Relato de Parto: 2014

Não pensei muito no meu parto quando eu engravidei. Quando eu falei para minha mãe que eu estava grávida, a primeira coisa que ela disse foi “não faça uma cesariana. ” No início, eu não levei a sério, simplesmente pensei: “eu vou fazer o que for necessário”.

Eu fiz a maior parte do meu pré-natal com uma médica do meu convênio. Na primeira consulta, eu fiquei esperando uma hora para ser atendida e todas as consultas em diante foram a mesma coisa. O atraso era devido ao fato de que ela marcava e atendia muitas mulheres. Esse foi meu primeiro aprendizado: os médicos que aceitam planos de saúde são mal renumerados e sacrificam a qualidade do atendimento para atender em quantidade.

Apesar da minha preocupação com a mentalidade de atender em massa, eu continuei o pré-natal com ela. Tive experiências no Brasil com médicas críticas e arrogantes, então eu valorizava seu comportamento carinhoso. Ela também oferecia um ultrassom no consultório. Achei muito conveniente.

O que me deixou mais preocupada foram as respostas para minhas perguntas em ocasiões diferentes:

Quando eu perguntei para ela como eu ia saber que o parto começou, ela respondeu “você vai saber”. Quando eu disse que eu preferiria parto normal, se era possível, ela me avisou que doía muito e muitas mulheres não toleravam a dor.

Quando eu perguntei para ela como seria o atendimento no parto, ela respondeu com uma pergunta: “você vai fazer cesariana?” Fiquei chocada. Entendi cesariana como uma cirurgia de emergência, não como escolha antecipada.

Quando eu liguei para o consultório para perguntar sobre um mal-estar, a recepcionista perguntou se meu plano de saúde era para quarto individual ou coletivo. Eu fiquei irritada e perguntei porque ela queria saber. Ela me disse que a médica só dava seu número para pacientes com plano de saúde com quarto individual.

No quinto mês de gravidez, eu visitei uma amiga do meu marido em Ribeirão Preto. Ela contou para mim várias estatísticas sobre parto no Brasil e relatou como o desejo dela para um parto normal não foi respeitado, em grande parte por causa do fato de que o médico estava tão desacostumado em acompanhar o parto normal. Eu fiquei horrorizada.

Logo depois de meu retorno para São Paulo, eu passei mal e eu fui ao hospital do meu convênio médico. A sala de espera estava cheia de mulheres grávidas ou com crianças recém-nascidas, reclamando sobre a falta de atenção da equipe médica do hospital. Na próxima consulta com minha médica, ela me avisou que aquele hospital realmente era ruim e que ela atendia no Samaritano por um preço bom.

A acumulação dessas experiências—uma médica com interesse financeiro/o relato da minha amiga/o hospital desumano—me assustou tal forma que eu entrei em pânico. Eu estava disposta a fazer um cesariana, em caso de emergência, não para a conveniência do médico ou por causa de medo. Com quase seis meses de gravidez, eu comecei a busca por uma alternativa.

 

O Que É Parto Humanizado?

Na minha busca, eu descobri um vocabulário totalmente novo:

Parto Normal

Parto Natural

Parto Humanizado

Enfermeira Obstétrica

Obstetras

Parteira

Doula

De todos esses termos, o mais importante, para mim, foi parto humanizado.

Parto humanizado é confiar no poder do corpo, da mente e da alma. O corpo da mulher evoluiu para parir. As mulheres que têm o desejo e condições (físicas, intelectuais, emocionais) para ter filho têm o direito e o dever de tratar a própria saúde numa maneira que respeite sua capacidade e valorize seu autoconhecimento. Têm o direito de seguir o ritmo de suas filhas/os e do corpo das mães no momento de parto. Se esse processo exigir uma intervenção médica ou cirúrgica, tudo bem. A preocupação maior é fazer o máximo possível para empoderar a mulher para tomar uma decisão e respeitar a sabedoria e a dignidade do corpo da mulher. Todos têm esses direito e dever, o direito de ser informado e respeitado e o dever de garantir que cada criança nasça com dignidade e honra.

