Muna: “Eu cobri meu cabelo, não a minha mente”

Muna, empreendedora de 36 anos, oriunda da Síria. Ela nasceu em Latakia, uma cidade no Mediterrâneo. Ela é a mais nova de cinco irmãos e a única menina. Ela mesma tem quatro filhos, três filhos e uma filha. O que ser mulher significa para ela foi formado, em parte, por sua religião, cultura e estatuto de refugiado, mas não da maneira que muitos imaginariam.

Ela está no Brasil há três anos. Antes de vir, ela não tinha noção de como seria viver no país. “Nós ouvimos que a economia era muito forte (no Brasil) e que meu marido poderia trabalhar em sua profissão. Seu diploma (engenharia naval) é internacional e ele pode trabalhar em qualquer lugar do mundo. Mas nós descobrimos mais tarde que era muito difícil para ele, porque ele não falava português.”

Apenas um ano atrás, ela estava lutando para criar uma vida no Brasil. Em setembro de 2015, ela deu uma entrevista à Revista Crescer e falou da necessidade de ajuda, onde expressou o desejo de deixar o Brasil[1]. Agora, no final de 2016, sua vida se alterou significativamente.

Muna adorava cozinhar na Síria. “A cozinha é muito importante para uma família árabe, toda a família deve comer junta. Há uma expectativa de alimentos diferentes todos os dias. Não é como no Brasil, não temos esta vida prática. A nossa vida é mais formal, mais tradicional.” Ela aprendeu a cozinhar com sua mãe, e logo depois de chegar ao Brasil começou a vender comida para amigos na mesquita por necessidade financeira. Seu negócio alcançou novos níveis de sucesso quando ela apresentou seu trabalho para Adus, e eles a ajudaram a configurar sua fanpage[2]. Ela agora tem mais de 5.000 fãs. Além da estabilidade econômica que a empresa tem fornecido à sua família, esse negócio/trabalho/profissão criou incríveis novas possibilidades para ela.

No ano passado ela serviu um coffee break para UN Brasil[3], participou do programa de televisão Corre e Costura[4], deu entrevistas ao LA Times[5] e outros meios de comunicação, realizou workshops no Mercado Municipal[6] e no Migraflix, participou do V Fórum Empreendedoras[7] e falou num evento promovido pela SEBRAE[8].

Ao refletir sobre esse reconhecimento e o incrível rumo que tudo tomou, ela afirma, “Na Síria, eu era uma mulher muito normal. Uma menina educada, eu tinha uma família. Eu tinha filhos. Eu cuidei da minha família, isso era tudo. Aqui no Brasil, é diferente agora.”

Seu conselho para outras mulheres que gostariam de realizar seus sonhos de uma pequena empresa é: ser fiel a si mesma e realmente acreditar no seu valor. “Você precisa ser muito real/transparente e ter uma grande autoconfiança. A maneira que eu cresci na minha família me ajudou. Crescer com quatro homens era bom para (me ensinar) a ser forte. (A mulher) deve se imaginar como um chef muito famoso e fazer o melhor (produto). Eu tenho sorte, mas eu também tenho a minha personalidade boa. Há muitas mulheres que trabalham em comida árabe, mas não encontraram o mesmo sucesso. Você sempre tem que dizer para si mesmo, dentro e fora, “Eu sou muito boa, estou muito bonita, estou muito forte, e eu sou muito inteligente”. É um remédio mágico. (Insegurança) é um problema muito grande para as mulheres no mundo.”

Muna se orgulha de ser uma mulher muçulmana e valoriza as oportunidades para ensinar os outros sobre a diversidade e beleza do que isso significa. Ela sempre diz: “Eu cobri meu cabelo, não a minha mente.” Muitas pessoas perguntam por que ela usa um lenço (hijab), que ela começou a usar aos vinte anos de idade, o que é mais tarde do que a maioria das mulheres. Em sua família, ela tinha a liberdade de decidir quando ela queria usar o lenço. “Na minha opinião, é muito bom para mim estar aqui, para dar às pessoas uma idéia melhor do Islã e os muçulmanos. Somos muçulmanos, mas não somos como ISIS, não somos fundamentalistas. O Islã não é assim. Islã é um bom modo de vida. É uma boa maneira para as mulheres viverem. Eu dou muitos cursos de culinária, com Migraflix. Não é só para ensinar culinária, é ensinar cultura. Eu sempre quero dizer: Eu sou uma mulher muçulmana, mas eu sou muito bonita, eu uso calças, eu não tenho problemas para trabalhar. Eu não sou como aquela mulher muçulmana (que as pessoas imaginam). O Islã não é assim. Islã é como a minha vida.”

Ela entende que a vida de sua filha vai ser muito diferente da dela, e isso é excitante e desafiador. “É uma coisa muito sensível, porque estamos aqui no Brasil. Talvez ela tenha mais liberdade do que eu. Eu não quero que ela cresça aqui da mesma forma que eu cresci na Síria. A honra de qualquer menina não está apenas em seu corpo, sua honra está em sua mente e em seu coração. Somos muçulmanos, mas ela tem que tomar suas decisões sozinha e não com as minhas restrições.” Muna se esforça para criar os filhos com “maneiras muçulmanas e personalidade brasileira. A personalidade brasileira é mais prática.”

Se você quiser encomendar comida da Muna, a melhor maneira é entrar em contato com ela através do Whatsapp (11) 95437-0682.

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[1] http://revistacrescer.globo.com/Refugiados-no-Brasil/noticia/2015/09/eu-nao-escolhi-vir-para-o-brasil-nao-ha-escolha.html

[2] https://www.facebook.com/munacozinhaarabe/

[3] https://www.facebook.com/munacozinhaarabe/photos/pcb.1675770456015314/1675770389348654/?type=3&theater

[4] http://sobretv.com.br/corre-e-costura-alexandre-herchcovitch-ajuda-casal-de-refugiados-a-se-vestirem-para-um-dia-especial-de-trabalho/

[5] http://graphics.latimes.com/syria-to-brazil/

[6] https://www.facebook.com/premioeducacaoalemdoprato/photos/a.599336083548031.1073741841.316944281787214/599336350214671/?type=3&theater

[7] https://www.facebook.com/RedeMulherEmpreendedora/photos/a.122465197829326.24208.121634567912389/1097231577019345/?type=3&theater

[8] https://www.facebook.com/munacozinhaarabe/photos/a.1640012226257804.1073741830.1621024374823256/1719239585001734/?type=3&theater

*Foto gentilmente cedida pela Muna