Amamentação: o bom, o mau e o omitido

Durante a minha gravidez eu tinha uma lista de coisas que eu não podia fazer, tipo: beber álcool; fumar; viajar de avião após os 6 meses; comer sushi; pintar o quarto; entrar na sauna; trocar a caixa de areia do gato.

Para o parto, eu tinha outra lista de coisas que eu acreditava serem importantes (com base nas recomendações da OMS), como: deixar meu corpo entrar em trabalho de parto; evitar uma cesariana; não usar anestesia; não ficar deitada na maca durante o trabalho de parto (explicação aqui); contato pele a pele com minha filha imediatamente após o parto.

Assim que minha filha nasceu eu tinha um único item para cumprir: a amamentação.

Eu consegui cumprir todos os nãos e sims nas minhas listas.

Minha filha mamou exclusivamente no peito até os 6 meses e como complemento até 1 ano e 2 meses. Ela nunca tomou fórmula infantil ou mamadeira. E esse fato não me dá orgulho.

Eu fiz o que eu achei que eu tinha que fazer para ser uma boa mãe e dar à minha filha o melhor início de vida possível. Hoje, não sei se eu faria do mesmo jeito.

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Antes de parir, eu li vários estudos dizendo que o leite materno é “ouro” e muito melhor do que as fórmulas infantis. Um exemplo,

“O aleitamento materno tem vantagens para a mãe e para o bebé: o leite materno previne infecções gastrintestinais, respiratórias e urinárias; o leite materno tem um efeito protetor sobre as alergias, nomeadamente as específicas para as proteínas do leite de vaca; o leite materno faz com que os bebés tenham uma melhor adaptação a outros alimentos. A longo prazo, podemos referir também a importância do aleitamento materno na prevenção da diabetes e de linfomas.[1]

Para mim tinha sentido que algo que o meu corpo produzia era melhor do que algo fabricado/industrializado.

Não pensei muito no assunto, em parte porque eu estava muito preocupada sobre a questão da cesariana (por que eu moro num país com índices tão altos do procedimento) e em parte porque não sabia que podia dar errado. Só pensei em não dar chupeta para a minha filha, porque as pessoas me avisaram que a chupeta podia atrapalhar para ela pegar meu peito, e que uma mãe prestativa não precisava usar uma chupeta (kkkkkkkkk).

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Minha filha mamou sem problema algum. Eu produzi leite suficiente e ela estava contente. Mas eu não estava.

Após um dia, meus mamilos estavam totalmente rachados.

Depois de uma semana, eu estava com infecção nos mamilos e sentindo uma dor forte (mas menos do que um parto natural).

Depois de duas semanas, eu estava louca para dar uma chupeta para minha filha, porque ela usava meu peito para T-U-D-O (conforto, contato, alimento, tédio). Aquela convicção inicial de que uma mãe prestativa não ia usar uma chupeta era ridícula. Uma mãe que quer um minuto de sossego deve usar uma chupeta. Minha filha recusou todas as marcas de chupeta que eu comprava. Para ela, só meu peito servia (até que ela começou a chupar o dedo, o que é uma outra polêmica).

A equipe do local onde minha filha nasceu, uma parteira especializada em amamentação que eu contratei, outras pessoas desconhecidas — TODAS — insistiram que, com a posição certa, a “pega” certa, a amamentação não doía.

Hoje, eu acho que isso é uma mentira.

Há pessoas que não sentem dor durante o parto. São aberrações da natureza. Que bom para elas, mas para a grande maioria dói. E acontece a mesma coisa com a amamentação. Qualquer posição ou “pega” vai doer. Não tem como evitar isso. Nunca, na minha vida, meus mamilos receberam tanto contato físico. São feitos de pele incrivelmente sensível e são cobertos 18 horas do dia. De repente, um bebê recém nascido está chupando-os quase o dia inteiro? Sim, dói!.

Eu estava tão convicta que não tinha outra alternativa que eu insisti, mesmo com muita dor. E a dor passou. Como tudo na vida, o corpo se adapta. A gente se adapta. Para mim, valeu a pena, mas como sempre, acho que nós estamos fazendo um desserviço às mães novas ao dizer que não há ou não devem ter dor. Há dor, e isso é totalmente normal.

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Eu sou escritora, então eu fico em casa, com o luxo de cuidar da minha filha e amamentar a qualquer instante. Mesmo assim, eu comprei uma bomba de extração manual para ter um pouquinho mais de liberdade. Que horror. Era quase impossível extrair o leite, o que significava que eu não conseguia passar mais de 2 ou 3 horas longe da minha filha.

Quando ela tinha 3 meses de vida eu comecei a criar uma aversão à amamentação, mas na minha cabeça não tinha permissão para pensar, e muito menos dizer isso.

