Sheila: “Ser mulher negra é você ser forte”

Ser mulher negra no Brasil representa várias coisas: mais chance de sofrer violência (59,4% das mulheres vitimas de violência domestica[1]), menos oportunidade para estudar (apenas 10,9% atingem o ensino superior[2]), maior chance de mortalidade materna e menos acesso ao pré-natal.

Mas o que é a realidade por trás dos números?

O que a desigualdade e opressão implicam nas experiências vividas?

Para Sheila, do Jardim Helena na Zona Leste de São Paulo, seu maior desafio foi “ser mulher negra da periferia de baixa renda.” É impossível separar suas identidades: sua primeira memória de gênero está acompanhada pelo racismo. “Eu acho que a maioria dos negros aprende o que é a questão racial sofrendo preconceito.”

Sua experiência de racismo na rede pública às vezes foi gritante, tal como os meninos nas festas juninas que se negavam a dançar com uma menina negra, e muitas vezes esse racismo era velado. “Na minha formatura da 8ª série os professores fizeram a homenagem para alguns alunos. Mesmo tentando fazer as coisas corretas na escola (no trabalho e comportamento), eu nunca recebi nenhum tipo de elogio, nunca recebi nenhum tipo de reconhecimento ou valorização. Teve um professor de inglês que na formatura me entregou um presentinho e falou que embora ninguém tivesse reconhecido meu valor na escola, ele via que eu merecia ser elogiada. Aquilo que ele tinha me dito representava exatamente o que eu sentia daquele universo, daquela escola.”

Sem qualquer orientação de adultos, Sheila procurou uma saída da escola. Depois de ver uma propaganda na televisão para a Escola Estadual Condessa Filomena Matarazzo, ela se inscreveu e passou no vestibulinho. Escolher uma nova escola e fazer isso acontecer é um dos vários exemplos de sua incrível maturidade e determinação.

O racismo sistemático inúmeras vezes deixa a vítima de racismo com a impressão de que os grandes desafios na vida dela são fruto de falhas pessoais ou escolhas individuais. “No mínimo a gente tem que ter uma conexão daquilo que vive com a realidade exterior e outros contextos para você conseguir elaborar de alguma maneira. Quando você cresce assim (negra, pobre, na periferia) você só tem peso de vivência, daquilo que você está vivendo, sem saber o que é direito e como lidar.”

Sua escolha de serviço social como carreira se deve em grande parte por causa da vivência no Jardim Helena, um bairro onde além de uma educação excludente, Sheila presenciou vários episódios de violência.   Quando seu primo foi assassinado ela começou a pensar em como entender tanta injustiça e violações de direitos. “Ia ter um almoço em casa no final de semana e ele (seu primo) foi chamar meu pai e meus primos, por que minha avó pediu e o bar era próximo de casa. Na hora que ele chegou ao bar para chamar eles para almoçar, uma moto parou e começou a atirar para tudo quanto é lado, por que tinha ladrão e ele (na moto) foi acertar as contas. Uma das balas acabou o acertando. Ele tinha 12 anos. Meu pai o socorreu, mas acabou não resistindo e morreu dessa bala perdida. Para a família ficou mais uma coisa sem resposta. Não tinha investigação. Não tinha nada.”

Inicialmente ela pensou em fazer direito, mas ultimamente ela não estava interessada em punição, e sim na justiça que depende da garantia de direitos. Ela se formou e completou o mestrado na área. Segundo Sheila “continuo acreditando que posso fazer grandes coisas (no serviço social). O maior desafio (atualmente) é achar parceiros (na profissão) com energia.”

Por todos os desafios que sua família enfrentou, vinculados à pobreza e violência oriundos de uma sociedade racista, eles eram muito unidos e solidários. Ela reconhece que “cresceu no ambiente onde todo mundo estava fazendo seu melhor e se dedicavam em prol da família.” Hoje, ela acredita que seu maior sucesso é a relação que ela tem com sua família.

Sheila é uma mulher muito teimosa e persistente. A percepção que outras pessoas tem é que ela é uma mulher muito forte, mas ela não sabe se isso é uma característica pessoal ou mais uma imposição velada de uma estrutura racista. “Sempre que todo mundo fala de mulher, fala que ser mulher é ser sensível, ser frágil, e isso é ser mulher branca, por que ser mulher negra é você ser forte, é você ser trabalhadora, é você pegar sua sacola de feira pesada sozinha porque ninguém vai carregar para você.”

Talvez a sua experiência sobre a vida solitária de uma mulher afro-brasileira seja a razão que  faça ela valorizar tanto as pessoas ao seu redor. A vida ensinou à Sheila que “nosso maior tesouro — aquilo que ajuda a gente nos momentos mais difíceis — são as pessoas que a gente vai agregando ao longo esse processo.”

[1] http://www.revistaforum.com.br/2016/07/25/infografico-a-condicao-da-mulher-negra-no-brasil-em-numeros/

[2] http://nosmulheresdaperiferia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/infogr%C3%A1fico2-01.jpg