Setembro Amarelo: O Que Eu Sei Sobre Suicídio

Eu entendi o que era suicídio bem antes de falar a palavra em voz alta.

Na adolescência, a mãe da minha melhor amiga era verbalmente abusiva, e a vivência em casa a deixava com sequelas profundas na alma. Além disso, ela tinha se mudado de uma cidade grande para uma cidade pequena (onde eu a encontrei). Inicialmente, ela era considerada interessante e aceita com os alunos mais populares. Depois de alguns meses, as meninas começaram a vê-la como em uma competição e excluíram ela. A acumulação de sofrimento levou-a a pensar em se matar.

Ela nunca falou a palavra “suicídio”, simplesmente falou que não queria viver mais. Passamos muitas horas conversando sobre as dores cotidianas, associadas com o fato de ter uma mãe abusiva e sofrer bullying, sem usar a palavra morte. Minhas conversas com ela foram meu primeiro contato com a realidade velada do suicídio, mas não foi o último.

Depois de me formar, eu trabalhei os oito anos seguintes com adolescentes como professora no ensino médio, e como educadora numa ONG com alunos de baixa renda. Esse período afirmou minha noção de que o suicídio era um risco maior na adolescência. Alguns alunos estavam enfrentando desafios pessoais tão graves que o suicídio surgia como uma resposta. Nesses momentos, aprendi a importância de perguntar, com palavras concretas (você está pensando em se matar? Você tem um plano?), quando a pessoa falava com eufemismos (não quero acordar, não vale a pena continuar, o mundo seria melhor sem mim, etc).

Parece chocante e inadequado fazer esses tipos de perguntas, mas a OMS (Organização Mundial da Saúde) destaca como mito que falar em suicídio pode encorajar o ato — ao contrário.[1] Perguntar abertamente sobre as intenções e emoções de alguém, dar liberdade para ela se expressar e (possivelmente) diminuir a sua ansiedade. Uma conversa franca, com escuta ativa e sem julgamento, pode criar novas possibilidades em lidar com a vida. Para muitos, suicídio “não é o desejo em morrer, mas é não saber como viver e encontrar na morte a solução.”[2]

Há várias outras crenças comuns sobre suicídio que não são reais, tal como que nas capitais escandinavas há índices mais altos de suicídio e/ou os dentistas são mais sujeitos a morrer de suicídio, por exemplo. Na verdade, no relatório da OMS em 2012, a Guiana é o país em termos proporcionais com os índices mais altos de suicídio (O Brasil é o 8º país com mais suicídios em números absolutos[3], em termos proporcionais é 112º) e a análise de acordo com a profissão é quase impossível, mas uma pesquisa nos EUA constatou pequenos agricultores como a profissão com mais risco[4].

Inclusive minha convicção de que o suicídio é mais comum entre adolescentes não é totalmente correta. Estatísticas sobre o suicídio variam muito de país para país, e o risco para o suicídio depende muito de vários fatores demográficos (raça, gênero, classe, orientação sexual, idade, saúde mental, etc).

No Brasil, “Segundo os dados do relatório (da OMS), o suicídio é a segunda maior causa de mortes entre pessoas de 15 a 29 anos. No entanto, o documento mostra que as taxas de suicídio são maiores entre os que tem mais de 70 anos.[5]

Também, nos EUA, a taxa de suicídio é mais alta para homens brancos entre 45 a 64 anos[6] [7].

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O que é indiscutível é que pelo menos 800 mil pessoas morrem de suicídio a cada ano[8]. Para cada pessoa que morre seus parentes carregam a culpa, tristeza e perda para o resto da vida. Eu sei bem isso por que meu pai, com quase 60 anos, se suicidou no Morumbi em São Paulo, em março de 2011.

Meu pai biológico era um homem muito complicado. Ele foi alcoólatra a vida inteira, mas nunca fez tratamento para a doença. Acredito eu, que ele sofria com transtorno bipolar que nunca foi diagnosticado. O alcoolismo era a forma que ele se medicava. A maioria das minhas memórias com ele são de mentiras, manipulações e desprezo. No momento de morte ele estava desempregado, com uma dívida enorme, se divorciando da terceira esposa (20 anos mais nova) e repudiado por 5 dos seus 7 filhos.

Eu sou a filha mais velha, e a única de maior idade que morava em São Paulo na época. Meu ultimo contato com ele foi via email em dezembro de 2010, quando eu me mudei para São Paulo (nasci em São Paulo, mas morei minha vida inteira nos EUA). Sua ex-mulher entrou em contato comigo em janeiro, e de novo em fevereiro, para me avisar que ele estava muito mal. Fiquei receosa de visitar ele sozinha. O que significava “muito mal?” Imaginei meu pai delirando ou totalmente alcoolizado. Além disso, meus sentimentos sobre meu pai eram, no mínimo, ambivalentes. Apesar de toda minha experiência com suicídio, nunca imaginei que meu pai corria risco. Eu evitava o inevitável. Minha mãe veio para São Paulo em março e eu pedi para ela me acompanhar. Ela concordou e marcamos uma visita (sem avisar ele) para segunda-feira, 21 de março.

