Luiz Carlos Ruas: mais uma vítima do efeito espectador

No dia 25 de dezembro de 2016, Luiz Carlos Ruas, marido e trabalhador, 54 anos, foi assassinado. Ele não era o alvo inicial dos primos, Ricardo e Alípio, que o mataram. Ele era ambulante e conhecido das vítimas que sofreram o primeiro ataque.

Quando Luiz viu alguém conhecido sofrendo um ataque de violência, ele se manifestou. O que ele fez, se envolver na defesa de outras pessoas, não foi feito no caso dele.

Enquanto ele recebia socos e chutes, as pessoas passavam, sem parar.

O fato de pessoas testemunharem uma violência física tão grave, que levou uma pessoa a morrer, e não reagir, é chocante.

E comum.

Luiz Carlos Ruas não foi a primeira pessoa a morrer na presença de uma multidão que podia intervir e não interviu, e ele não será a última.

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Na entrada da estação do metrô Carandiru, tinha uma mulher deitada, de barriga para baixo. Seria mais exato dizer desmaiada. Não vi seu rosto, mas reparei que ela estava vestindo roupas limpas, calça legging listrada (como está na moda) e chinelos em boas condições.

Minha reação, uma espécie de análise, foi a seguinte:

Ela está doente ou drogada? Enquanto eu pensava isso, eu me aproximei e tentei ver o rosto. Fiquei com receio de me aproximar muito (foi uma sensação de constrangimento, de olhar para alguém indefeso, numa situação de vulnerabilidade). Não consegui ver nada. Não sabia o estado dela — grave, machucada, auto infligido, comum. Sei lá o que eu pensei que eu ia conseguir determinar vendo o rosto dela. Pausei na porta da estação. Eu devo tentar acordar ela? Chamar o segurança? Se ela desmaiou, devido a um mal estar, alguém teria visto e ajudado, né? A cinquenta metros de onde eu a encontrei, três ambulantes estavam vendendo uma diversidade de alimentos para as pessoas que aguardavam o ônibus. Em São Paulo é muito comum encontrar pessoas em condições semelhantes. Ao redor dessa estação tinham várias pessoas em situações semelhantes.

Acabei fazendo…nada. Peguei o metrô e fui para casa.

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Diante de uma situação de violência ou urgência, como a citada acima, eu sempre me pergunto: sou uma observadora passiva, capaz de assistir alguém morrer e não prestar socorro? Se aquela mulher tivesse morrido e eu visto, e não fiz nada, eu carregaria uma parcela de culpa?

É uma reflexão difícil e muito presente.

 Efeito Espectador

Nos EUA existe um programa de televisão chamado “O que você faria?” (What Would You Do?[1]). A premissa do programa é mostrar situações fictícias de agressões e violações de direitos humanos e documentar como as pessoas ao redor reagem. Nunca assisti a esse programa, mas cresci nos EUA e tinham outros exemplos desse tipo de programação quando eu era jovem.

Esse tal de efeito espectador (bystander effect), também conhecido como Síndrome Genovese, é “um fenômeno social psicológico que se refere aos casos em que espectadores de situações de perigo ou violência não oferecem qualquer meio de ajuda em situação de emergência para a vítima[2] e é tão presente no discurso cultural norte-americano que é uma fonte de entretenimento.

Uma explicação por essa importância no discurso é porque o fenômeno foi identificado na psicologia social, a partir do homicídio de Kitty Genovese, em NY em 1964. O fenômeno não se restringe aos EUA (o exemplo de Luiz Carlos Ruas mostra isso), mas lá ocasionou uma mudança nas leis, na cultura e na consciência das pessoas.

Na madrugada do dia 13 de março de 1964, Kitty Genovese, uma jovem de 28 anos, foi atacada por um desconhecido que lhe deu duas facadas nas costas e fugiu. Pouco depois, o criminoso voltou, encontrou a jovem no chão e esfaqueou-a de novo, estuprou-a e levou 49 dólares.

Na meia hora que durou o martírio de Genovese, noticiou-se na época que 38 vizinhos ouviram seus gritos e nada fizeram. A indiferença escandalizou Nova York e despertou o interesse de dois psicólogos. Queriam entender as razões da apatia dos espectadores enquanto Genovese era assassinada. Descobriu-se mais tarde que menos pessoas ouviram seus gritos, e não 38, e houve até quem tivesse chamado a polícia.

Ainda assim, os pesquisadores prosseguiram com o estudo e fizeram uma constatação surpreendente: quanto mais gente estiver no local de um crime ou acidente, menor a chance de a vítima ser socorrida. O paradoxo não decorre da indiferença humana ao sofrimento alheio, mas da redução de responsabilidade individual que todos nós sentimos quando estamos em uma multidão[3].”

É impossível exagerar o impacto desse crime na consciência coletiva do país.

