O que é disfunção sexual feminina?

Você já sentiu dor durante uma relação sexual?

Não conseguiu atingir o orgasmo?

Se interessou pouco em iniciar uma relação sexual (mesmo depois de ler nossas dicas para estimular sua mente e corpo)?

Se foi algo pontual, isso é normal. Caso contrário, preste atenção e continue lendo.

A Dra. Débora, fisioterapeuta uroginecologista e especialista em disfunção sexual feminina, explica a distinção entre uma dor ocasional e uma disfunção.

Nenhuma dor durante a relação é normal, mas as dores podem acontecer um dia em que a mulher está de TPM, por exemplo, um pouco mais sensível, e então acaba tendo, na verdade, um desconforto momentâneo, mas na próxima relação, muito provavelmente, ela já não vai sentir mais nada, então isso pode ser uma coisa ocasional. Para uma dor realmente ser considerada uma disfunção ela tem que ser persistente e recorrente, e em alguns casos durar por mais de seis meses, então a gente já sabe que não é uma infecção, que não é nada que provocou aquilo ali.”

Muitas mulheres não procuram tratamento por achar que a dor faz parte da relação sexual, mas Dra. Débora ressalta que, “nenhuma dor durante a relação é normal.”

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Além da dor, existem outras disfunções sexuais femininas (DSF).

Alguns exemplos de DSFs (e nem é uma lista exaustiva!):

  • Vaginismo (contração involuntária que impossibilita a penetração);
  • Dispareunia (dor persistente durante a relação sexual);
  • Anorgasmo (não orgasmo);
  • Baixo desejo sexual (falta de interesse em iniciar uma relação sexual).

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As DSFs podem ser causadas por razões físicas ou psicológicas, ou ainda por uma combinação de ambas.

As possíveis causas físicas (também chamadas orgânicas) são:

  • Alterações hormonais;
  • Doenças endocrinológicas;
  • Tabagismo;
  • Diabetes;
  • Efeitos colaterais de alguns medicamentos, etc.

E essas condições impactam a sexualidade de cada mulher de maneiras distintas.

Para Ballone (2004),

“[…] contrário do que a maioria das mulheres sexualmente reprimidas imagina, está provado que os casos de disfunção causada por limitações físicas são raros, sendo os fatores mais decisivos na regulagem do apetite sexual, os fatores psicológicos.”[1]         

Qualquer tipo de trauma pode impedir a capacidade da mulher de sentir prazer. Outras causas, tais como a maternidade, o estresse profissional, o cansaço e a baixa autoestima podem resultar nas mesmas disfunções listadas acima.

A Dra. Carolina, ginecologista, obstetra e especialista em saúde feminina, disse que,

“Tenho recebido aqui mais queixas de mulheres na faixa dos trinta anos. É uma fase que a mulher trabalha muito, chega em casa e tem tarefas domésticas para realizar, e ainda tem filhos pequenos. Acho que hoje, o principal problema que afeta a sexualidade da mulher é a exaustão. Se eu fosse falar qual é a pior fase pra sexualidade da mulher, eu falaria dessa fase do filho pequeno, não é pós menopausa não. Na menopausa tem muita influência hormonal, mas a mulher é mais segura, já conquistou muita coisa, tem mais tempo para curtir relacionamentos. Ela é mais dona de si mesma.”

A Dra. Sonia, psicóloga social e terapeuta sexual, concorda:

“A maior angústia hoje para a mulher, essa mulher de trinta e poucos anos, é ser mãe e ser profissional. Muitas vezes, esta mulher fica entre o conflito de ser mãe e trabalhar. Ela tem uma consciência que ela quer trabalhar, mas também tem quase uma obrigação para ser a mãe perfeita. Esta mulher, muitas vezes, traz o conflito sexual. Depois de ser mãe, a sexualidade muda muito para mulher.”

As profissionais apontam a necessidade urgente de todas as mulheres, especialmente as mães, acharem tempo para si e não esquecerem que sua sexualidade existe e é importante, apesar de sentirem que é a última prioridade.

Além de se cuidar, é essencial se tratar. Uma coisa é estar exausta e não ter vontade por um tempo, outra coisa é sofrer e se esconder da sua sexualidade.

