Susie: “Eu sofria muito de não ser aceita como eu realmente sou”

Uma das questões mais antigas na psicologia é: o que gera um impacto maior na formação de nossas personalidades: natureza (genética) ou ambiente? Análise atual[1] indica que os dois tem igual impacto.

Mas isso também é pertinente para uma mulher?

A mulher que cresceu no ambiente familiar e numa sociedade com limites severos relacionados às possibilidades femininas, pode dizer se sua personalidade vem dela ou dos outros?

De fato, a questão de ambiente, historicamente, acabou sendo muito mais forte para muitas mulheres.

Para Susie, carioca, advogada, comunicadora e astróloga, as demandas sociais dos seus pais definiram seu início na vida adulta. Seus pais eram de origem humilde e lutaram para entrar na classe média. A importância da aparência dominou suas escolhas de vida.

Eu sempre tive uma vontade muito grande de fazer alguma coisa ligada à comunicação e artes, a vida toda. Mas isso não dava status (para) a classe média brasileira. Eu era boa aluna e passei para Federal em direito. Passei com 15 para 16 anos. Meus pais na época falaram tanto (de orgulho), queriam até entrar com uma ação para um mandato de segurança, para eu poder começar a cursar, mas aí eu disse não, eu queria voltar para minha escola. Adorava meu colégio. Fiz de novo o ano seguinte e passei de novo. Foi muito complicado por que você começa a lidar as 17/18 anos com uma realidade que você sabe que jamais vai te fazer feliz. Eu implorava aos meus pais para me deixaram sair e eles diziam não. Eu não tinha essa opção. Eles achavam que no coração deles, eles estavam fazendo o certo, estavam me encaminhando. Não tinha essa coisa de vocação.”

Ela detestava o curso e tinha plena consciência que não era o que ela queria fazer, mas não via outras opções. Com vinte anos ela não aguentava mais e procurou emprego na área de turismo. Ela foi contratada como comissária de bordo. “Embora ela (sua mãe) nunca tivesse me dito isso abertamente, ela tinha vergonha. Por que para ela, era um trabalho inferior — estar servindo as pessoas. Ela achava que eu tinha mais potencial.” Para Susie não foi a questão de potencial ou de gostar, foi uma necessidade pessoal e financeira. “Pagava bem e eu não tinha outra fonte de renda. Era a única maneira (de ir para o mundo). Na minha fantasia eu teria seguido para a televisão.” Mesmo trabalhando fora da área, ela se formou em direito e passou na OAB para agradar sua mãe.

Ela fez muita coisa legal na vida, mas “eu fiquei com aquela sensação que eu não tinha cumprido meu dever. A aviação foi boa, mas eu nunca tinha que falar, e para mim, falar é muito importante. Nesse momento estou saindo de um divórcio que foi terrível. Vim para NY sozinha — eu e uma mala e um sonho. O sonho era que eu ia voltar para meu projeto lá de trás.” Dar voz às suas paixões e capacidades é a prioridade atual de sua vida.

A astrologia faz parte da sua vida desde a adolescência, mas apesar de ter uma paixão e talento para a área, ela sofreu para valorizar o seu trabalho. “Astrologia, para mim, é uma coisa muito interessante. Ela sempre me seguiu. Quando eu comecei a estudar astrologia, foi depois dessa crise (de estudar direito), eu fiquei apaixonada. Sabe um músico, quando ele vai ao concerto e ele escuta música pela primeira vez e fica inebriado? (Foi assim com astrologia). Só que eu fui bombardeada, mais uma vez — aonde eu ia com essa astrologia? Eu sempre fui uma pessoa ligada demais ao que os outros achavam. No fundo eu queria a aprovação da minha mãe.”

Até 2005, quando ela foi diagnosticada com câncer de mama, seu relacionamento com a mãe era complicado. Susie percebia que ela não estava vivendo o que a sua mãe queria e nem a vida que ela mesma queria. Ela fez um tratamento no João de Deus e se mudou para os EUA. “É tão interessante. Eu fiz muita coisa. Comecei um grupo grande no Boulder, Colorado, de meditação, de oração. Comecei a levar pessoas para o Brasil para fazer a jornada de cura. Fiz um ‘talk show’, na época, na TV comunitária — aos pouquinhos encontrando minha voz. Agora, meu pai faleceu, minha mãe está bem mais velha. Minha mãe mudou muito. Ela está começando a enxergar que se tem uma coisa que precisa acontecer antes dela falecer, é que eu seja feliz. Ela está querendo muito que eu encontre minha voz. Isso para mim, no nível inconsciente, está sendo maravilhoso, por que é como se tivesse feito as pazes muito forte com uma parte de mim. Eu sofria muito de não ser vista, de não ser aceita como eu realmente sou.

Só agora, depois de quase cinquenta anos, que Susie realmente pode dizer que quem ela é não se resume ao seu ambiente. Finalmente ela tem a liberdade e confiança de ser quem ela realmente é.

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[1] http://hypescience.com/genetica-versus-ambiente-finalmente-uma-resposta/