Renata: “Você pode ser uma potência maior”

Um dos maiores desafios na vida é identificar seus limites e se questionar se eles são impostos externamente ou se manifestam do fundo da sua alma. É difícil achar o equilíbrio nesse exercício de auto avaliação. Em resposta à complexidade que isso apresenta, alguns negam seus defeitos e/ou culpam os outros pela suas falhas. No outro extremo, uma possível resposta é assumir em excesso o que identificam como erros e se culpar com os fracassos. Renata, paulistana de trinta e quatro anos, advogada e amante de filosofia, sabe bem a dificuldade de se questionar e tentar se definir. Ela faz isso a vida inteira, desde o nascimento.

Renata passou o primeiro ano de vida internada no hospital, que significou que ela não se desenvolveu adequadamente nessa frase crítica. Ela sofreu problemas com motricidade e, até hoje, tem uma malformação muscular. A internação teve impacto não só no seu desenvolvimento motor, mas também nas perspectivas de vida. O médico falou para sua família que, “ela seria muito inteligente ou retardada”—naquelas palavras. Desde então, ela se sentiu mais testada do que o normal, mais observada. Ela sempre sentiu que tinha mais limitações. Ela disse que: “nunca soube se essas limitações eram reais ou se eram coisas em que eu entrei num clima que eu acabei me tornando mais limitada. Sempre ficou muito claro para mim que não importavam minhas limitações, eu teria de superá-las de alguma forma. Não desisto.”

Essa persistência foi fundamental quando ela começou a trabalhar no direito de família, no âmbito homo afetivo. No início da sua atuação na área, casais homo afetivos tinham que registrar seus filhos biológicos no cartório como pré-adoção e não como filhos naturais. Ela lutou contra isso, para que o registro do próprio filho fosse duplo registro*. Todos os envolvidos nessa área de direito falavam que não era possível. Ela insistiu, ajudando a fazer pelo menos 20 registros de afiliação e participando da criação de uma tese para levar ao judiciário, com o intuito de gerar repercussão nacional. Seu esforço era para que as pessoas não precisassem dela, e é isso o que ela conseguiu fazer. “Acabou chegando no Conselho Nacional de Justiça e hoje tem uma solução no sentido que pleiteávamos no judiciário. ” A persistência dela possibilitou uma mudança sistêmica, e ela considera isso um dos sucessos mais tangíveis na sua vida. Por trabalhar nessa área, pessoas a rotulam como mulher lésbica, o que sempre a deixou perplexa. Ela entrou no direito para lutar contra a injustiça, não pelos interesses pessoais.

Essa não foi a primeira vez que ela foi julgada devido aos estereótipos e preconceitos. Aconteceu também quando ela foi procurar emprego, com 20 anos. Ela ficou na última fase da seleção, e um homem foi escolhido. A pessoa responsável pela seleção declarou o motivo: “Estou selecionado o rapaz porque você é mulher, e a probabilidade de você engravidar é muito grande. ” Ela ficou chocada. Foi a primeira vez que ela compreendeu que ela era mulher, e que isso significava que tinha limites impostos pela sociedade.

Atualmente, ela se identifica como esposa, advogada, irmã e tia. São papeis muito importantes para ela, mas que se tornam máscaras demais em alguns momentos. Ela é muito tímida, então, para ter a coragem necessária de enfrentar a autoridade e lidar com a pressão, ela usa a máscara da identidade profissional. É com o marido, em casa, que ela mais se sente a Renata, sem máscara. “Consigo expressar exatamente o que eu estou sentindo, ainda que seja alguma coisa feia que eu nunca consegui expressar antes. Eu consigo mostrar minhas sombras de alguma forma para ele. Isso é o momento que eu estou mais Renata.”

Um relacionamento que te libera para ser mais você é seu desejo para todas mulheres brasileiras. Ela percebe que algumas são “muito preocupadas com a própria aparência, mas não se sentem dignas delas. Elas estão dispostas a sofrer com relacionamentos avassaladores para estar com alguém. Isso é uma coisa comum, não importa sua classe social. Elas estão dispostas a trabalhar menos para cuidar dos filhos. Talvez falte dignidade mesmo para se reconhecer no mundo e falar que você pode ser uma potência maior. ”

Por incrível que pareça, ela sente que fracassou muito na vida. Ela não fala isso como uma reclamação—é seu grande aprendizado. “Ela (a vida) me ensinou a fracassar. Quando eu comecei a vida, fracassar era feio, ruim e ia me levar para a derrota—generalizando. Hoje percebo que fracassar é um processo, com outro qualquer.”

*Para mais informação sobre duplo registro