Em Voz Alta: Combate à LGBTfobia

Arte de Mulher articulou uma roda de conversa, no dia 3 de dezembro de 2016, para discutir os resultados da Pesquisa Nacional Sobre o Ambiente Educacional (PNSAE) realizada no Brasil em 2016. No Mora Mundo, espaço de difusão de ações socioculturais e educativa, na Barra Funda, cinco pessoas se reuniram para pensar por que adolescentes LGBTQ enfrentam tanta agressão nas escolas e como abordar a realidade que os/as participantes da pesquisa relataram: que as pessoas ao seu redor, tanto professores/as quanto outros/as estudantes, ficam calados/as diante o bullying que eles/elas sofrem.

O grupo na roda de conversa não era representativo de todas as perspectivas importantes nessa discussão. No entanto, conseguimos abordar a questão de silêncio em relação ao bullying com profundidade.

Os participantes foram: Carol, microempreendedora, estuda letras com habilitação em licenciatura e faz estágio numa escola pública estadual na periferia. Tamires, estuda engenharia ambiental numa universidade federal e se formou no colégio público na periferia em 2011. Gabriel, estuda no primeiro ano do ensino médio num colégio público na periferia. Felipe, está fazendo cursinho e se formou no colégio público na periferia em 2015. Alessandra (não fotografada), funcionária do Mora Mundo, lecionou em escolas públicas no início da sua carreira profissional.

participantes

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A PNSAE coloca como umas das principais recomendações o preparo e treinamento contínuo dos/as professores/as e profissionais da educação, para “acolher efetivamente os/as estudantes LGBT e agir diante dos problemas que surgem nas escolas.“.

Nossa conversa levantou a dificuldade de atingir essa meta devido a conjuntura política que se recusa a falar em gênero e a negação social da orientação sexual como um direito humano protegido pela constituição. Com o possível congelamento de investimentos no setor educacional existem menos chances de criar momentos de treinamento contínuo de qualidade.

“Menos de um quarto (16,1%) relatou que os/as professores tomavam providências a maior das vezes ou sempre. 53,9% relataram que os/as professores/as nunca tomavam providencias.”—PNSAE

Gabriel observa na escola que “quando tem duas pessoas (aparentemente) hetéro brigando na escola, eles (os profissionais) vão lá e separam a briga, mas quando tem alguma pessoa chutando alguém (por LGBTQfobia), ninguém faz nada.”

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Além de não ter apoio dos/das profissionais, outros/as estudantes raramente tomam uma postura de defesa ou proteção em relação aos/as estudantes LGBTQ que sofrem agressões verbais e físicas.

“Seria de se esperar que os/as professores/as e funcionários/as da instituição educacional assumissem a responsabilidade, por tomar medida em relação a problemas com comentários preconceituosos na instituição educacional. No entanto, os/as estudantes também podem intervir ao ouvirem este tipo de comentários, sobretudo porque muitas vezes os/as profissionais não estão presentes quando ocorrem. Contudo, poucos estudantes relatam que seus pares intervinham sempre ou a maioria das vezes quando ouviam comentários LBGTfóbicos, e 36,2% disseram que seus pares nunca tomaram qualquer providência.”—PNSAE

Tamires relata que tinha amigos/as gays e lésbicas no colegial e que eles/elas sofriam muito bullying, mas naquela época ninguém pensava em intervir. Hoje ela conversa sobre esses assuntos, como o preconceito e a defesa dos direitos humanos, abertamente mas, não era assim. Ela reflete sobre o porquê desse silêncio. “A gente não discutia isso (o bullying de estudantes LGBTQ) na escola. Era um assunto que ninguém queria falar. Ninguém achava estranho (que eles sofriam bullying). A gente estava acostumada a viver nesse ambiente hostil. Ninguém falava nada, nem os professores nem os alunos. Então para os meus amigos (LGBTQ), eles lidavam com isso sozinhos, com esse preconceito e violência, nas escolas e inclusive em casa.”.

Todos reconheceram que a escola é um ambiente hostil para a grande porção dos/as estudantes. A agressão é normalizada em todos os instantes. Carol citou uma memória de quando ela estudava, a escola servia merenda. “Eu sempre comia essa comida da escola. Um dos bullyings que aconteciam era que quem comesse a comida era pobre.” Quando ela falou isso, Gabriel afirmou que isso acontece até hoje.

Aceitamos que faz parte da adolescência excluir, perseguir, humilhar outras pessoas pelas mais diversas razões possíveis?

Felipe oferece um insight devido à sua criação e experiência de vida. “Eu cresci numa família extremamente machista. Você esta numa reunião de família no fim de ano, se cruzar a perna, você é motivo de piada o ano inteiro por que só mulher cruza a perna. Terminei a escola o ano passado. A sala de aula funciona com divisões (os que comandam e ofendem, os que mais estudam, os que ficam quietos, e a minoria que critica as ofensas). Eu sempre participei daquele grupo dos mais ofensivos. Quando as pessoas tentavam intervir e defender os estudantes que estavam sendo ofendidos, não tinha valor nenhum. Se alguém falasse assim (chega, deixa ele em paz, etc) era mesma coisa se tivesse falado nada.” Só foi depois que ele saiu do ambiente escolar e decidiu tomar novos ramos na vida que sua postura de respeito pelos outros começou mudar.

É possível mudar uma cultura, sistema educacional, faixa etária? Podemos dizer ou fazer alguma coisa para diminuir os índices assustadores de LGBTfobia na atual conjuntura?

Respondente do questionário, estudante gay, 17 anos, de SP, deixou um comentário na PNSAE que deixa claro que não há opção. Temos que lutar.

O preconceito está nos matando. A cada vez que você ofende uma pessoa LGBT, o seu senso de valor é destruído. Lembra-se mais uma vez, somos tão humanos quanto os outros, mas estamos morrendo. E ninguém tem notado essa injustiça.”

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O Arte de Mulher propõe uma campanha de conscientização “1 Mês em Voz Alta: Combate à LGBTQfobia!”

Como foi feito com @33DiasSemMachismo e #30DiasSemRacismo, é possível interagir nas redes sociais para fazer uma mudança social.

Quem cala aceita. O silêncio mata pessoas.

Levanta sua voz.

A meta é lançar a campanha em fevereiro de 2017. A reunião de planejamento acontecerá na segunda semana de janeiro, em São Paulo. Venham participar!

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