Renata: “A coragem é maior do que o medo”

2016 foi sancionado como “Ano do Empoderamento da Mulher na Política e no Esporte[1]”. Considerando que, “o Brasil está no pior lugar do ranking de mulheres na política, ao lado de Belize e Haiti, com vexatórios 9% de mulheres em cargos legislativos ou executivos”[2] a iniciativa é de grande importância.

 

O que significa uma mulher na política?

Qual tipo de mulher pode se envolver politicamente?

Quais são os desafios em participar num sistema majoritariamente masculino e branco?

 

A trajetória de vida da Renata, paulistana, 33 anos e mãe de três meninos, ensina muito sobre as barreiras que existem e serve para inspiração em como superá-las.

Renata teve uma infância boa e dura. Seu pai abandou a família, e após a separação, a mãe foi trabalhar como empregada doméstica, devido à falta de estudo e acesso aos empregos com registro em carteira. Além das dificuldades financeiras que a família sofria, Renata tinha que lutar contra a pressão de seguir a mãe na profissão.

A patroa incentivava sua mãe a trazer Renata para ajudar na limpeza da casa, sem pagar nenhum valor a mais. “Eu falava para minha mãe, ‘mãe eu respeito seu trabalho, é um trabalho tão digno, tão duro’, mas eu já enxergava a exploração sem ninguém falar (para mim), só no dia a dia eu já enxergava essa exploração.”

Renata já nasceu com a resistência contra as limitações e racismo imposto pelos outros. “Todas as questões de racismo que eu passei na escola, que foram inúmeras, eu batia: me chamava de macaco eu ia lá e batia, me chamava de neguinha ia lá e batia.”

Participação política foi o jeito que ela descobriu para lidar com as injustiças ao seu redor. Na adolescência, um conjunto de eventos levou-a a essa realização. Sem condições de pagar aluguel, sua família, com o aval do subprefeito, ocupou um terreno no quintal onde morava quando ela tinha 15 anos. Nessa época, ela entrou no grupo de jovens da igreja e foi exposta ao movimento de alfabetização, também participou da sua primeira missa afro, e foi quando ela aprendeu sobre Zumbi (dos Palmares), pela primeira vez. Sua experiência durante a gestão da Marta foi tão positiva e empoderadora que ela se afiliou ao PT (Partido dos Trabalhadores).

Depois de 15 anos, ela continua ativa na política, “ela (a militância) não mudou, ela continua a mesma. Eu continuo afiliada, acreditando que há inúmeras possibilidades de transformação social, política, cultural. Eu estou construindo uma família (ela tem um filho de 7 anos e gêmeos de 1 ano e meio), dentro de uma religião (Candomblé), a militância ficou mais forte, mais direcionada.” Ela reconhece que tem vários movimentos e formas de participar politicamente fora de partidos, “mas essa tomada de poder só vai ceder com a participação da mulher, e sendo uma mulher independentemente — não sendo uma mulher submissa ao comando de um homem.”

Apesar da importância, para ela a mulher brasileira na política, “é um caminho super difícil. Ter uma militância de luta de causa é uma experiência, e você disputar espaço de poder dentro de um partido é uma (outra) experiência, mesmo dentro de partidos que se definem como esquerda.” Ela participou numa disputa de poder em 2013, para presidência de uma zonal (Saúde). De quatro candidatos, ela foi a única mulher negra e jovem. Não ganhou, mas para ela “foi uma experiência boa, deu visibilidade na região e eu não abri mão.”

Para mulheres que querem entrar na política ela tem uma palavra: DEIXA!

“Deixa a casa suja, deixa comida para fazer, deixa roupa para secar. Deixa! Os filhos da gente não vão morrer se a gente fica uma hora fora de casa ou se a gente viajar. A proposta de mudança depende dessa minha força. Quero tanto que o mundo mude, e eu não vou mudar ou sair da minha zona de conforto? A gente tem que ter essa coragem de denunciar, de gritar.”

Renata é uma mulher corajosa, mas isso é uma característica mais complexa do que muitos pensam. “Sou uma pessoa muito batalhadora. Tenho uma determinação que eu acho que vem de ancestrais. Meu medo me impulsiona para fazer as coisas, não me deixa trancada. A coragem é maior do que o medo.”

Além do envolvimento na política, ela entende que o maior desafio para a mulher negra é não cair na lógica que “eu não posso, não vai dar certo” e se negar a andar. “Por que oportunidade a gente sabe que não tem. Tem que entrar no ritmo que não tem, mas eu vou criar a minha. Se eu não criar, não vai mudar.” Renata e suas primas acessam espaços e serviços que a geração mais velha ainda fica com receio: entrar no restaurante, andar de avião, andar de carro. “A gente pode sim comer aqui, a gente pode gritar e falar alto. Vai olhar com “a cara”? Vai, só que o racismo dele vai ser privado, publicamente não. Se tiver racismo publicamente ele vai ser denunciado e vai ter que responder isso pela lei. Privadamente ele continua sendo racista e vai morrer racista. E se a gente tem que mexer com ele, vai mexer com o bolso. Mas essa postura nossa, já muda eles um pouquinho.”

[1] http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/04/18/sancionada-a-lei-que-institui-2016-como-o-ano-do-empoderamento-da-mulher-na-politica-e-no-esporte

[2] http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/05/existe-uma-resistencia-presenca-da-mulher-na-politica.html