Às vezes a disfunção não tem apenas uma causa. A Dra. Débora dá um exemplo de como o corpo e a mente estão ligados no desenvolvimento de uma DSF. “Uma mulher pode começar a ter uma disfunção sexual se ela tem uma candidíase, que é algo orgânico. Se ela está bem psicologicamente, o emocional dela tá OK, ela vai ao ginecologista, trata e não vai ter nenhuma disfunção. Mas, se isso não acontece, se ela não tem muitas orientações, isso pode sim virar uma dor crônica, que pode desenvolver uma disfunção.”

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A importância de se tratar é fundamental, e tanto as causas físicas quanto as causas psicológicas são tratáveis.

A Dra. Mirian, sexóloga, aponta como é possível tratar de emoções e traumas que interferem numa relação sexual.

“Na hora H o corpo já reage diferente (do que espera ou quer). Então vem uma emoção que não foi editada, emoção lá de experiências anteriores, que se apresenta bem naquele momento. Então é preciso editar isso. A experiência, a gente não muda, está dada e acabada, mas a emoção, nós temos que reeditar. E como fazer isso? É resignificar a experiência para que ela consiga dissolver essas fantasias emocionais que são aprisionadoras.”

Muitas vezes as pessoas ficam frustradas com padrões que se repetem e têm pensamentos de julgamento, o que atrapalha muito. A Dra. Mirian insiste que, “essa situação que você vive agora é nova, embora tenha uma semelhança com a anterior. Não é que você tenha vivido antes. Eu uso mindfulness (atenção plena) no consultório, para poder fazer que a pessoa esteja presente no aqui e agora, percebendo suas emoções, e isso ajuda muito na questão sexual.”.

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Para uma mulher que sente dor, ou que não quer iniciar uma relação sexual, ou que não consegue atingir o orgasmo E essa condição gera sofrimento e dura por mais de 6 meses (o critério de disfunção sexual), busque alternativas!

No primeiro instante, o ideal é procurar uma ginecologista de confiança, para atender suas necessidades rotinas e para discutir suas preocupações relacionadas à sua sexualidade. É ela que vai avaliar a possibilidade de prováveis causas físicas e te orientar sobre a necessidade de conversar com uma fisioterapeuta uroginecologista e/ou terapeuta sexual (sexólogo).

Achar uma ginecologista que não desqualifica suas colocações ou minimiza as manifestações da sua sexualidade, infelizmente é a exceção e não a regra.

Algumas referências para tratar suas preocupações com sinceridade e expertise são:

  • Coletivo Feminista—Pinheiros, SP. As médicas são excelentes e tratam as pacientes de forma horizontal. A demanda é grande e pode demorar para marcar uma consulta. A consulta com a médica custa R$250 e inclui o retorno.
  • Projeto Afrodite—Vila Clementino, SP. “O Projeto Afrodite, que faz parte do Departamento de Ginecologia da Unifesp, tem o intuito de orientar mulheres sobre a sua sexualidade em todos os sentidos, do reconhecimento do próprio corpo à como obter prazer nas relações sexuais. As atividades e intervenções são realizadas no Ambulatório de Sexualidade da Unifesp.” Contato: (11) 5549-6174
  • Pro-Sex— Cerqueira César, SP. “Criado em 1993, o Prosex desenvolve várias linhas de pesquisas e presta atendimento assistencial gratuito à população. Coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, a equipe é multidisciplinar, envolvendo psiquiatras, urologistas, ginecologistas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, educadores e pesquisadores da área de saúde.” Contato: (11) 2661-6982

 

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Entrevistadas

dra carolina ambrogini

Dra. Carolina Ambrogini: Ginecologista e Obstetra, especialista em saúde feminina e sexualidade

Dra Débora Padua: fisioterapeuta uroginecologista, especializada no tratamento de vaginismo

mirian lopes

Mirian Lopes: Psicologa & Pós-Graduada em Sexualidade Humana

Sonia Angelico: Psicologa, especializada em terapia familiar e sexualidade humana

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[1] http://www.redepsi.com.br/2011/03/26/sexualidade-feminina-aspectos-culturais-da-repress-o-sexual-e-suas-consequencias