seja a de rejeição, evasão ou crítica. Thais, mãe empreendedora e criadora de conteúdo, encara essa complexidade no seu trabalho como consultora de estilo.

“Agora está mudando, a passo de tartaruga, mas a moda de fato é feita por 0,5% (meio por cento): por gente magra, por gente alta, por gente que tem dinheiro para comprar, gente que pode trabalhar com salto alto, por gente branca.” No entanto, seu trabalho mostra para ela que, as pessoas são muito humanas. Claro, quando você chega no detalhe é diferente, (mas) todo mundo quer se sentir bonita, ser olhada, se sentir você mesma.”

Trajetória

Thais iniciou na profissão de cinema, e trabalhou até chegar a assistente de direção e arte, um patamar significativo. Apesar do sucesso, ela não se sentia feliz.

“Eu amo trabalhar, só que chegou um tempo que eu fazia muito mais o que eu não queria fazer do que o que eu queria — tipo muito filme ruim, publicidade chata, coisas que eu não acreditava — para fazer uma parada legal, por ano. Isso começou a me massacrar. Eu estava ganhando uma grana, numa situação confortável, já tinha um “nome”, mas eu falei “gente, não quero essa vida”. E aí, eu saí.”

Ela nunca voltou, mesmo sem saber qual seria o próximo passo.

“Sempre tive uma relação com a moda, mas achava que a moda não era uma profissão. Achava que era uma futilidade. Sempre pensei em (questões sociais).” Através de um processo de busca, reflexão, erros e acertos, ela construiu uma carreira que traz muita paixão e realização.

Depois de iniciar um blog e fazer um curso de um mês sobre a história de moda no MET (Metropolitan Museum of Art), ela fez o curso de consultoria de estilo. Quando ela percebeu que a consultoria de estilo era uma forma de valorizar a própria essência da pessoa, e não uma lista de regras rígidas e excludentes, ela finalmente abraçou sua paixão como uma profissão.

“Foi quando acendeu a luz. A partir dali para mim ficou muito fácil. Eu passei a fazer um negócio que eu faço com muita espontaneidade. Eu estudo muito, pesquiso muito, mas é muito intuitiva para mim. Eu acho que realmente meu talento é a moda.”

Maternidade

Thais tem mais de 30 mil seguidores nas redes sociais (22 mil no IG e 7 mil no Facebook), pessoas que olham para ela como uma referência de carreira + maternidade.

É a sua intuição que orienta o que ela expõe publicamente, e como aguentar a pressão dupla de ser mãe e empreendedora.

“Eu falo que eu não tenho vida profissional, vida pessoal. Não sou pessoa física, pessoa jurídica. Sou uma só. Só não conto coisas que desrespeite o outro. E, de fato, eu escrevo as coisas em que eu acredito, que eu tenho vontade de escrever. Tento usar minha vida e minha experiência para militar por coisas que eu acredite.

Acredito muito que a gente precisa falar sobre carreira e maternidade. Tenho muitas seguidoras mães, então uso muito desse nicho que me segue para eu militar a favor de que as mulheres precisam ter o direito de serem mães e de terem uma carreira de sucesso. Você vira mãe, você vira domínio público. A maternidade me deu um tapa na cara, sobre essa coisa do machismo e de ser mãe e trabalhar. Não tem um único dia da minha vida que eu saia a noite, que eu esteja na rua quando está escuro, que alguém não vira para mim, a pessoa nem me dá oi, e fala “cadê o Miguel (seu filho)?” Eu sinto muita dificuldade nisso. A resistência é muito maior com as coisas depois de ser mãe. Todo mundo fala “você está trabalhando demais”, “mas, você não vai deixar a carreira de lado?””

Internet

Mulheres são alvo de ódio na internet[1].

Thais não enfrenta violência desse tipo, mas como uma presença pública, ela sabe como lidar com as demandas e críticas.

“Tenho seguidoras muito legais, elas são muito engajadas, elas são muito parceiras, são as melhores seguidoras do mundo que eu poderia ter, então eu sofro poucas críticas. O que me dói é quando é uma crítica de caráter. Aconteceu uma vez só. Eu fiquei mal e falei que eu nunca mais ia falar sobre premiação (o momento que gerou a crítica), mas esse ano eu vou fazer de novo por que eu amo (assista aqui!). Vou fazer e vou dar a cara para bater de novo. Não tenho muito esse medo. As pessoas batem, eu fico arrasada e amanhã eu levanto e faço de novo. Eu sofro muito e me recupero rápido.”

Meta

Thais é uma das poucas pessoas com a coragem de falar abertamente sobre seus privilégios, sem desmerecer suas conquistas, e investir tempo e energia em pensar como contribuir para um mundo da moda mais acessível.

“Diante do panorama do mundo estou muito bem. Tem muita mulher passando por muito mais perrengue do que eu. Além do mais, estou num lugar predominante feminino (moda). Mas sim, (enfrento machismo). Mas acho que ainda estou numa situação bem privilegiada. Quero tentar fazer um curso profissionalizante de consultoria de estilo para formar consultoras de estilo em comunidades, para que não se tenha só consultoras de estilo que podem pagar uma fortuna por um curso de formação. Quando eu falo que eu quero fazer isso, as pessoas falam: é um trabalho voluntário? Minha ideia não é fazer favor. Minha ideia é trocar, vocês me ensinam algumas coisas, eu ensino algumas coisas. É uma das minhas metas para esse ano.”   

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[1] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/06/05/O-que-sabemos-sobre-a-viol%C3%AAncia-virtual-contra-as-mulheres