Resenha: Quem Matou Eloá? (Filme)

Quem Matou Eloá? (2015)
Qualidade da produção e das reflexõesTemas (violência contra mulher, ética da imprensa)
Falta de contextoOmissão de diferença de idade
4.6Valor Total
Por, Para, Sobre Mulheres
Acessibilidade
Diversidade
Preciso
Profundo
Qualidade
Votação do Leitor 1 Voto

(Assiste o documentário no site: Porta Curtas)

No dia 17 de outubro de 2008, depois de quatro dias de sequestro no seu próprio apartamento, Eloá Cristina Pimentel foi baleada na cabeça e virilha pelo ex-namorado e sequestrador, Lindemberg Fernandes Alves. No dia 18 de outubro sua morte cerebral foi confirmada. O documentário “Quem Matou Eloá?”, um curta-metragem de 24 minutos, trata principalmente de duas questões: a ética da abordagem da imprensa do sequestro e como a mídia trata mulheres em situações de violência doméstica.

O documentário consegue explorar essas duas questões com uma profundidade impressionante. O ponto forte do filme é realmente o questionamento da abordagem da imprensa. Ao longo dos 24 minutos há inúmeros cenas de repórteres, polícias e Lindemberg durante os dias de sequestro. Numa forma criativa, o audiovisual jornalístico da época está intercalado com os comentários de feministas, ativistas e advogados. As observações das especialistas — sobre questões de classe, a descrição de homens que praticam esse tipo de crime, o uso da frase “crime de amor”— estimulam reflexões sobre como a mídia encara o feminicídio e, por extensão, como a sociedade entende o assunto.

Em várias entrevistas a diretora já foi perguntando se as coisas mudaram entre 2008 e hoje. É uma pergunta difícil responder.

Em 2008 a Lei Maria da Penha tinha 2 anos, twitter e facebook não tinham a metade dos usuários que tem hoje e o Instagram não existia. Sem dúvida, a consciência coletiva sobre a cultura de estupro, as várias formas de violência doméstica, a manipulação da mídia, o impacto de classe e raça na mulher brasileira, são maiores hoje — devido à lei e as mídias sociais.

O que aconteceu com Eloá aconteceria hoje?

Na abordagem da imprensa tradicional, é possível que não. Porém, a possibilidade de violência continua sendo uma realidade tão forte hoje, quanto em 2008, para muitas brasileiras, principalmente para as mulheres negras[1]. E o discurso sobre tais eventos continua semelhante. Num momento do sequestro, conversando com um repórter, o assassino Lindemberg, diz (em transmissões ao vivo) “Eloá não coopera, meu. Se ela está passando por isso, é por que ela merece. Se ela está passando por isso, é por que ela quis dessa maneira.” Até hoje uma parcela da população culpa a mulher pela violência que ela sofre.

Com muito respeito, tenho duas críticas ao documentário.

1) Não há contexto. Eu não vivi no Brasil em 2008. Não tinha referências desse crime. Não entendi exatamente o que aconteceu: como foi feito o contato com a mídia, quem estava no apartamento com Eloá, o que foi o resultado para Lindemberg? Pesquisei para descobrir que depois da tentativa fracassada da polícia na qual Lindemberg atirou em Eloá e sua amiga, ele foi preso e em 2012 condenado a 98 anos de prisão, e que um ano depois sua pena foi reduzida para 39 anos[2]. Acho que dois resumos, breves, antes de iniciar as falas das especialistas e no término do filme, teriam ajudado. Também, não entendo por que as especialistas não eram identificadas enquanto comentaram nos vídeos da época. Demorei para entender quem eles eram.

2) Há omissões. O documentário tem 24 minutos. É incrível o que foi abordado nesse tempo curto. No entanto, em nenhum momento é levantada a diferença de idade entre Eloá e seu assassino. Eloá começou namorar com Lindemberg quando ela tinha 12 anos. Ele tinha 19. Esse foi um fato que a sociedade usou para culpar a mãe, e inclusive foi abordado pelo UOL com esse comentário, “Respondendo a críticas de que teria sua parcela de culpa na morte da filha Eloá por deixar que a garota, aos 12 anos de idade, se envolvesse com Lindemberg, então com 19 anos, Ana Cristina Pimentel disse que é difícil lidar com os adolescentes.”[3]

Para mim, como uma mulher que cresceu nos EUA, é chocante uma menina de 12 anos namorar com alguém maior de idade. Parece que isso é mais aceito/comum no Brasil — minha vizinha começou a namorar de 13 para 14 anos com um homem de 37 anos, o filho de uma conhecida também começou a namorar com uma menina quando ele tinha 19 e ela 13. Não sei se é uma questão cultural, mas o CDC (Centro de Controle de Doenças) nos EUA identifica “idade jovem” como possível fator de risco para violência contra a parceira intíma[4]. Alguns homens escolhem mulheres mais novas para facilitar a tentativa de dominá-las.

O documentário é excelente e traz um assunto fundamental para uma sociedade onde 13 mulheres morrem, por serem mulheres, diariamente.[5].

Todo mundo deve assistir e olhar com novos olhos como a mídia trata a mulher que sofre violência e como nós pensamos nesse assunto.

É o mínimo que podemos fazer em memória da Eloá e de muitas outras Eloás.

***

[1] http://www.brasil.gov.br/defesa-e-seguranca/2015/11/mulheres-negras-sao-mais-assassinadas-com-violencia-no-brasil

[2] http://www.tjsp.jus.br/Institucional/CanaisComunicacao/Noticias/Noticia.aspx?Id=18491

[3] http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/02/27/mae-de-eloa-diz-que-autorizou-relacionamento-com-lindemberg-para-evitar-namoro-escondido.htm

[4] http://www.cdc.gov/violenceprevention/intimatepartnerviolence/riskprotectivefactors.html

[5] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/11/estudo-diz-que-brasil-tem-em-media-13-mulheres-assassinadas-por-dia.html