Reflexões: Junho 2016

Passei o último mês entrevistando oito mulheres, a maioria das quais nunca tinham sido entrevistadas e achavam que tinham pouco a dizer. Para quem lê as narrativas das conversas, é obvio que elas estavam enganadas.

Depois de cada entrevista, eu escuto as falas (eu gravo as conversas) e escolho uma perspectiva para focar a narrativa. Faço esforço em respeitar um limite de 800 palavras por narrativa. O que está escrito reflete nem metade do que foi dito. O fato de uma fala não ser inclusa, não significa que não foi importante. Todas as falas, que aparecem e não, das mulheres, estão sendo tão marcantes para mim que eu quero destacar alguns dos meus aprendizados do processo até agora.

Nas últimas entrevistas, eu comecei a fazer uma nova pergunta: como você corresponde ou não às expectativas da sociedade sobre uma mulher? Nenhuma mulher achou que ela correspondia. Não importa seu estado civil, quanto ela pesa, se ela se maquia ou não, quanto ela ganha—elas não se identificam com a imagem e/ou discurso perpetuados sobre a mulher. Eu fico me perguntando: que sociedade é essa, onde ninguém é suficiente para sentir que atinge o que é ser mulher? Isso pode ser o motivo para o alto número de mulheres entrevistadas que se acham fracassos na vida. Também, a maioria delas enfrentou (ou enfrenta) ódio, violência, intolerância e/ou preconceito, mas não se vê como corajosa. Pretendo voltar para esse tema numa futura reflexão.

Quando eu pensei nesse projeto, tive a sensação que ia ser legal. Está sendo muito mais poderoso do que eu imaginava. David Isay (que criou um programa de rádio chamado Story Corps) fala que, “se sentar e estar presente com alguém, fazendo perguntas importantes, é algo que não acontece muitas vezes durante o curso do dia-a-dia. E é uma das formas mais profundas e poderosas que temos para dizer a outra pessoa o quanto nós a amamos. ”* Eu me sinto privilegiada que essas 08 mulheres me deram uma ou duas horas das suas vidas. Eu saio de algumas entrevistas pensando que eu achei uma amiga para vida, mas, na realidade, eu estou ciente que é bem provável que não terei mais contanto com elas. Não importa. Espero que essas entrevistas inspirem vocês a fazerem mais perguntas importantes e realmente escutarem o que a outra pessoa fala, principalmente as mulheres que ninguém pergunta ou escuta.