O que é o orgasmo feminino?

“O orgasmo é um reflexo físico, geralmente prazeroso, quando os músculos que foram apertados durante a excitação sexual relaxam e o corpo retorna ao seu estado pré-excitação. Durante a excitação sexual há o aumento do fluxo sanguíneo para os genitais e uma tensão dos músculos em todo o corpo, particularmente nos genitais. O orgasmo inverte esse processo através de uma série de contrações rítmicas. Para pessoas com vulva, as contrações ocorrem na parte inferior da vagina, no útero, ânus e assoalho pélvico. Cerca de 10 por cento das pessoas com vulva também ejaculam fluido da uretra no orgasmo. Para pessoas com pênis, as contrações ocorrem no pênis, ânus e assoalho pélvico e a maioria vai experimentar ejaculação pelo pênis ao atingir o orgasmo.”[1]

A definição de orgasmo é clara. As sensações no seu corpo e como ter um, é bem mais difícil entender.

Há pouca informação sobre o orgasmo feminino, e ao mesmo tempo, mulheres são bombardeadas com imagens (e sons) do que seja.

50 Tons de Cinza, uns dos livros eróticos mais vendidos no mundo, e a maioria das representações na mídia (filme, televisão), transmitem a ideia que a mulher desejável é a mulher que é muito boa na cama e sempre atinge o orgasmo (mesmo sem ser muito experiente). Isso é uma manifestação do ditado popular: “dama na mesa, puta na cama.”.

Conversando com outras mulheres e refletindo sobre a minha vida pessoal, eu entendo que é muito raro ter a confiança, o desejo e o prazer sexual como mostram em uma cena de sexo. E as pesquisas verificam isso — o orgasmo não é a realidade para grande parcela da população feminina.

A Pesquisa Mosaico 2.0 levantou as preocupações, prioridades e expectativas dos brasileiros relacionadas à relação sexual. “Não ter orgasmo” é pouco preocupante para a maioria das brasileiras, número 8 numa lista de 11 itens.  A maior preocupação é pegar uma doença sexualmente transmissível (45,9%)[2].

Por quê?

O pouco interesse no tema do orgasmo feminino pode ser relacionado ao fato que poucas brasileiras têm orgasmo durante o sexo?

Uma pesquisa feita pela empresa Durex (marca de camisinha) indica que apenas 22% das mulheres atingem o orgasmo durante a relação sexual[3]. Ballone, médica psiquiatra, cita que “cerca de um terço das mulheres não consegue atingir (o orgasmo)”[4].

A série de vídeos GuardianVagina Dispatches (Notícias da Vagina) é uma excelente fonte de informação sobre vários aspectos da sexualidade feminina. O terceiro episódio trata a questão do “orgasm gap”, a diferença entre o número de homens que atingem o orgasmo e o número de mulheres. Os dados citados no vídeo são que: “86% dos homens transando com mulheres atingem o orgasmo, enquanto apenas 62% das mulheres relatam que o conseguem. Mas, quando mulheres transam com mulheres, 75% relatam que atingem o orgasmo.”[5].

Por que é mais difícil para a mulher atingir o orgasmo?

Não sabemos por que é mais difícil.

A Dra. Cindy Meston, doutorada em psicologia clínica e diretora do The Sexual Psychophysiology Laboratory” aponta que a falta de conhecimento sobre o orgasmo feminino vem de uma resistência histórica e machista. Meston diz que é difícil obter financiamento para pesquisas sobre o prazer sexual feminino — o orgasmo feminino não é visto como um “problema social bastante significativo”, argumenta ela. Ela também detecta nas instituições de medicina uma desaprovação puritana desta área de estudo.”[6].

Essa resistência resultou no fato que, só em 2000, a resposta sexual feminina foi elaborada pela Rosemary Basson, pesquisadora famosa na área da sexualidade feminina. Sua pesquisa foi essencial para normalizar a complexidade do assunto.

A excitação sexual feminina é uma excitação mental subjetiva que pode ou não ser acompanhada pela consciência corporal de alterações vasoconstrictas em sua genitália, e outras manifestações físicas não genitália de excitação.” Ela também aponta que a “liberação orgástica da tensão sexual pode ou não ocorrer; quando isso acontece, pode acontecer de várias maneiras, inclusive na mesma mulher.”[7].

Não há apenas um tipo de orgasmo com respostas físicas padronizadas e documentadas para todas as mulheres. Cada mulher tem uma experiência única, influenciada por questões fisiológicas e psicológicas. Além disso, o desejo e a expressão do prazer muda muito para cada mulher, dependendo do momento da sua vida.

A resposta sexual da mulher é semelhante à do homem no início de uma relação, mas num relacionamento estável ela se transforma.

A Dra. Carolina, ginecologista e obstetra especializada em saúde feminina, explica essa complexidade. “A mulher sente o desejo de forma mais ativa—os pensamentos (fantasias) e com vontade de iniciar uma relação—quando ela está mais apaixonada ou então quando ela é muito bem resolvida com sua própria sexualidade. Muitas vezes a mulher iniciou as relações com bastante desejo e à medida que o relacionamento vai se tornando mais estável, ela para de ter esse desejo que a gente chama desejo espontâneo e passa a ter o desejo responsável.  Isso acontece com grande parte de mulheres. Ela não fica pensando em sexo tanto quanto o homem, mas se o/a parceiro/a vem e se é gostoso, ela responde. O desejo da mulher, principalmente nas relações estáveis, ele é muito mais responsivo do que espontâneo. No relacionamento estável o sexo fica muito automático e é desestimulante para a mulher.”

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Não ter orgasmo é um problema apenas se a própria mulher determina que é um problema. A mulher é incrível e capaz de sentir prazer de várias formas, não apenas com o orgasmo. Não ter orgasmo não é causa de vergonha ou julgamento, mas sim um motivo para exploração e investigação.

Quer atingir o orgasmo? Estimule sua mente! Estimule seu corpo!

Não rola? O último texto da série sobre sexualidade feminina aborda as possíveis causas e indica profissionais e lugares para conseguir respostas.

Nunca desista do seu prazer! Nunca desista da sua sexualidade!

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Entrevistadas

dra carolina ambrogini

Dra. Carolina Ambrogini: ginecologista e obstetra, especialista em saúde feminina e sexualidade

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[1] https://www.brown.edu/campus-life/health/services/promotion/sexual-health-sex-101/orgasm [tradução livre da autora]

[2] http://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2016/06/09/noticias-saude,190070/pesquisa-inedita-revela-dados-da-vida-sexual-do-brasileiro-e-da-brasil.shtml

[3] http://entretenimento.r7.com/mulher/apenas-22-das-brasileiras-chegam-ao-orgasmo-revela-pesquisa-08072014

[4] http://www.redepsi.com.br/2011/03/26/sexualidade-feminina-aspectos-culturais-da-repress-o-sexual-e-suas-consequencias/

[5] https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2016/oct/28/female-orgasm-difficult-vagina-dispatches-newsletter

[6] http://www.bbc.com/news/magazine-38170324

[7] Rosemary Basson (2000) The Female Sexual Response: A Different Model, Journal of Sex & Marital Therapy, v. 26, n.1, p. 51-65, 2000. Disponível em:  http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/009262300278641

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