Vanessa: “Eu correspondo as minhas expectativas do que gostaria de ser”

A maioria das mulheres brasileiras são assalariadas, sendo que “em 2013, aproximadamente 7 em cada 10”¹. Muitos entendem um emprego CLT (carteira assinada) não apenas como um direito, mas também como uma segurança e sinal de respeito. No entanto, cada dia mais mulheres estão sacrificando tal conforto para iniciar o próprio negócio. “Entre 2003 e 2013, a quantidade de donas de negócios subiu 16% no país”². Uma dessas empresárias se chama Vanessa, paulistana de 31 anos. Ela é sócia e a ‘mão invisível’ por trás da empresa pioneira em alimentação natural para cachorros no Brasil—a Cachorro Verde.

Em 2008, Vanessa, com a sócia e veterinária Dra. Sylvia, criaram a Cachorro Verde como um blog, sem nenhuma intenção financeira. A ideia original era simplesmente divulgar informações sobre alimentação natural. Mesmo depois de formalizar como empresa, o motivo continua sendo o mesmo. “A ideia de compartilhar o conhecimento, ou alguma coisa que deu certo conosco para que outras pessoas tenham acesso, ainda é o principal objetivo. Oferecemos consultoria para que as pessoas possam fazer isso também, oferecendo o material necessário para consulta na Internet” (sendo esse material vários livros e cursos online). “(Fazemos) tudo baseado nessa coisa de compartilhar informação, porque a informação que conseguimos veio de outras pessoas que também compartilharam conosco”.

O motivo para compartilhar e o espírito coletivo rendeu mais do que elas imaginavam possível. Cachorro Verde hoje é uma empresa bem sucedida, com um site com cerca de 100 mil visitas e 200 mil pageviews por mês. No Facebook, a empresa tem mais de 120 mil seguidores. Elas realizaram 20 cursos no ano passado, com uma média de 50 pessoas por cada turma. Este ano, elas já disponibilizaram 8 cursos, o que significa que pelo menos 1.400 pessoas participaram de uma oficina fornecida pela Cachorro Verde. Elas recebem mais de 100 e-mails por dia. Vanessa é responsável pelas questões organizacionais e informacionais, então 70% dos e-mails são para ela. Trabalhando por volta de 55 horas semanais, ela diz que “trabalhando de casa não parece tanto, porque eu faço tudo no meu ritmo”.

O papel principal de Vanessa é manter a Cachorro Verde funcionando sem problemas. Os agendamentos, o planejamento de cursos, a organização de material, as atualizações no site, o newsletter—tudo sua responsabilidade. Ela identifica isso como seu talento: transformar informação em algo acessível. Pelo número de pessoas que a empresa atinge, Vanessa é obviamente muito boa no que faz.

Poucas pessoas percebem o quanto Vanessa faz para possibilitar o funcionamento da Cachorro Verde. A Dra. Sylvia é o rosto da empresa, a veterinária que faz os atendimentos e apresenta o conhecimento. Além da formação profissional, ela é dinâmica e charmosa, cumprindo bem esse papel. Vanessa não se importa em não ser reconhecida pelo público por seu trabalho. No entanto, a realidade de um negócio deu um impulso para ela assumir sua importância na empresa. “Eu não gosto muito de aparecer para as pessoas, não é meu perfil. Não gosto de chamar a atenção para mim, então, até pouco tempo nem falávamos muito sobre eu ser sócia da empresa, eu simplesmente atendia as pessoas e tal, sem falar nada. Mas de uns tempos pra cá eu comecei a precisar apresentar mais assim, como sócia, porque percebi que as pessoas não respeitam os funcionários, sabe? Se o cliente acha que você é ‘só’ a recepcionista, ou ‘só’ a secretária, eles nem te dão ouvidos (ou) tratam mal.”

Para outras mulheres pensando em abrir um negócio, seu principal conselho é ter paciência. “Saber que aquilo que você entrega nem sempre vai corresponder com a expectativa das pessoas. Isso é uma coisa que você tem que levar em consideração, saber como você vai responder.” O trabalho de Vanessa é principalmente feito pela Internet. Isso leva outras exigências. “As pessoas na Internet estão prestando muita atenção em como as empresas se posicionam, como o profissional se posiciona. O tempo inteiro você está sendo vigiado—suas atitudes e tudo o que você comenta ou fala—na Internet.”

Quando ela pensa se corresponde as expectativas da sociedade para uma mulher, Vanessa responde: “Eu correspondo as minhas expectativas do que gostaria de ser, mas eu acho que da sociedade, não”. É essa falta de respeito para quem a mulher é, exatamente como ela é, que Vanessa vê como o maior desafio atual para a brasileira. Ela entende o direito da mulher como habilidade de escolher e atuar na forma que quiser. “Se é importante para você ser profissional, seja a profissional naquilo que você quiser, sem nenhum impedimento por machismo ou por uma família que quer te por num papel que você não escolheu. Se você quer ser mãe, seja mãe do seu jeito. Se você quer ser uma esposa, seja do seu jeito sem a expectativa da sociedade. Ter seus direitos respeitados, sejam eles os direitos mais básicos sobre seu corpo, sobre seu intelecto, sobre seu tempo. Ter seus direitos e suas liberdades respeitadas é um desafio bem grande.”