Nena: “Atualmente vivemos em uma sociedade absurdamente desigual”

Apesar de ser uma garantia constitucional, no Brasil há um dos piores sistemas educacionais do mundo (conforme índices da Organização das Nações Unidas e outras entidades internacionais). Agora, com a responsabilidade fiscal como justificativa, a PEC 241 limitará mais ainda os recursos para a educação, principalmente no ensino superior. O deputado Marquezelli deixou claro a lógica de uma parcela da população brasileira quando disse, “E quem pode pagar (universidade), tem que pagar. Meus filhos vão pagar…Quem não tem (dinheiro), não faz.”[1]

Neste blog, já entrevistamos várias mulheres que se livraram de situações de abuso, pobreza extrema e trabalho precário através da educação universitária. (Mari, Beatriz, Sheila, Renata). Nena, mineira, 52 anos, que atualmente está completando seu segundo bacharel, é mais um exemplo do poder da educação — um potencial que vai além da transformação pessoal e gera consequências positivas para a sociedade brasileira e o mercado de trabalho doméstico.

A ONU, em um estudo publicado em 2014, apontou a necessidade do ensino superior. “Para o estudo, ter ensino superior serve como garantia “bastante confiável” para obter um emprego formal. Além disso, ele (o estudo) reforçou o quanto é ruim tanto para o indivíduo, quanto para as economias, enviar jovens com baixo nível de educação formal e/ou sem qualificação para o mercado de trabalho.”[2]

O que se subentende das declarações das declarações do deputado Marquezelli é: quem pode pagar terá um ensino superior, e aqueles que não têm dinheiro não devem ter as oportunidades do que aqueles que têm os meios financeiros. Esse discurso nega a capacidade das pessoas que não têm dinheiro, o valor de cada humano e o sacrifício que muitas famílias fazem para garantir uma vida melhor.

Nena explica que, “quando (era) criança, meu pai ficou preso por alguns anos e eu cresci sem a presença dele. Quem cuidou de nós (4 mulheres e 2 dois homens) foi minha mãe. Quem assumiu tanto o papel masculino como feminino, foi ela. E com todo o esforço, ela construiu o caráter que temos hoje. Nunca houve conflito entre os afazeres do lar, pois meus irmãos sempre trabalhavam e cumpriam os afazeres de casa. Não por decisão imposta, mas por livre e espontânea vontade. Porém, eu percebi que no nosso meio de convívio, minha mãe era a única a trabalhar fora. De conhecidos e amigos, as mães sempre ficaram em casa, cuidando do lar.

Nena passou quase a vida inteiro trabalhando, mas como muitos indivíduos, nunca teria condições financeiras iguais as do deputado Marquezelli, que recebe a remuneração mensal bruta de quase R$ 34.000,00[3]. Apesar das desigualdades na sociedade brasileira, Nena nunca desistiu de sonhar com possibilidades. Ela trabalhou como empregada doméstica dos 18 aos 23 anos, em Belo Horizonte, e a noite estudava. Ela conta que, “entrei no ramo de empregada doméstica para poder ter uma liberdade para estudar e obter tempo. E foi exatamente como empregada doméstica que eu conheci a Juventude Operária Católica (JOC) e a partir daí que o meu horizonte se expandiu e fui trabalhar com o questionamento da sociedade, em uma religião católica e em um grupo de jovens“.

Foi essa experiência que ela identifica como a maior conquista na sua vida. “Fui morar em outros países e trabalhei com a organização de jovens trabalhadores. Morei quatro anos no Equador, viajei para outros países como Honduras e Costa Rica, que eram os pontos de referência no trabalho com a juventude”.

Ela entende a educação como forma de lutar contra as injustiças da sociedade. “Atualmente vivemos em uma sociedade absurdamente desigual, tanto no aspecto social, econômico ou político. Passamos por humilhações profundas continuamente, seja ela (a mulher) negra ou pobre. Meu trabalho, meus estudos, são (ferramentas) exatamente para lutar por uma sociedade extinta disso. Porque viver em uma sociedade capitalista, principalmente em São Paulo, é muito duro. Todos os dias enfrentamos crueldades.”

Para Nena, as crueldades da vida foram mais relacionadas às questões de raça e classe, e menos as questões de gênero. Ela cita um exemplo da infância que permanece com ela — fisicamente e na memória. “Em minha escola havia uma garota branca, e eu como sempre gostei de estudar, sempre consegui tirar notas excelentes. Ela, como branca, nunca aceitou as minhas notas serem iguais ou maiores que as dela. Um dia fui agredida pela mesma (por tirar uma nota melhor) e tenho essa cicatriz até hoje. A escola nunca recorreu desse fato”.

O Brasil é um país com uma herança profunda de racismo e classismo, onde um deputado branco, que há poucos anos lutou para um ajuste de 60% nos salários dos deputados[4], disse em 2016 que só quem pode pagar deve estudar. Felizmente, muitos, como Nena, não aceitaram esse tipo de atitude e seguiram para frente, apesar das barreiras.

Nena pretende usar seu conhecimento acadêmico e de vida para contribuir com uma sociedade melhor para todos. “Quero concluir minha faculdade de direito e usufruir desses conhecimentos em todas estas causas, buscando sempre melhorias. Quero disponibilizar na praça e nas ruas esses conhecimentos que eu já pratico de certa forma, porém, de uma forma mais estruturada“.

[1] http://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2016/10/quem-nao-tem-dinheiro-nao-tem-que-fazer-universidade-diz-deputado-marquezelli-8139.html

[2] https://nacoesunidas.org/ensino-superior-e-garantia-para-jovens-conseguirem-emprego-formal-nos-paises-em-desenvolvimento-diz-oit/

[3] http://www2.camara.leg.br/comunicacao/assessoria-de-imprensa/salario-de-deputados

[4] http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/questao-de-foco/marquezelli-agora-deputado-nao-precisa-ter-bico/