Mari: Ela luta contra qualquer tipo de violência, especialmente no caso das mulheres

O sistema educacional Brasileiro é globalmente reconhecido pela baixa qualidade, na estrutura e nos resultados. Um estudo realizado pela consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU) em 2012 colocou o Brasil no penúltimo lugar entre 40 países, levando em conta nota de testes e qualidade de professores¹. Outra pesquisa mais recente deu ao Brasil o ranking de 58º, entre 64 países². Isso tem um custo econômico e viola uma garantia constitucional. (Artigo 205A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.) A ausência de uma educação que estimule sonhos e desenvolva habilidades deixa milhões de potenciais talentos desconhecidos e cada indivíduo à mercê de uma sociedade desigual. A história de Mari é uma de sucesso, apesar de um sistema tão deficiente, e é a prova de que a educação pode transformar vidas.

Mari, capixaba de 32 anos, quase não escapou do seu ‘destino’. “Da minha família, em relação as mulheres, sou a única mulher de idade que não é casada, que tem curso superior, que tem uma profissão”. Sua mãe sempre trabalhou em casa de família, suas primas também. Por um tempo, ela seguiu o mesmo caminho. Isso não significa que sua família não valorizava a educação: sua mãe, que não completou ensino fundamental, sempre falou para Mari que ela tinha que terminar ensino médio. Porém, mais do que isso—formação superior—não existia como possibilidade para sua mãe. Também, durante o ensino médio, nenhum profissional falou para Mari e seus colegas sobre a possibilidade de faculdade. Mari escolheu algo que ela sabia era possível; ela terminou os estudos e entrou na profissão familiar—trabalhando como empregada doméstica. “Terminei o ensino médio e iniciei meu primeiro trabalho como empregada doméstica. Naquela época, dentro da realidade que eu vivia, eu ganhava bem então para mim estava ok. Não precisava estudar mais. Trabalhava e achava que estava tudo bem, até [o momento de] cansar. Chega uma hora que dá um cansaço físico e emocional. É difícil”.

Um amigo a incentivou para procurar outra profissão, convicto que ela tinha potencial para uma outra vida.  Ela conseguiu emprego num call center. “Comecei a trabalhar num call center. Para mim era positivo, era muito bom. Não era um emprego que me explorava, eu estava sentado e atendia e ponto”. O mesmo amigo continuou incentivando Mari em buscar algo a mais. Pela primeira vez na vida, já com 20 poucos anos, surgiu a ideia de faculdade.

Para Mari, faculdade parecia coisa de outro mundo. “Não sabia a diferença entre vestibular e entre o que era faculdade e universidade, (ou) por que as pessoas faziam cursinho”. Foi um processo de mais de 2 anos para ela entrar numa faculdade. Atualmente, ela trabalha como assistente social.

Concluir faculdade, sem nenhuma ajuda financeira, foi seu maior sucesso e o início da sua real libertação como profissional e mulher. A educação não só ampliou suas possibilidades profissionais, mas também como mulher. Quando jovem , foi ensinado a ela que “as mulheres ficam encaminhadas de fazer os serviços domésticos e o homem trabalha e chega em casa cansado e ele não vai fazer nada por mais que as mulheres estivessem trabalhando”. Ela tentou rejeitar essa cultura já no próprio casamento (que durou 6 anos), mas não foi bem-sucedida. “Foi esse relacionamento que fez que eu ficasse estagnada durante muito tempo, por que eu tinha aquele foco de ser a mulher de chegar em casa, de fazer a comida, de lavar a roupa para o marido. Por mais que eu tentasse dividir isso, nunca era igual.” A desigualdade nas tarefas domésticas era sintoma de algo profundamente nocivo no relacionamento. “Eu me sentia dependente dele no aspecto psicológico, minha auto-estima era baixíssima, ele me traia e eu não tinha forças para romper o relacionamento”. Mais uma vez, Mari enfrenteu uma herança familiar: “Eu e minha mãe fomos vítimas de violência doméstica. Foi um dos momentos difíceis que enfrentamos juntas e isso é um dos motivos que também me fortalece e me impulsiona a lutar contra qualquer tipo de violência, especialmente no caso das mulheres”.

O relacionamento abusivo terminou antes dela ingressar na faculdade e esse fato a deixou livre para refletir na questão de gênero e encontrar amigas verdadeiras. Ela entrou num coletivo de mulheres chamado “Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop”. Nesse grupo, ela se fortaleceu. “Eu reproduzia muito isso de só ter amizade com homem, [de] não gostar de amizade com mulher por que mulher é fofoqueira, fica com intrigas, e eu fui desmistificando isso [no grupo]”. O apoio feminino do grupo empoderou-a para olhar para si e sonhar no futuro.

Todas suas experiências, boas e ruins, fazem parte de quem ela é hoje. “Eu me vejo como uma mulher que passou por várias situações bem difíceis que deixaram algumas marcas e através dessas marcas que eu vejo a minha transformação. A vida me ensinou a me buscar e me amar [e] entender e lidar também com minhas fraquezas. Eu identifico alguns defeitos, tenho algumas coisas para resolver. Mas [o importante] é me amar, me aceitar do jeito que eu sou, assumir meu cabelo, assumir meu corpo, me posicionar.” Sua meta para o futuro é sempre aprender o que a vida tem para ensinar e viver com integridade e dignidade.