Tamires: “Eu sou melhor quando eu me amo mais”

O Feminismo — tanto como movimento, quanto como identidade — está vivendo um ressurgimento no Brasil.

“De janeiro de 2014 a outubro de 2015, o número de buscas pelo termo “feminismo” no Google, aumentou 86,7% no Brasil – passando de 8.100 para 90.500 buscas.”[1] Porém, a simples busca pelo termo não captura a força do pensamento, nem a polêmica que isso vem criando.

Há mulheres que falam que feminismo é um esquema partidário (socialista/comunista) que funciona como doutrina religiosa[2] e/ou é um movimento intolerante que promove o aborto e a poligamia[3]. Para Tamires, paulistana de 22 anos, seu feminismo vem desde o nascimento e é intimo, sem necessidade de se impor aos outros. Feminismo foi a maneira que ela se preservou num mundo, que explicitamente disse para ela, que ela não era igual ao homem, profissionalmente e pessoalmente.

“Eu decidi que eu queria fazer engenharia muito cedo, tipo, eu tinha 10 anos. Eu queria fazer, não fazia ideia (do que era), mas eu queria fazer. Talvez por que meu pai sempre dizia para mim que esse curso não era curso de mulher. Ele nunca disse que eu conseguiria fazer esse curso, por várias questões machistas.” Um dos argumentos dele era o fato que ela não tinha nenhuma prática com o mundo da engenharia. “É verdade mesmo, meus primos tinham muito mais experiência, eles jogavam coisas que mexiam mais com a lógica, eles ajudavam meus tios em coisas de casa.”

Mesmo não tendo acesso às atividades e preparação que os meninos tinham, ela não desistiu do sonho. Seu pai imaginava que ele estava preparando Tamires para uma realidade dura, mas para ela era um afronto. Ela insistiu que seria engenheira. A postura do pai foi um desafio pessoal. Quando ela passou no vestibular (depois de muito estudo), e foi a segunda pessoa da família a entrar em uma universidade pública (UFABC), ele respondeu que entrar era fácil e se formar era outra coisa.

Enquanto ela resistia ao machismo do pai, ela lutava contra um discurso semelhante na igreja.

“Eu nunca fui da igreja, de repente, quando era adolescente, na época que meus pais se separaram, eu frequentei a igreja durante cinco anos. Eu gostava de estar lá, por que eu tinha amigos, um grupo de jovens, uma estrutura, mas nada daquilo fazia sentido para mim. Tinha um regimento de roupas: (mulher) só podia usar saia, tinha que ter cabelão, não podia pintar o cabelo, não devia usar muita maquiagem, nem devia mostrar o corpo para (não) provocar os caras. Tinha uma lógica de que a gente (mulheres) não podia namorar muito, mas os garotos namoravam muito — com todas as garotas de todas as igrejas. Eles ficaram com todas as garotas por que eles eram adolescentes, e adolescentes queriam beijar varias garotas. Só que os adolescentes da igreja não deveriam beijar várias garotas, mas essa regra só funcionava para as meninas.

Por quê? Por que encheu a nossa cabeça que nos éramos mulheres desfrutáveis e que nenhum garoto sério queria namorar você se você namorasse todos os garotos da igreja. Era extremamente machista no jeito mais clichê do machismo. A mulher não pode namorar com muitos caras por que ela vai ficar falada e depois ninguém vai querer ficar com ela, enquanto eles poderiam namorar todas as meninas de todas as igrejas e isso era normal. Eu teria que…sei lá…viver na sombra do marido. As coisas que eu pudesse fazer com minha vida eram limitadas por que eu era mulher, e por que o homem é o chefe da família, ele faz tudo e você (mulher) dá suporte, seu papel é apoiar, amar acima de qualquer coisa, incondicionalmente. Isso é muito assustador na igreja, porque eu estava lá, mas em todas as discussões eu era feminista e eu não podia ser feminista na igreja. Isso não combinava com aquela estrutura. Era contraditória demais.”

Ela conseguiu confrontar o pai e a igreja, porque mesmo sem nunca ouvir a palavra feminismo na adolescência, hoje ela entende que ela era feminista desde cedo.

“Eu me lembro de ter sempre essa certeza, de que eu poderia fazer qualquer coisa, independente de ser mulher. Era óbvio que os meninos, mesmo sem saber ou aceitar isso, eram privilegiados. A gente não falava essas palavras, a gente não tinha essa noção, mas a gente tinha a sensação que eles eram privilegiados em relação a nós. Eu sempre fui muita decidida e queria ser melhor do que os garotos (tirar notas melhores). Tenho essa sensação de competição com os garotos desde muito cedo, querendo ou não. Acho que é por que eu não tinha noção que talvez eu quisesse espaço.”

Ela se identifica com a busca para espaços onde ela pode ser realmente quem ela é, como seu maior sucesso.

“Eu sou hoje a minha melhor forma. Eu sou melhor quando eu me amo mais, quando eu amo meu próximo e quando eu faço coisas com amor, que eu acredito. A Tamires que eu sou hoje é a Tamires mais próxima da Tamires que eu quero ser, e da Tamires que eu sempre fui, mas antes era a Tamires abafada pelas circunstâncias (dificuldades na família, a igreja).

[1] http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-03/com-internet-feminismo-esta-em-alta-entre-jovens-diz-especialista

[2] https://www.youtube.com/watch?v=J8gXgg7uLLo

[3] http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2016/03/movimento-mais-intolerante-que-ja-conheci-diz-ex-feminista-sara-winter.html