Pepita: “Como você administra autonomia quando você não tem mais força?”

Pepita, espanhola de 68 anos, cresceu na época da ditadura (Franco) quando a ditadura era acompanhada pela igreja católica. No seu país todos eram obrigados a ser católicos, todos tinham papéis definidos pela sociedade. Ela aprendeu que “a forma de ser mulher era ser uma pessoa doce, em função dos cuidados dos outros, se preparar para o matrimônio. No contexto social, não existia (espaço) para questionar o sistema.”

De uma família de 7 irmãos, duas foram freiras e um foi padre. Ela foi freira por vinte anos. De alguma forma sua participação religiosa deu à ela uma liberdade: ela se mudou para a Colômbia, como missionária religiosa.

A questão de classe motivou-a mais do que a questão de gênero. Inclusive, quando ela era uma jovem missionária na Colômbia, tinha preconceito com as feministas porque para ela era mais importante a questão da justiça social. Ela morava em regiões muito pobres e pensava, “como eu posso reclamar (sobre gênero) quando tem pessoas que sofrem tanto (por causa de pobreza).”.

“Quando eu vivia em bairros populares, com pessoas bem pobres, eu falava ‘puxa vida, tendo esse grito tão forte como é que vou me colocar para coisas que me parecem secundárias”. Só após algumas experiências (quase aos 40 anos) eu percebi que minha contribuição, meu papel, minha condição eram importantes, porém não eram valorizadas. E aí foi quando eu… (me despertou para a questão de gênero).” Depois de sair da igreja é que ela estudou e começou a militar para as questões de gênero.

Atualmente, é professora de pedagogia. Sua missão é facilitar a transição do senso comum para o senso crítico. Ser professora é uma profissão historicamente feminina e é muito desvalorizada. Pepita trabalha com os alunos para despertar a consciência de que ser professor/a não é “coisa de mulher.” Ela aborda a história porque explica muito como se desenvolveu esse preconceito. “Quando você tem consciência do motivo das coisas serem como são, você passa a ver o mundo de uma forma diferente.”

“Eu tenho consciência da importância de um/a professor/a para uma sociedade e a contribuição que nós podemos dar. Então, eu trabalho muito com meus/minhas alunos/as para que não tenham esse preconceito que existe sobre ser professor ser coisa de mulher. Não é coisa de mulher, é coisa de ser humano que tenha interesse em transformar uma sociedade.”

Ela mora há 31 anos no Brasil. O fato de ser mulher estrangeira, que fala com sotaque, tem um impacto na sua capacidade de se posicionar politicamente no trabalho. Pessoas são rápidas a minimizar sua razão com frases do tipo: ‘você não é daqui, você não sabe daqui.’ Ela entende que essa atitude não é apenas sobre sua nacionalidade. “Eu moro aqui a mais tempo do que na Espanha. Quando não interessa a sua opinião, eles a desqualificam por qualquer razão.” Ela aprendeu a importância de avaliar a sintonia com uma pessoa ou grupo antes de falar. Mesmo sendo muito cautelosa onde e como ela se coloca, a questão política é a que mais motiva ela.

“O que me mais mobiliza é poder contribuir para esse tipo de consciência crítica e política. Isso para mim é fundamental. Conheço o sofrimento humano, claro que tem sofrimento que não é político, que não é por classe social, mas a maioria (do sofrimento) é pela carência de oportunidades. As injustiças me mobilizam muito. Eu penso que política engloba estilo de vida, oportunidades, questão de gênero, questão de raça — a injustiça.”

Ela é muito grata por ter tido a oportunidade de sair da Espanha, morar na Colômbia e criar uma vida no Brasil. Ao mesmo tempo ela reconhece as perdas que vem com a escolha de uma vida fora do padrão. Ela nunca se casou, não tem família. “Também é um sofrimento. É a questão de você não ser daqui, não ser de lá. A solidão é grande.”

Pepita viveu vários momentos históricos e políticos — de democracia, de religião, de feminismo — e agora ela está aprendendo mais uma vez como viver com uma nova realidade: a complexidade que a terceira idade traz. “Eu me sinto bem, estou fisicamente bem, estou com saúde, mas eu sei que a vida tem seu processo (de envelhecimento).” Ela entende essa reflexão como uma responsabilidade. “Como eu me preparo para esse momento? Não tenho solução. Às vezes (me sinto) mais tranquila, às vezes (as preocupações) vêm com mais angústia.”

Sua família pergunta muito sobre aposentadoria e sua volta para a Espanha. “Eu estou fazendo aquilo que eu mais gosto, dar aula. Eu gostaria, enquanto minha cabeça estiver boa, de fazer isso. Mas essas perguntas me vêm: e quando minha cabeça não funcionar? Como eu vou fazer? Como eu vou enfrentar isso? Acho que seria um tema interessante para pensar dentro do mundo feminista. No modelo diferente de família, onde você não casa para seu filho cuidar de você, onde você tem um jeito mais autônomo, como você administra autonomia quando você não tem mais força?” Poucas pessoas ao seu redor conversam sobre como mulheres — feministas, independentes, solteiras — podem administrar os limites da velhice. Mas para Pepita, o desconhecido nunca é um impedimento para viver com curiosidade a aventura que é a vida.