Parto humanizado exige que a mulher busque informação e se eduque sobre as possibilidades, riscos e fatos de parto. A partir desse processo, com acompanhamento de profissionais que atuam como colaboradores (não ditadores), o parto humanizado empodera a mulher para parir numa forma que reflete as melhores práticas mundiais de medicina, mas nunca, em nenhum instante, vira uma imposição sobre a mulher.

Eu percebi que eu queria um parto humanizado e eu fui atrás. Nunca imaginei que seria tão difícil de conseguir.

belly shot 27wk4days

A Busca Pelo Parto Humanizado

Primeiro, eu procurei um centro que é referência para informação sobre parto humanizado em São Paulo. Marquei uma consulta com uma doula para avaliar as opções conforme minhas condições financeiras. Essa consulta custou R$180 (em 2014).

Foi minha primeira introdução do mundo de parto humanizado como indústria. Recebi uma lista de médicos particulares que cobram para acompanhar a mulher e garantir que as vontades delas são respeitadas no momento de parto. Uma médica em particular foi super bem indicada. Ela cobrou na época R$7000. O hospital e o pediatra cobram à parte. A Casa Ângela foi referenciada como uma casa de parto distante e um lugar difícil para acessar, as casas de parto de SUS não foram avaliadas positivamente, e o SUS foi desprezado como lugar de violação obstétrica.

Eu e meu marido não queríamos pagar um médico particular. Achamos que é errado ter acesso à saúde melhor por causa de dinheiro. Já sofremos com a decisão de fazer o pré-natal com o plano de saúde. Se o SUS funcionasse como as diretrizes orientam, todas as mulheres—apesar da cor ou classe—teriam acesso ao parto humanizado, com atendimento digno. Achamos que é errado que médicos lucrem com um sistema que viola os direitos das mulheres.

Ao mesmo tempo, eu estava com muito medo de acessar o SUS. Tive uma experiência com um médico no SUS, e eu o achei tão desrespeitoso, que não quis uma repetição no momento de parto. Além disso, várias pessoas relataram que, enquanto o SUS tem índices maiores de parto normal, também não respeita o direito de ter acompanhante, e os médicos ignoram as vontades da mulher.

Alguém me informou que eu teria mais chance do parto normal com o médico de plantão num hospital do meu convênio. Por que? Um motivo dos médicos para marcar cesariana ou fazer logo despois do início do parto é minimizar o tempo gasto no parto, que rende muito pouco para os médicos (o mesmo valor pago para o cesariana que dura menos de 02 horas é o valor pago para o parto normal, que pode durar muito mais). O médico de plantão não tem por que acelerar o processo.

Fui visitar um hospital do meu convênio na zona leste. Na sala da apresentação, com o PowerPoint, fomos informados sobre a possibilidade de fazer upgrade para uma suíte VIP. Quando eu e meu marido perguntamos sobre a possibilidade de não usar anestesia, o grupo ficou chocado e a resposta foi “você vai querer anestesia, mas é o médico que vai decidir”. Quando perguntamos sobre a possibilidade de ficar com o bebê no colo depois do parto, a resposta foi: “o médico vai decidir”. Foi muito claro que o hospital seguia a cultura de médico como a única fonte de poder e conhecimento.

Depois da consulta no centro de referência para parto humanizado, a visita no hospital, e as histórias horrorosas do SUS, eu fiquei preocupada. Eu estava ansiosa e determinada em acessar todos os possíveis recursos, então eu marque a consulta com o Coletivo Feminista.

 

Atendimento Humanizado, Finalmente

Com trinta e quatro semanas de gravidez, eu fui atendida pela Dra. Halana no Coletivo Feminista. Ela é o que o médico deve ser. Ela ficou uma hora comigo, perguntando sobre minha saúde, minhas expectativas e meus medos. Ela foi a primeira pessoa ao falar bem sobre SUS para mim, de apoiar e concordar com a decisão de não pagar o médico particular e de me encorajar em continuar minha busca para o parto humanizado. Ela indicou a Casa Ângela e ligou para uma obstetra de lá para facilitar o contato. A consulta que mudou minha vida custou R$180 (atualmente uma consulta custa R$230).

