Ana—”Eu acredito muito mais nesse feminismo cotidiano”

O Feminismo é uma luta contra as limitações e opressões motivadas pelo gênero.

O Feminismo interseccional é uma vertente do feminismo que qualifica essa luta, e reconhece que muitas mulheres sofrem por vários motivos além do machismo.

“O FEMINISMO INTERSECCIONAL, como o próprio nome sugere, diz respeito à intersecção entre diversas opressões: de gênero, raça e classe social. Historicamente, no início da primeira onda feminista, nos anos 20, o termo feminismo englobava apenas a opressão de gênero e atendia exclusivamente às reivindicações das mulheres brancas de classe média, desconsiderando as necessidades da classe de mulheres trabalhadoras e de classe baixa, ou seja, as mulheres negras eram invisibilizadas dentro desse movimento.”[1]

Várias mulheres que foram entrevistadas para o nosso blog identificaram as consequências do racismo como igualmente ou mais presente do que as do machismo (Sheila, Nena, Renata).

A experiência de vida da Ana, paulistana de 36 anos e afro-indígena, ilumina a necessidade de valorizar as questões interseccionais.

Quando Ana reflete sobre questões de gênero ela percebe que,

Para mim as diferenças de raça foram mais evidentes. O racismo é muito sutil, na maioria das vezes. Ele às vezes é silêncio, mas o olhar, o jeito que se trata, já te diz tudo. Não precisa falar que não “gosta de você”, embora já tenha ouvido isso algumas vezes, “não gosto de pessoas negras”.”

“Três coisas na minha vida, especialmente na minha vida escolar, foram presentes de forma muito negativa. O racismo por ser negra, ser indígena e por ser da umbanda. A maior parte dos anos que estudei nessa escola, que era particular, eu fui a única negra. Quando eu fui para escola pública tinha mais (negros), mas não muitos. Nem eu nem as meninas tínhamos essa questão de se empoderar, e bater de frente (contra o racismo). Sofri muitas vezes. Não queria ir para a escola, particular ou pública.”

O racismo para ela foi mais evidente, mas isso não significa que ela não lidou com o machismo. “Sabia que esse racismo também era direcionado. Por quê? Por que o menino branco não vai ter coragem de chegar em um menino negro, por que o cara vai enfrentar ele de volta. Mas eu sou mulher, né? Sabia que o racismo era ligado ao machismo.”

A pressão social de se comportar “como menina” era grande.

“Brinquei muito de carrinho. Na minha casa isso nunca foi um problema. Minha mãe nunca teve esse valor de não brincar com isso por que era algo de menino. A sociedade que eu convivi — as pessoas do meu bairro, amigos, parentes — era muito sexista, muito machista. Na sociedade, ao meu redor, as pessoas ficavam um pouco em choque (com o comportamento de sua mãe), no sentido (de dizer) “ah, cuidado. Sua filha vai virar sapatão”.” 

Essas opressões sociais — de racismo, machismo e gordofobia — eram constantes na sua paixão pela dança.

“Sempre dancei. Quando você trabalha com dança, faz show por fora, é um problema. Você já sabe que o “padrão ABNT” de beleza que foi instituído aqui é o que vai conseguir mais shows. As meninas com cabelo liso, comprido, magras, brancas — “padrão ABNT” — vão ter mais oportunidades do que “nós”. O nós que eu falo, são as meninas gordas, orientais, negras, e as trans mais ainda. Tive a sorte de estar em alguns lugares onde isso não importava, o que importava era sua dedicação, quanto você ensinava. Mas tinham lugares que eram uma vitrine, tipo aquela seleção de capital, do que vende (mulheres brancas e magras).”

Hoje a dança continua presente na sua vida, mas de forma diferente.

“Posso usar a dança como uma questão mais social, eu fui dar aula de dança nas escolas municipais, na periferia. No ano passado eu dei aula para mulheres vítimas de violência. Usar todo esse conteúdo que acumulei todos esses anos para uma coisa muito mais revolucionária do que eu faria.”

Além de trabalhar com dança e como educadora, Ana é integrante do Coletivo Perifatividade, um coletivo de sarau, música, opinião, leitura, educação popular e defesa dos direitos humanos.

Ana tem uma visão sobre o feminismo e a luta de longo prazo, construída de tudo que ela viveu e presenciou.

“Eu acho minha mãe feminista. Ela não fala “sou feminista”, mas ela é. Eu acredito muito mais nesse feminismo cotidiano, nas crianças, nas meninas. As meninas pequenas já estão feministas. (No meu trabalho) na hora de guardar as caixas, dois meninos começaram a pegar as caixas para uma menina guardar. Ela virou e falou “vocês acham que eu sou trouxa? Oi, tio (pro educador). Você está vendo? Ele está me enganando e você não vai fazer nada?” Quando vejo esses gestos feministas eu sinto muito orgulho, da minha mãe, das meninas, ou no ônibus quando o cara encosta e a mulher dá um tapa, há 20 anos ela teria ficado lá, quieta, sofrendo. É claro que as mulheres continuam sendo agredidas, sendo mortas. Talvez minha tataraneta veja isso mudar. Quando pessoas falam “vamos revolucionar”, (eu penso) vamos plantar sementes para que nossas tataranetas revolucionem.

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[1] http://blogueirasnegras.org/2015/09/29/feminismo-interseccional-um-conceito-em-construcao/