Deborah Small: “Não é um genocídio rápido, mas o lento genocídio da pobreza”

Deborah Small, além de ser advogada, pesquisadora, antiproibicionista e ativista negra, é fundadora e diretora executiva da organização Break the Chains (BTC). A missão da ONG “é envolver as comunidades afetadas pelas políticas punitivas sobre drogas para tornar-se protagonistas para o fim da falida guerra às drogas”.

Depois de visitas e debates no Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA), Deborah encerrou sua viagem em São Paulo neste dia 29 de julho. Seu penúltimo evento do dia foi um bate papo no JazzB sobre a política de drogas, raça e gênero. Destacamos algumas das várias falas importantes e esclarecedoras de Deborah:

> MITOS SOBRE DROGA E POBREZA

MITO 1: Só drogas ilícitas são viciantes.

Cafeína, tabaco e açúcar também são exemplos de substâncias viciante. A diferença é a falta de proibição – o que deixa a substância mais barata e acessível, sem estigma para uso, mas não sem impacto negativo na saúde.

MITO 2: Comunidades pobres usam abusivamente substâncias ilícitas em grau maior.

O uso abusivo em comunidades pobres é um mito perpetuado e repetido pela mídia. As consequências do uso abusivo (para as comunidades pobres) são maiores devido ao fato de que elas não podem arcar com o custo do uso sozinhos.

MITO 3: Comunidades e pessoas pobres têm vidas mais caóticas, devido ao uso de drogas.

Há evidência que mostra exatamente o contrário. O Dr. Bruce Alexander conduziu um estudo com ratos (Ratolândia) que indicou que não é a droga que provoca vício, mas sim o ambiente. “A relação das pessoas com as drogas não é apenas determinada pela droga, mas sim pelo contexto em que elas vivem.”

> GUERRA ÀS DROGAS COMO FORMA CONTEMPORÂNEA DE DOMINAÇÃO E SUBJUGAÇÃO RACIAL

Vícios são acompanhados por rituais. Existem maneiras que as pessoas usam coisas que se tornaram um ritual, como quando eu faço café. Eu sou viciada em moendo, com o cheiro dele enquanto esta sendo preparado, assim como beber – tudo isso faz parte do ritual de café para mim. Da mesma forma existem rituais associados com a dominação e subjugação racial. No caso dos nossos dois países (Brasil e Estados Unidos), vou descrever os quais são: os rituais de perseguir e capturar as pessoas, colocar algemas sobre elas, as colocar em prisões, os mantendo isolados e controlando seus movimentos e liberdade. Assim, mesmo após as formas legais de escravidão terem acabado, vivemos em países que ainda são viciados em rituais que acompanham a escravização, dominação e subjugação das pessoas. A sociedade continua descobrindo formas de replicar esses rituais, recriar essas oportunidades, e agora, neste período de tempo, é a guerra às drogas que é o combustível que permite a continuação desses rituais raciais de dominação. É por isso que, apesar de existir o uso de drogas em todos os segmentos da sociedade, o único lugar onde há o foco de policiamento e aplicação da lei é contra negros pobres, porque o propósito real não é se livrar das drogas – e sim manter o controle social e político sobre as pessoas que o governo deseja.

> Racismo e Genocídio

“Reconhecendo ou não, a existência da presença negra no seu país (Brasil) e no meu (Estados Unidos) tem sido sempre alvo de um genocídio. Não é um genocídio rápido, de balas e gás, mas o lento genocídio da pobreza: da má saúde, de trabalhar até a morte, de sentir que você é inútil e indesejado, além de desnecessário. Uma das definições do racismo é um conjunto de políticas e práticas que são adotadas por um grupo de pessoas a serem impostas a outro grupo de pessoas, em que o resultado dessas políticas ou práticas é a morte prematura. Tudo sobre as políticas e práticas aplicadas contra pessoas negras nos EUA e no Brasil resultam em morte prematura.”

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Para obter mais informações:

Bate Papo das Mídias Negras (a partir de 39:14)

Entrevistas com Deborah Small

O livro (em inglês) indicado pela Deborah

O vídeo (em inglês) sobre a causa de dependência de droga que cita o estudo Ratolândia