Carla: “(Quero) me sentir bela de dentro para fora”

Afirmar que você é uma mulher que gosta de morar sozinha, nunca quis ter e nem tem filhos, e que há entusiasmo por sexo quase aos 60 anos, são declarações que ainda assustam a sociedade, mas refletem opções cada vez mais comuns para a população brasileira.

“Em 2014, 70 milhões de brasileiros moravam sozinhos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dez anos, houve acréscimo de 13,8 milhões de pessoas nesse grupo.”[1]

“Entre as mulheres (brancas) de 15 a 49 anos de idade com mais de oito anos de estudo, 44,2% não tiveram filhos em 2013.”[2]

“Dos 51 aos 60, 76,6% das mulheres dizem ser ativas sexualmente.”[3]

Para Carla, paulistana, psicóloga, 59 anos e dupla nacionalidade, sua identidade foi formada muito antes das tendências atuais que eram socialmente inaceitáveis na época. “Minhas avós (uma era brasileira e a outra francesa) me introduziram aos livros, pois em suas casas tinham bibliotecas, e eu, nova, já tinha acesso a tudo. Foi ali que conheci os gregos, Shakespeare e outros, e logo com todas essas informações foi se construindo uma garota de um pé francês e outro brasileiro. Que não sabia quem ela era, mas que não queria que ninguém a controlasse. Minha avó brasileira foi casada e ficou viúva, mas logo se casou com um belga. Quando eu tinha quatorze para quinze anos fomos para a Bélgica, e nessa viagem conheci duas garotas e logo começamos a conversar sobre os garotos, sobre o desejo de não ter filhos, a situação do mundo atual estar tão caótica. E desde então decidi não ter filhos, pelo medo de se introduzirem nessa situação degradante que presenciamos hoje.”

Mesmo não querendo filhos, ela entendeu o sexo como uma fonte de prazer, sem culpa ou obrigações. “Desde sempre fui uma menina muito intensa. Desde sempre fui uma garota crítica e decidida. Sempre procurei saber o porquê de tais regras ou leis impostas pelas religiões. Minha sexualidade aflorou muito cedo, tive relação sexual bem nova. Tive algumas amigas que casaram virgens e outras não. Mas ainda existia a hipocrisia de casar de branco, inclusive eu casei a primeira vez com um vestido de cor champanhe e um sapato de cor bege. Eu não poderia dizer em alto e bom som que eu não era mais virgem, mas procurei mostrar isso fortemente de outra forma.”

Depois de uma vida com diversas experiências, ela define que sexo saudável é “quando trazemos vida para o nosso corpo. O sexo é algo prazeroso em nossas vidas, igual a andar de bicicleta, dançar, rir com as amigas.

O sexo saudável é aquele que te traz prazer e que você se entrega de corpo e alma. Que te deixa com o rosto iluminado e brilhoso no outro dia.”

Sua determinação de viver livre, de acordo com seus princípios, foi uma das razões para o segundo casamento terminar em divórcio. “Minha vontade nunca foi casar no papel, por mim, morar junto era o suficiente. Não era necessário casar legalmente, no cartório (mas acabou se casando no civil devido ao desejo do seu namorado). Nessa época (do casamento), eu trabalhava em um banco que era parceiro de uma agência de turismo e eu recepcionava grupos franceses e italianos no Brasil. Mas depois de três meses de casada, ele pediu para eu parar de trabalhar. Eu não entendi e disse, ‘como parar de trabalhar? Você gostou de mim porque eu era independente, dona do meu nariz.’ Nisso, começamos a brigar e logo nos separamos.”

Atualmente ela mora sozinha e não sente a necessidade de se casar, mas sim, continua acreditando em amor e futuras possibilidades. Seu otimismo é um dos seus maiores sucessos na vida, “Já sofri muito por amor. Me considero uma mulher feliz. Sei que estou envelhecendo, meu corpo, principalmente, está envelhecendo. Mas mesmo assim acredito que estou bem, que estou pra cima. O que eu prezo é a saúde do corpo e da alma, se sentir bem com o corpo que temos e usá-lo em nosso benefício. (Quero) me sentir bela de dentro para fora. Me relacionei muito em toda a minha vida. Tenho amigas que acreditam em mim e que me encontram e dizem, ‘nossa, você é importante para mim, gosto muito de você.’”

[1] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-12/brasil-tem-70-milhoes-de-pessoas-que-moram-sozinhas

[2] http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2014/12/17/cai-o-numero-de-filhos-por-mulher-e-sobe-o-de-casais-sem-filhos-no-brasil.htm

[3] http://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2013/05/03/vida-sexual-nao-para-na-velhice-mas-e-preciso-superar-obstaculos.htm