Tem mulheres que falam sobre a dificuldade de amamentar, a necessidade de trabalhar, de produzir pouco leite, de não conseguir extrair, mas quase ninguém fala em não gostar de amamentar.

Eu não gostei.

Eu fiz como obrigação materna, não por amar a experiência. Eu me senti muito mais conectada a ela com beijos, abraços e sorrisos — quando seus dedos eram envolvidos pelos meus.

Para poucas pessoas, de confiança, me abri sobre isso. A resposta, um pouquinho chocada, mas respeitosa, sempre foi, “Uau. Eu A-M-O amamentar!” Aceitei isso como uma questão pessoal, mas não sofri muito. Mesmo não gostando, eu estava cumprindo meu dever.

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Meu pediatra, na época, falou, sem qualificação, que era importante dar leite materno, exclusivamente, até os 6 meses (depois eu li mais a respeito[2] e acho que não dá para dizer um número específico de meses). Tinha este número na minha cabeça. Eu não gostava de amamentar, mas continuava pensando que era fundamental.

Pensei que introduzir o alimento sólido era algo simples, do tipo, dar um pedacinho de banana e a criança come. Não era tão simples assim, não. Minha filha estranhou a textura e os sabores da comida, e demorou algumas semanas para começar a comer. Nesse período de adaptação, eu decidi não parar de amamentar, em parte porque não existe no Brasil as opções orgânicas de fórmulas infantis que existem nos EUA. (Nas fórmulas infantis não orgânicas, possivelmente, há uma chance maior de existir resíduos de pesticidas, e todas as fórmulas em pó são mais suscetíveis à contaminação[3]. A fórmula infantil líquida corre mais risco de ter índices de BPA[4], além das preocupações sobre os níveis altos de açúcar — sacarose, maltodextrina, xarope de glicose)

Quando minha filha tinha 11 meses eu estava totalmente louca para parar, mas não sabia como. Conversei com o pediatra e iniciei um processo. No primeiro mês ela mamou 6 vezes ao dia, no mês seguinte por 4, e nas últimas 6 semanas, 2 vezes ao dia. Quando ela ficou doente e passou um dia sem mamar eu achei minha chance e parei. Ela nunca mais pediu peito. Foi um milagre. Eu fiquei muito feliz em ter meu corpo de volta. Demorou mais 6 meses para eu me sentir confortável em deixar meu marido tocar nos meus seios.

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Eu acho que é importante dizer que eu não gostei de amamentar. Acredito que a amamentação é uma opção que deve ser acessível para todas as mulheres, indiferente de classe e raça (nos EUA, o segmento da população que mais amamenta os filhos são mulheres brancas de classe média/alta[5]). Para realmente ser uma escolha, todas as mulheres precisam ter muito mais recursos, financeiros e técnicos. No entanto, eu não tolero o discurso moral que julgue qualquer mulher sobre esse (e qualquer) assunto.

O corpo da mulher é incrível e capaz de gerar e alimentar um ser humano. Isso é espetacular. Mas dizer que não amamentar é pecado, ou é não dar a seu (sua) filho(a) a melhor chance de sua vida é uma mentira. Em primeiro lugar, há poucas provas sobre todas essas declarações de benefícios[6], (que não seja nos países de pobreza extrema, com índices mais altos de mortalidade infantil e sem acesso à água limpa[7]). Por mais, vivemos num mundo desigual, racista, poluído e machista. Muito mais coisas, além de uma decisão individual, vão impactar a qualidade de vida da maioria das crianças.

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Minha experiência com a amamentação foi mais uma oportunidade de perceber o quanto eu acreditava que eu tinha as respostas e as ações certas e não tinha. Nem a ciência tem. Ninguém tem. Sou convicta que o grande pecado em nossa sociedade não é a falta de mulheres que queiram amamentar, mas a quantidade de pessoas que julgam um ao outro.

Gosta de amamentar? Beleza.

Não consegue amamentar? Sem problema.

Não gostou de amamentar? Entendo.

Não quer filhos? Perfeito.

Fala com convicção sobre como outras pessoas devem viver e se comportar? Para.

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[1] https://www.unicef.pt/docs/manual_aleitamento.pdf#page=9

[2] https://scienceofmom.com/2015/05/14/starting-solids-4-months-6-months-or-somewhere-in-between/

[3] http://www.theatlantic.com/health/archive/2011/12/the-problems-with-convenient-cheap-powdered-baby-formula/250582/

[4] http://www.consumerreports.org/cro/baby-formula/buying-guide.htm

[5] http://www.nytimes.com/2015/10/18/opinion/sunday/overselling-breast-feeding.html?_r=0

[6] https://expectingscience.com/2015/11/02/breastfeeding-benefits-the-real-the-imagined-and-the-exaggerated/

[7] http://www.nytimes.com/2015/10/22/opinion/the-miracle-breast-milk-elixir.html