Corri (literalmente, figurativamente) para Casa Ângela. Meu caso foi avaliado e fui aceita. Pagamos R$4000 pelo pré-natal e o parto. Decidimos pagar esse valor porque acreditamos no trabalho da Casa Ângela. Todos os funcionários são registrados, mulheres da comunidade não pagam pelos serviços oferecidos, e a Casa faz o que o sistema público e o setor privado não conseguem fazer—colocar a mulher como protagonista do seu parto (na época a Casa Ângela não tinha convênio com o SUS).

meli belly 9 months side view

Depois de poucas semanas de atendimento na Casa Ângela, eu entrei em trabalho de parto às 23hs do dia 20 de outubro. Meu marido ligou às 3hs da manhã do dia 21, e foi avisado para ficar em casa até sentir as contrações a cada cinco minutos. Ele ligou de novo às 9hs, e fomos liberados para irmos. Nunca senti tanta dor na minha vida. Pensei que eu não ia aguentar o caminho entre minha casa, na Freguesia do Ó, e a Casa Ângela em Jardim Mirante na Zona Sul. Cheguei. Tive a total sorte de ser acompanhada pela Endi Gomes Barizza (que, desde então, saiu da Casa Ângela). Não quis massagem, conversa, inspiração. A cada contração, eu gritava como nunca gritei (ou gritarei) na minha vida. Ela totalmente acolheu minha dor. Quando eu gritava “essa dor é insuportável” ela me olhou com carinho e respondeu “É muita dor. Você suporta, sim”. A alegria—verdadeira—consiste em felicidade, dor, tristeza, medo, esperança. Ela entendeu isso. A intensidade da minha dor não a assustou. Só consegui parir sem drogas por causa da confiança que ela teve em mim. Nunca, em nenhum momento, senti-me pressionada ou julgada. Simplesmente senti-me totalmente apoiada, no meu processo. Nunca me senti tão acolhida, exatamente como foi, na minha vida e acho que nunca vou sentir isso de novo.

Eu decidi todas as minhas ações. Eu podia comer (não quis), ficar no banheiro, deitar, caminhar—seja que for. Eu decidi como eu ia parir, sem palpite ou crítica nenhuma. Minha filha nasceu no chuveiro, não porque eu quis parir no chuveiro, mas porque eu estava tentando fazer xixi e não aguentei a privada. Do momento em que a minha filha entrou o mundo até nós saímos da Casa Ângela, ela ficou comigo.

Não tem dinheiro que vale a minha experiência de parto—acolhimento de dor, a ausência total de autoridade/arrogância medical, o tempo para construir vínculo com minha filha. Todas as mulheres merecem uma experiência tão carinhosa e personalizada.

 

Considerações Finais/Aprendizados

  1. DOR.

Medicação é importante para uma doença, mas parto não é uma doença. Vivemos numa sociedade que evita dor o máximo possível. Quando minimizamos a dor, muitas vezes, minimizamos a alegria.

Eu senti MUITA dor no parto. MUITA MUITA MUITA dor. E, quando minha filha nasceu, a dor passou e eu senti que eu era uma super-heroína. Pessoalmente, não gosto de dor, mas, para esse momento da minha vida, valeu a pena.

  1. Sistema ÚNICO de Saúde.

Minha busca por um parto humanizado afirmou a necessidade de fortalecer o SUS para ser um sistema para todos. No papel, o SUS é maravilhoso. Na realidade, existem muitas falhas. Só melhorará quando todos os Brasileiros, de todas as classes, participarem. E só assim que todas as mulheres irão ter acesso ao parto humanizado.

  1. Respeito Mútuo.

Médicos são humanos que estudam muito e têm conhecimento, não são infalíveis e não entendem meu corpo melhor do que eu. Precisamos dar aos médicos o respeito que eles nos dão. Não mais, nem menos.

  1. Não existe o parto certo.

Eu consegui o parto natural, no ambiente humanizado, porque não tive nenhuma complicação de saúde e os recursos para pagar. Foi muita sorte. Se meu parto fosse cesariana, teria sido o parto certo, porque seria necessário naquele momento.

Não existe a decisão certa, não para o parto e nem na criação de uma criança—só existe a melhor decisão para aquele momento de vida. Sempre vão ter pessoas que criticam e desafiam suas escolhas, principalmente como mulher e mãe.

heloísa 5 meses