O efeito espectador, também conhecido como a Síndrome Genovese, levou o professor Herber Kaufman, da City University de New York, a explorar um novo aspeto da psicologia chamado “comportamento pró social.” Kaufman procurou maneiras de transformar os maus samaritanos em bons samaritanos. Outro pesquisador, Stanley Milgram,…definiu o caso Genovese como parâmetro de referência para o campo que chamou de psicologia urbana. De acordo com o professor de Fordham, Harold Takooshian, estudante de Milgram, o assassinato de Kitty se tornou a base de “três campos que mal existiam antes do caso Genovese” — psicologia urbana, psicologia social e estudo do comportamento pró social.

Takooshian chama de assassinato de Kitty “o incidente mais citado na literatura da psicologia social até os ataques de 11 de setembro de 2001.” Outro psicólogo social, R. Lance Shotland, de Penn State, disse ao Times que entre 1964 e 1984 “mais de mil artigos e livros tentaram explicar o comportamento dos espectadores em crises”. Isso foi mais do que o número dedicado ao Holocausto nos mesmos vinte anos[4].”

Kitty Genovese

Catherine “Kitty” Genovese era uma mulher, lésbica (ela morava com a namorada na época), nascida e criada em Nova Iorque. Ela trabalhava num bar e sonhou em ter o próprio restaurante um dia.

A leitura “inicial” (demorou duas semanas para aparecer na primeira página do New York Times) do crime, foi que 38 pessoas assistiram, em parte ou inteiramente, o crime e não fizeram nada. A interpretação foi a de que a vida urbana criou tanta distância emocional entre as pessoas, facilitou uma frieza e um desapego tão profundo, que ninguém sequer chamou a polícia.

A realidade era mais complexa. A investigação de Kevin Cook, feita cinquenta anos depois do crime, revelou que foi um número bem menor de vizinhos que entenderam que um ataque fatal realmente estava acontecendo, possivelmente cinco pessoas.

Mesmo assim esse número é chocante. Se uma pessoa visse alguém sendo atacado, fatalmente, ela devia reagir!

Na realidade, a psicologia social prova que uma pessoa reage sim.

O efeito espectador, que foi definido exatamente por causa do que aconteceu com ela, revelou que “um elemento crítico no grau de responsabilidade que um(a) espectador(a) se encontra é o numero de pessoas que ele(a) acha que estão presentes e disponíveis para ajudar” (como definido pelo Bibb Latané e John Darley, no The Unresponsive Bystander)[5]. Quanto mais pessoas presentes na cena de um crime, há menos chance de um indivíduo responder. Numa pesquisa, quando a pessoa estava sozinha, ela ajudou “a vítima” 70% das vezes. Quando elas estavam com outras, apenas 7% das vezes.

Provavelmente Kitty não morreu por causa de uma falta de consciência, uma “doença” (antipatia) da vida urbana. Ela morreu exatamente porque foi mais de uma pessoa que teve conhecimento do crime.

Morte de Luiz Carlos Ruas

A morte de Luiz Carlos Ruas foi possível por uma convergência de fatores:

A violência possivelmente foi motivado pela LGBTfobia (apesar da negação dos réus e do delegado[6]). O discurso de ódio e intolerância na sociedade permite esse tipo de transgressão. “343 LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) foram assassinados no Brasil em 2016. Nunca antes na história desse país registraram-se tantas mortes, nos 37 anos que o Grupo Gay da Bahia (GGB) coleta e divulga tais homicídios.”[7].

A precarização do metrô. Os seguranças que poderiam ter ajudado estavam responsáveis por rodar três estações na noite de natal. Eles demoraram seis minutos para chegar e prestar socorro[8].

O efeito espectador. Luiz respondeu, provavelmente porque sentiu-se pessoalmente responsável. Luiz morreu, provavelmente porque as pessoas que presenciaram o ato de violência não se sentiram pessoalmente responsáveis.

E Agora?

O que nos podemos fazer?

Não fique quieto diante da LGBTfobia. Não aceite a intolerância. Seu silêncio e aceitação mata pessoas.

Exija mais de nossos políticos. Exija transparência, ética e políticas públicas eficazes. Não tolere a corrupção e o desvio de dinheiro público.

Quando alguém está em situação de risco, imagine que ele(a) está chamando seu nome. Mesmo não se sentindo seguro para intervir, garanta que alguém com autoridade e condições de intervir, esteja consciente e envolvido (chame a segurança, polícia, mídia, seja o que for).

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[1] http://abcnews.go.com/WhatWouldYouDo

[2] http://oficinadepsicologia.blogs.sapo.pt/144727.html

[3] http://veja.abril.com.br/complemento/brasil/a-historia-de-um-linchamento-mataram-a-mulher/

[4] Cook, Kevin. Kitty Genovese: The Murder, The Bystanders, The Crime That Changed America. W.W. Norton Company, 2014. p.170 [tradução livre da autora]

[5] Idem. p. 167.

[6] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/delegado-nao-ve-morte-de-ambulante-no-metro-como-crime-de-intolerancia.ghtml

[7] https://homofobiamata.files.wordpress.com/2017/01/relatc3b3rio-20162.pdf

[8] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/estacao-do-metro-de-sp-nao-tinha-segurancas-quando-ambulante-foi-morto.ghtml