Sexualidade não é apenas sexo. Mesmo assim é o sexo que domina o entendimento e o discurso sobre sexualidade.

Então, vamos falar sobre sexo.

Transar, dar uma rapidinha, trepar, fazer amor, são formas populares de denominar uma relação sexual (sexo).

O que vem à sua mente quando pensa em uma relação sexual? Um pênis + uma vagina + penetração?

Dra. Carolina Ambrogini, ginecologista e obstetra, especialista em saúde feminina e sexualidade, explica que, “as pessoas acham que (relação sexual) é a penetração, pênis e vagina, a consumação. Na realidade sexo é muito mais do que isso — é tudo que desperta prazer. Pode ser sexo oral. Pode ser sexo anal. Pode ser masturbação. Pode ser toque.”

Uma relação sexual é mais sutil, mais abrangente, mais frequente do que muitos imaginam.

Reconhecer a amplitude do que é uma relação sexual pode diminuir o preconceito e aumentar o reconhecimento das várias orientações e configurações de casais, respeitando as diversas dimensões que a relação sexual pode tomar.

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Historicamente, e até hoje em algumas culturas, à mulher era negado o direito de sentir prazer na relação sexual. O ato do sexo servia para reproduzir e satisfazer o homem. Atualmente, há um discurso de liberdade sexual e prazer feminino. No entanto, priorizar sua própria sexualidade e buscar prazer continuam sendo um tabu para muitas mulheres.

Suryachandva, terapeuta tântrica, fala dessa cultura. “Existe uma cultura que é disseminada na sociedade de que mulher que é boa é a mulher que sofre. Mulher que se divirte, que é feliz, é prostituta. Ser mãe é padecer no paraíso. Muitas mulheres incorporam isso e evitam o prazer.

Mesmo para mulheres que abraçam o seu prazer, há o receio de seguir totalmente seus desejos. Uma das minhas amigas se divorciou há dois anos. Ela tem 37 anos e estava com o mesmo homem por mais de quinze anos. Agora, ela resolveu viver sua sexualidade como ela não viveu quando era mais jovem. Outro dia ela saiu com um homem e sentiu-se à vontade para iniciar uma relação sexual, mas ficou com receio. Ela me perguntou, “Eu posso ficar com quantas pessoas?” Ou seja, ela queria saber com quantas pessoas ela poderia transar antes de ser julgada como uma mulher fácil.

Se a mulher fica com duas pessoas ou se ela fica com 100, ela não é a mesma pessoa? O que muda? Quem ensinou a mulher a acreditar que seu caráter e integridade eram relacionados à sua sexualidade e que essa sexualidade tem restrições numéricas?

Minha resposta foi a seguinte:

Sua prioridade é viver sua sexualidade plenamente. Isso é um ato revolucionário. Força, mana.

No momento que você sentir o desejo de iniciar uma relação sexual, apenas se preocupe em escolher pessoas com quem você se sinta segura e que você queira naquele momento.

O que é uma relação sexual saudável ou segura? A relação sexual não deve ser um momento de manipulação (se eu transar com ele/ela e for muita boa, ele/ela vai ficar apaixonado/a por mim) ou de coerção (nada de implorar ou insistir para que a outra pessoa participe).

Se você sentir atração por uma pessoa, e se você achar que a pessoa vai te respeitar e te ouvir se você decidir parar a qualquer momento, ou falar que não gosta de alguma coisa, ou pedir outro tipo de comportamento, fique à vontade!

Não há um número de parceiros que transforme você em uma pessoa mais ou menos “qualificada (de ser apta à) sexualmente”, porque o julgamento da sua sexualidade é uma ilusão de controle e pura opressão.

Seu número de parceiros não significa nada sobre você, positivo ou negativo.

Algumas mulheres nunca vão conseguir acreditar que sua sexualidade não é algo sofrível, ou que não serve para julgamento e controle. Mas para quem quer tomar posse da sua sexualidade, e viver além das limitações das suas influências, e das restrições impostas pela sociedade, sem dúvida é possível!

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Falando em uma relação sexual saudável, sem restrições, levanto a necessidade de reconhecer a realidade das doenças sexualmente transmissíveis (DST).

Algumas DST são questão de vida ou morte, outras não. Algumas são invisíveis e silenciosas, outras não. Algumas são crônicas, outras não. Independentemente de qual DST, todas têm um impacto emocional e físico.

Para uma mulher que quer viver sua sexualidade plenamente e tem uma DST (tipo HIV, Herpes ou HPV, que não tem cura), como ela pode iniciar uma relação sexual saudável? Ela nunca pode ter uma relação sexual espontânea e pontualmente? Ela tem que dizer para alguém, desconhecido, sobre sua DST?

Dra. Mirian garante que sua sexualidade e sua integridade, como mulher, continuam iguais. Ele recebe “pessoas sofrendo por anos porque não conseguem dizer (que têm DST). Como libertar essa pessoa desse sofrimento? É fazer ela entender que se submeteu a uma situação de risco, contraiu uma doença, tem que arcar com os custos emocionais, às vezes até financeiros, de lidar com isso, e além disso vai se colocar num jogo de culpa, como se ela fosse a pessoa culpada por ter contraído isso? Não, pelo contrário. Tem que enfrentar isso, acreditando que ela pode superar isso e que isso não a desqualifica como mulher e nem a sua sexualidade.”

A dificuldade de falar sobre DST é conhecida. “Embora o diálogo sobre o uso de preservativos e prevenção das DST seja difícil mesmo para as mulheres jovens e solteiras, para as mulheres casadas é ainda mais complicado, uma vez que a sugestão de atividades de prevenção ou uso de preservativos para elas pressupõe uma quebra de confiança com seu companheiro, e pode trazer dúvidas com relação a sua própria fidelidade (GARCIA; SOUZA, 2010)”[1]

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Para todas as mulheres é fundamental investir na própria confiança e dizer o que realmente sentem e querem. Dra Mirian percebe que, “Mulheres ficam muito submetidas a esse amor romântico, (pensando) ‘ah, mas se eu falar tal coisa ele (ou ela) vai me deixar.’ As pessoas precisam entender que elas podem ser assertivas, que não é ser grosseira. Mulheres têm problema com isso. Vão se relacionar com parceiros que não querem usar preservativos, mas naquele momento que pensam, que poderiam falar, não o fazem. Por quê? Por insegurança. Se nesses momentos essa relação não é segura em termos de saúde, quem vai ficar com essa conta?”

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Viva sua sexualidade, de uma forma saudável e plena, sem culpa ou medo de números, ou receio de se expressar. Seja uma mulher radical.

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Entrevistadas

dra carolina ambrogini

Dra. Carolina Ambrogini: Ginecologista e Obstetra, especialista em saúde feminina e sexualidade

mirian lopes

Mirian Lopes: Psicologa & Pós-Graduada em Sexualidade Humana

suryachandva

Prem Suryachandva: Terapeuta corporal tântrica, credenciada pelo Centro Metamorfose

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[1] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902016000300602&lng=pt&nrm=iso&tlng=en#B20