Jéssica: Jornalista, Feminista, das Margens

Nos últimos seis meses entrevistamos 25 pessoas sobre suas experiências como mulher. Os temas recorrentes foram:

1) A pressão social de se comportar conforme um padrão estabelecido pela família/sociedade;

2) Como a identidade da mulher é influenciada por outros preconceitos, seja o do racismo, do classismo ou da aparência.

[Sheila, Nena, Ana e Renata falaram sobre as dificuldades de enfrentar a intersecção de racismo e gênero. Luana falou sobre isso e sobre o preconceito que ela enfrenta por ser lésbica. Eliana relatou as humilhações que ela sofre por ser pobre. Gabriela compartilhou suas dificuldades em ser aceita como mulher. Muna contou que as pessoas têm noções pré-concebidas por ela ser mulçumana e usar lenço. Thais notou como as suas decisões e ações de mãe viraram domínio público e alvo de julgamento.]

Jéssica, jornalista de 31 anos, natural de Poços de Caldas, Minas Gerais, compartilha experiências semelhantes, no entanto únicas, sobre suas experiências como mulher.

Ser Mulher

Jéssica tem uma memória incrível, e sua primeira lição sobre comportamento feminino veio de muito jovem.

Minha tia foi para minha casa ajudar minha mãe a fazer bolo, salgadinhos. Ela levou o filho dela. Eu tinha três anos e ele ainda tinha dois. Ele tinha um brinquedo e eu queria brincar com aquilo. Ela (a tia) falou “não, você não pode brincar, porque é brinquedo de menino. Você quer que cresça um pipi em você?” Eu falei, “não, mas eu quero brincar””.

Ela entende que o que significa ser mulher “é um constante aprendizado. Muitas vezes a gente está tão enraizada nesse machismo que a gente mesmo reproduz, a gente mesmo se julga não merecedora de algumas coisas. Você cresce acreditando nisso, que você tem muito mais obrigações do que direitos, muito mais deveres do que direitos, e que você tem que se sujeitar muito mais porque você é mulher.”

Jessica luta contra a gordofobia e o direito da mulher realmente gostar do seu corpo e se amar. Por todos os avanços que as mulheres já conquistaram, o direito de ter orgulho da própria aparência, seja como for, continua muito distante.

“As pessoa quebram esse orgulho quando elas usam o argumento da saúde. O fato de ser gorda não significa que você seja doente. E é uma falsa preocupação, porque ninguém está preocupada com minha saúde. As pessoas acham que elas têm que falar isso para quem é gorda. É raro o dia que não acontece um episódio de gordofobia (ser vista como doente, os comentários aleatórios, os preconceitos aceitos na sociedade).”

“Ser mulher é difícil. Ser mulher fora do padrão é muito mais difícil.”

Trajetória profissional

Jéssica se interessou pelo jornalismo através do hip hop. Foi quando ela leu uma coletânea de literatura marginal, organizada pelo Ferréz e pela revista Caros Amigos, que ela pensou “Eu quero fazer isso. Quero escrever sobre isso. Quero falar sobre a periferia. De que jeito eu posso fazer isso? Vou ter que fazer jornalismo. Foi naquele momento que eu decidi que queria ser jornalista.”.

Agora que o hip hop faz parte do seu cotidiano, vale ressaltar o porquê era tão sedutor para uma menina da periferia de Poços de Caldas.

Eu brinco que é uma mordida e você nunca mais se recupera. Foi muito sedutor para mim, por conta da mensagem, por conta do sentimento de irmandade que tinha, aquele vontade de mudar o mundo a partir de zero possibilidades. Ela é uma cultura oriunda da periferia, então as pessoas não tem possibilidade nenhuma. É tudo mais difícil, mas essa vontade de transformar as coisas persiste. É muito enriquecedor e foi assim que veio esse interesse.”

Desde então, sua vida profissional e essa paixão pessoal andam paralelas.

Trabalhei muitos anos como repórter em jornal, em site, além do hip hop. Trabalhei 10 anos com isso. Mas paralelo à isso eu trabalhava com o hip hop, com os artistas. Escrevia muito sobre isso. Em 2014 eu entrei no mestrado e comecei a fazer uma pesquisa sobre as mulheres da literatura marginal, que também estão muito interligadas com o hip hop. (Agora) estou só freela, trabalho com a cultura da periferia, mais com as mulheres, dando preferência ao trabalho com as mulheres.”

Jornalismo + Gênero

No jornalismo brasileiro há uma quantidade maior de profissionais femininos (64%[1] conforme a pesquisa “Quem é o jornalista brasileiro: perfil da profissão no país”). No entanto, as decisões de poder, a visibilidade e a cultura do jornalismo continuam com a orientação masculina. A mesma pesquisa revela que “as mulheres jornalistas, mais jovens, ganhavam menos que os homens.”[2]

Jéssica se identifica como feminista. Ela entende que as mulheres jornalistas se distanciam da palavra por pensar que essa identificação possa ser vista como algo pejorativo. “Acho que o feminismo, a militância pelo lugar da mulher, são incômodos. Seja no jornalismo, seja em qualquer lugar que você fala sobre os direitos da mulher, sobre a posição da mulher, vai ser um incômodo para qualquer pessoa. Quando eu trabalhava na redação, no dia a dia, era um dedo na ferida. As pessoas brincavam: “não pode falar tal coisa perto da Jéssica”, ou, se tinha algum assunto relacionado a isso “manda a Jéssica porque ela entende essas coisas de mulher”. Existe essa separação (ela inclusive teve um supervisor que não permitia que mulher dirigisse), mas hoje também tem um jornalismo feminismo. Acho isso muito legal, muito importante.”.

Jessica inclusive criou um blog inédito (Margens), sobre literatura feita pelas mulheres e outros assuntos que contemplem as mulheres.

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[1] http://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2016/01/pesquisa-perfil-jornalista-brasileiro.pdf#page=6

[2] http://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2016/01/pesquisa-perfil-jornalista-brasileiro.pdf#page=26