Beatriz: “Sou fruto de tudo aquilo lá que passei”

O Brasil passou por mudanças radicais ao longo dos últimos cinquenta anos, assim como a geração que testemunhou tal processo. Quando Beatriz nasceu no município de Serrinha (BA) em 1962, João Goulart era o presidente do país. No decorrer da sua vida, ela e o Brasil passaram por experiências que ninguém imaginava possível: a ditadura, a democracia, a urbanização, além de incríveis avanços na tecnologia. A história de Beatriz é paralela à transformação do Brasil.

Em 1960, a maior parte do país era composta por áreas rurais¹, principalmente no nordeste—exatamente onde Beatriz nasceu. Sua criação foi particularmente tradicional: “Eu nasci na roça, na roça, da roça, da roça. Não era que eu morava no sítio perto da cidade, era na roça”. Sua rotina de vida na roça era de trabalho pesado; Beatriz era uma em treze irmãos (8 mulheres e 5 homens), e apesar de nunca terem passado fome, todos tinham que trabalhar para garantir o sustento da família. Nas sextas-feiras as mulheres trabalhavam a mais—além do serviço na roça, elas arrumavam a casa e colocavam reserva de água e lenha—para conseguir descansar no sábado e ir na missa aos domingos.

Na sua família, as mulheres participavam de todas as atividades na roça e eram responsáveis pelas tarefas domésticas. Os homens não tinham obrigação de participar das funções relacionadas à casa. Beatriz percebeu essa diferença, principalmente nos dias de descanso. “Tinha um campo de futebol (perto de casa) e um monte de homem. Não tinha uma mulher (que jogava) e a gente tinha vontade de ir naquele campo por que ficava próximo de casa. Meu pai não deixava.” Ele falava que aquele “não era lugar de mulher,” pedindo para Beatriz ajudar sua mãe.

A opressão relacionada a ser uma mulher foi, em parte, o que a fez deixar sua família e casa. Seu pai a proibiu de namorar. Para subverter essa regra, ela namorou com seu futuro marido (que morava em São Paulo) através de cartas escritas à mão, por dois anos e meio. “Carta vem, carta vai,” ela explica com um sorriso. Na época antes das redes sociais, essa foi a maneira em que ela se apaixonou e ficou noiva. Seu pai se recusou a dar permissão para ela se casar, e pediu para ela encontrar um marido na Bahia, prometendo que não impediria mais o namoro. Mas Beatriz tinha feito sua escolha, e se recusou a permitir que sua vida continuasse a ser controlada pelo pai. Ela deixou tudo e todos que ela conhecia, e veio para São Paulo. Dias depois de chegar na cidade, com vinte anos de idade, casou-se. Ela só tinha visto o marido três vezes durante o seu namoro.

Na realidade atual, é quase impossível imaginar essa trajetória de vida. A criação na roça, com o pai religioso e severo, não era fácil. No entanto, Beatriz tem muitas boas recordações: de brincar em baixo da luz da lua, de estar com a família, e do amor dos pais. Sua vida, os eventos e as condições, refletem a complexidade que muitos brasileiros da mesma geração compartilham. Enquanto ela trabalhava muito e tinha pouca liberdade, ela não sofria agressão verbal, desrespeito, ou as consequências negativas do individualismo. Beatriz consegue valorizar as partes negativas e positivas da sua vida: “Sou fruto de tudo aquilo lá que passei. Pai batia na gente por que não tinha conhecimento. Sou hoje o resultado daquelas coisas pequenas de antigamente, que me transformaram. Sou uma pessoa muito humilde, quando eu falo que vou fazer alguma coisa, (pode ter) certeza que eu estou fazendo de verdade.”

Desde jovem, uma de suas principais batalhas era sua educação. Na roça tinham uma educadora e uma escola para as crianças que trabalhavam no campo, mas ela era apenas alfabetizada, e não tinha conhecimento profissional para ensinar os alunos. Beatriz terminou o ensino médio em São Paulo, quando ela já estava casada e com duas filhas. Quando seu casamento acabou, ela trabalhou durante o dia como empregada doméstica e bordava à noite. Desde 2002 ela tem trabalhado como orientadora socioeducativa para uma ONG. Apesar de todas as barreiras—sua idade, a baixa qualidade de sua educação primária, a necessidade de trabalhar para se sustentar—ela nunca deixou de sonhar em ir para a faculdade: “Eu sempre quis estudar. É bom saber as coisas.” Com mais de 50 anos ela se matriculou na faculdade.

Agora, seu maior desafio é terminar o curso (serviço social). Falta um ano e meio para ela se formar. Depois de uma das primeiras provas, a professora chamou Beatriz para conversar. Ela apontou seus erros de português. A resposta da Beatriz foi, “esses erros de português eu vou corrigir, mas isso é uma coisa que vem da raiz.” Ela trabalha o dobro para superar as limitações. “Eu escrevo muito em casa, tenho (um metro de altura) de folha de caderno escrito, porque eu leio escrevendo, para melhorar minha escrita.” As professoras reconhecem seu esforço.

Beatriz deixou tudo o que ela conhecia na Bahia em busca de amor e liberdade. Desde então, ela participou por mais de 20 anos em um movimento de moradia e foi capaz de comprar um bom espaço no centro da cidade, onde ela criou duas filhas honestas e felizes, superando as limitações de uma educação precarizada para realizar o sonho de se formar na faculdade. Ela sabe que é uma “mulher trabalhadora, batalhadora, insistente.” Mas, acima de tudo, “uma mulher que acredita que muita coisa é possível.”