Regina: “Por mais que tenhamos uma mentalidade feminista, na prática é mais complicado”

Entender o que significa ser mulher e como a sociedade pode influenciar sua identidade nem sempre se descobre cedo. Regina, 61 anos, assistente social, professora e integrante da ONG Católicas Pelo Direito de Decidir, cresceu sem contato com a maioria dos limites impostos pela sociedade às mulheres.

Minha mãe sempre foi uma mulher autônoma e lutadora, então a independência de realizar sonhos por contra própria, sem depender dos outros, sempre foi algo bastante significativo. Antes de meu pai falecer, ele ficou doente durante quatro anos e acamado. Minha mãe cuidou das economias e dos deveres de casa. Ela praticamente exercia as duas funções de uma família tradicional. Então a impressão que eu tinha da mulher não era tão diferente da (que eu tinha) do homem.

Regina começou a questionar as atitudes dos colegas em relação ao gênero quando ela tinha 27 anos. Tudo começou quando ela percebeu que certas tarefas foram atribuídas a certas pessoas.

Eu comecei a trabalhar em um centro de educação popular. Eu e outra mulher coordenávamos os cursos, e comecei a perceber que nós cuidávamos da parte prática dos cursos, da logística e praticamente carregávamos ‘o piano nas costas’. Porém, os principais coordenadores do espaço eram homens. (Existiam casos) em que nós mulheres trabalhávamos juntas no mesmo espaço com os homens, mas não tínhamos o mesmo poder de decisão. Não podíamos exercer a representação externa.

Quando ela percebeu que existia sexismo em suas interações cotidianas, achou necessário buscar conhecimento e estudar, a fim de compreender verdadeiramente a sua situação.

Fui para o mestrado para estudar relações de gênero em ONGs. Foi interessante, pois a direção da própria ONG (onde enfrentava questões de gênero) foi quem propôs a realização de um mestrado. Isso me ajudou a entender e a compreender outros horizontes sobre relações de gênero.

Evoluir como feminista é um processo rico, mas nunca fácil. “Por mais que tenhamos uma mentalidade feminista, na prática é mais complicado (equilibrar família com trabalho e a própria identidade) do que se imagina. Foi bastante complicado. Por que não podemos dedicar toda a nossa atenção para algo e menosprezar o outro.”

Seu trabalho na ONG é diretamente ligado a questões de gênero e religião. Sim, é possível ter fé e apoiar os direitos das mulheres. “Trabalhamos questões da sexualidade da religião. Como as religiões cristãs ocidentais, principalmente o catolicismo, tendem a ver a sexualidade como algo ruim, algo relacionado ao pecado e condenam o uso da caminha e a prática do aborto, seja ela qual for a circunstância, hoje trabalhamos tentando romper esse fato.

Logo após Dilma sofrer impeachment a ONG trabalhou questões políticas, e Regina estava com receio de que o número de mulheres na política ia diminuir. Nas eleições de 2016, em São Paulo, constatou-se um aumento no número de mulheres na câmara de vereadores, mas os resultados a longo prazo na participação política das mulheres ainda precisarão ser avaliados. Depois de uma participação na Virada Feminista Online, no dia 28 de setembro de 2016, (assiste a entrevista que Regina deu para o Brasil Fato abaixo), a ONG está se preparando para os 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, que será realizado em novembro.

Regina não se vê como uma mulher que atende as expectativas da sociedade, “não sou uma mulher tão feminina, não me cuido. Não faço unha. Não me maquio, estou gorda. E tudo isso está absolutamente fora do padrão estabelecido pela sociedade de como uma mulher comum deve ser.” No entanto, ela vê sua vida como um sucesso, e é isso que realmente importa. “Sucesso na minha vida em geral, é tudo. Digo que financeiramente está em um nível razoável. Conheço pessoas de diferentes religiões. (Publicou sua tese de doutorado com bons resultados e repercussões). Absolutamente tudo isso considero como um sucesso.