Os EUA Não É Melhor

O mundo inteiro está discutindo a eleição de Donald Trump para presidente do EUA. Mais uma vez, eu fico surpresa com a fascinação dos brasileiros com os Estados Unidos.

Espero que essa eleição prove, finalmente, que os EUA não é melhor do que o Brasil.

Eu morei nos EUA dos meus 7 meses de vida aos 31 anos. Falo inglês melhor do que português. Tenho um estilo e atitude mais “americano”. A maioria dos brasileiros me chamam de Americana (porém, eu não me identifico assim).

Nos 6 anos que eu moro em São Paulo, brasileiros (a maioria brancos, da classe média) me perguntam com frequência como eu, alguém com dupla cidadania, podia escolher morar no Brasil e não nos EUA. “Não sei como você aguenta o Brasil. Se eu pudesse, eu mudaria para lá agora,” ouço com frequência

Para brasileiro/a, branco/a, rico/a, esse desejo faz todo sentido.

Para todos os outros brasileiros, a mudança para os EUA garantirá acesso a nenhum serviço de saúde gratuito, nenhum direito trabalhista (tipo férias, auxílio maternidade, auxílio doença, vale transporte, vale alimentação) e nem o direito de passar mal. Quando eu comecei a trabalhar no Brasil eu fiquei chocada que as pessoas tinham direito de ir ao médico durante o dia e, com atestado, ser liberado do trabalho do dia. A maioria dos empregos nos EUA exige que você reponha as horas não trabalhadas — seja para cuidar do seu filho ou ir ao médico.

É possível que uma empresa ofereça um pacote de benefícios, mas não há legislação federal que garanta esses direitos. E o mínimo de serviços que o Estado oferecia agora serão cortados e/ou revogados.

Mas tudo bem, brasileiros respondem, há mais liberdade, menos burocracia, menos corrupção, mais riqueza lá para quem trabalha. A vida do pobre é melhor lá do que aqui, as pessoas insistem.

Isso depende muito da sua cor de pele.

Nos EUA, 13% da população é negra[1]. O Brasil é um dos países, fora do continente Africano, que tem a maior população de origem africana[2]. Há uma discussão sobre a porcentagem exata (complicada pela definição de pardo), mas em geral é citado que mais de 50% da população brasileira é negra[3].

O racismo nos EUA é muito diferente do que no Brasil, por várias razões:

por a população negra ser menor; por ser um país fundado nos princípios do puritanismo e não do catolicismo; por ser uma sociedade individualista e não coletiva.

Não estou comparando o racismo de uma forma qualitativa, com racismo não existe melhor ou pior, mas sim, há diferenças.

A política de racismo nos EUA, após a abolição do sistema escravocrata (em 1865), foi de segregação total e negação de direitos para as pessoas classificadas como negras (legalmente em vigor até 1965). De acordo com a cultura, a classificação de raças independia da aparência, sendo que qualquer mínimo laço, uma gota de sangue que fosse, tornava essa pessoa negra. Sendo assim, uma pessoa vista como negra, mesmo com a cor de pele branca, era proibida, perante a legislação da época, de votar, ocupar os mesmos espaços de brancos, e acessar os serviços de saúde, educação e emprego.

A qualidade de vida dos negros nos EUA, em vários aspectos, é pior do que para o branco até hoje, por causa dessa longa história. Análises de dados do governo federal, pelo Pew Research Center, identificam que os negros, em média, são pelo menos duas vezes mais propensos que os brancos a serem pobres ou a estarem desempregados. As famílias chefiadas por uma pessoa negra ganham, em média, pouco mais da metade do que as famílias brancas médias ganham. E, em termos de seu patrimônio líquido, as famílias brancas são cerca de 13 vezes mais ricas do que as famílias negras—uma lacuna que cresceu desde a Grande Recessão.”[4] A desigualdade de patrimônio é devido às inúmeras políticas de exclusão de empréstimos do Estado para moradia (que eram dadas exclusivamente aos brancos).

Ainda há discriminação no mercado de trabalho; candidatos com nomes que soam “negro” tem menos chance de conseguir uma entrevista[5][6]. Na educação, “as taxas de desistência no ensino médio são as mais baixas entre os brancos e as mais altas entre os hispânicos, enquanto as taxas de matrícula na faculdade são menores entre os negros e mais altas entre os brancos[7].” E é a população negra que mais sofre, desproporcionalmente, com encarceramento. “No final de 2001, cerca de 16,6 % dos adultos negros do sexo masculino eram presos atuais ou egressos, em comparação com 7,7 % dos homens hispânicos e 2,6 % dos homens brancos[8].”

Historicamente, cada avanço econômico e social da população negra é seguido por um “white backlash”. Vemos isso nessa eleição. Após 8 anos de um presidente negro, o fortalecimento do ativismo do movimento negro e o progresso em alguns índices de desigualdade entre negros e brancos, Donald Trump foi eleito — o candidato com um discurso racista e oficialmente apoiado pelo grupo de supremacia branca e terrorismo doméstico, a KKK.

Os EUA é um país de oportunidade, se você tem pele clara e é nativo. Para os demais, sempre foi um lugar inóspito, e com o novo presidente voltará a ser tanto quanto era antes.

Não há país melhor ou pior. Há o lugar onde moramos e precisamos lutar e investir para que seja o melhor para todos nós.

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Para quem lê e entende inglês, as melhores fontes para entender esse fenômeno são:

LIVRO: White Rage por Carol Anderson[9]

DOCUMENTÁRIO: 13th[10] (Netflix Brasil oferece com legendas em português)

PODCAST: The Weeds: Trumpocalypse[11]

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[1] https://www.census.gov/quickfacts/table/PST045215/00

[2] http://www.brasil.gov.br/cultura/2009/10/cultura-afro-brasileira-se-manifesta-na-musica-religiao-e-culinaria

[3] http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm

[4] http://www.pewsocialtrends.org/2016/06/27/1-demographic-trends-and-economic-well-being/

[5] https://www.povertyactionlab.org/evaluation/discrimination-job-market-united-states

[6] http://fortune.com/2014/11/04/hiring-racial-bias/

[7] http://inequality.stanford.edu/publications/20-facts-about-us-inequality-everyone-should-know

[8] https://www.bjs.gov/content/pub/press/piusp01pr.cfm

[9] https://www.goodreads.com/book/show/26073085-white-rage

[10] https://www.youtube.com/watch?v=V66F3WU2CKk

[11] https://soundcloud.com/panoply/trumpocalypse-now