Domingo, dia 20 de marco, recebi a ligação que ele morreu de suicídio.

Saber que ele morreu sozinho, se sentindo abandando e sem esperança, causou uma dor em mim que não há palavras para descrever. No velório eu chorei o choro de desespero, sem fundo; as lágrimas me sufocavam, minha respiração saia com o som de papel rasgando, de repente eu levantava só para cair de volta em meu assento. Perdi não só meu pai, mas minha noção de quem eu era. Alguém precisava de mim e eu não o ajudei. Que tipo de pessoa faz isso?

Nos anos seguintes, quando eu expressava minha decepção comigo mesma, inúmeras pessoas falaram para mim que não era para eu me sentir culpada, que mesmo que eu estivesse ido lá eu não teria salvo ele. Eu não poderia ter feito nada, elas falaram para mim. Essas falas não me ajudaram, na verdade me deixaram cansada de defender meus sentimentos.

Sem dúvida, todo mundo teve intenções muitas boas, mas o que minha experiência me ensinou, é que um dos grandes problemas da sociedade atualmente é a incapacidade de acolher a dor do outro. Eu não queria presenciar a dor do meu pai e minha família e meus amigos não queriam presenciar minha dor. Mas essa dor faz parte de quem eu sou hoje. Aprendi que alegria verdadeira não é a ausência de dor, mas o sincero abraço de todos os nossos sucessos e fracassos, conquistas e derrotas, sorrisos e lágrimas.

Meu pai se matou por que ele era doente e passou a vida inteira sem se submeter ao tratamento necessário para curar seu espirito, corpo e mente. Infelizmente, não só ele sofreu as consequências do estigma das crises de saúde mental e de um sistema despreparado para atender as necessidades das pessoas. Em 2014, minha melhor amiga, aquela da adolescência, tentou se matar. Com quase sete meses de gravidez, eu comprei a passagem e fui vê-la (nos EUA). Mais dolorido do que saber que ela quase morreu, foi a ausência completa de uma rede de apoio. Para pessoas sem recursos financeiros e problemas de saúde mental, o sistema de saúde tanto no Brasil quanto nos EUA não oferece respostas. A maioria das pessoas não morre de suicídio por que a vida não vale a pena viver, mas por que sozinha e sem tratamento de qualidade não há esperança.

 

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Não podemos salvar ninguém, mas sim podemos estar perto nos momentos mais dolorosos. Sim, podemos acolher as dores dos outros sem clichês e negação. Sim, podemos conversar francamente sobre nossas experiências sem julgamento. Sim, podemos lutar para que os melhores medicamentos e as mais qualificadas terapeutas sejam accessíveis (sem espera) para todos, independentemente de dinheiro. A vida de cada pessoa é inestimável.

Para quem pensa em se matar, fale com alguém. Seu pior dia, pior ato, pior pensamento, não precisam resumir sua vida inteira. Com certeza meu pai achava que ele estava no fundo do poço, totalmente abandonado. Não era a verdade. Prometo, se ele — um alcoólatra que maltratou vários filhos, perdeu todo o dinheiro e traiu todas as esposas — era amado, você também é.

Se você não consegue pensar em nenhuma pessoa para compartilhar seus sentimentos, entra em contato com Centro de Valorização da Vida (CVV) e/ou ligue 141.

Para quem perdeu alguém que morreu de suicídio, você não está sozinha. Não posso dizer que tudo vai ficar melhor ou que a dor some — sua experiência é única e seu luto tem um ritmo próprio. Procure pessoas que possam acolher sua dor, na melhor forma para você. Eu recorri à terapia, outras pessoas encontram conforto em igrejas ou grupos de apoio, outras acham a resposta em medicamentos. Não existe a resposta certa, existe seu caminho. Seja gentil consigo mesmo, por que para toda a culpa e ódio de si, que você possivelmente sente, todos nós merecemos mais compaixão e amor.

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[1]http://www.who.int/mental_health/media/counsellors_portuguese.pdf#page=18&zoom=auto,-241,609#18 (mito 7).

[2]http://www.psicologiasdobrasil.com.br/mitos-e-verdades-sobre-o-suicidio/

[3]http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2014/09/04/estudo-inedito-da-oms-indica-que-ha-1-suicidio-no-mundo-a-cada-40-segundos.htm

[4]http://www.cdc.gov/mmwr/volumes/65/wr/mm6525a1.htm

[5]http://www.ebc.com.br/noticias/saude/2015/09/oms-suicidio-causa-uma-morte-cada-40-segundos-no-mundo

[6]https://afsp.org/about-suicide/suicide-statistics/

[7]http://www.prb.org/Publications/Articles/2010/suicides.aspx

[8]http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/