Raquel: “O que nos move são sonhos”

A entrevista com Raquel, natal de São Paulo, de 35 anos, ocorreu no SESC Pompéia, num domingo gelado de junho. Nossa conversa foi marcada pelos choros dos bebês, enquanto as notas de xilofone ecoavam e as crianças maiores gritavam com animação. Porém, o som mais distinto foi os risos que Raquel dava, refletindo sobre sua vida—é um som contagiante que te convida a compartilhar a sua alegria com a vida. É uma felicidade que não é resultado de poucos desafios, mas sim da sabedoria duramente conquistada ao longo aos anos.

Raquel nasceu de uma mãe guerreira que a ensinou a quebrar paradigmas. Dona Marinalva Freire de Abreu, alagoana, a mais velha de 14 filhos, começou costurar com 07 anos para ajudar a família. Seus pais (os avós de Raquel) eram casados, mas isso não significava amor ou apoio financeiro. Dona Marinalva viu sua mãe sofrer com seu pai—um marido abusivo em todos os sentidos. Ela declarou sua independência da família de origem e fez questão de ensinar sua filha a ter confiança em ser uma mulher. “Nunca se abaixe para colocar os sapatos nos pés de um homem, pois, para ele te dar um chute na cara, é um dois”, Dona Marinalva diria para sua filha. A rejeição à submissão não ficou só na fala. Numa época em que a mulher era presa à casa, Dona Marinalva corria maratonas e viajava para competir. Durante suas viagens, foi o pai quem cuidava da Raquel. Quando ela contou isso na escola, os colegas chamavam seu pai “bixinha”.

Os estereótipos e preconceitos sobre os papeis de gênero não minimizaram sua aprendizagem inicial, no colo dos pais, de ser livre. “Perguntei para meus pais (quando era criança) com quantos anos eles se casaram—minha mãe estava para completar 21 e meu pai 27, e perguntei ‘com quantos anos vocês querem que eu case?’, e eles falaram ‘casamento é consequência de bom relacionamento. A gente não se preocupa com você se casando, a gente se preocupa com você estudar e ter uma boa profissão para se sustentar, independente de alguém’.” Este estímulo para ser uma mulher independente formou quem ela é hoje.

Desde adolescência, seu sonho foi ser jornalista, porque era uma profissão que “sempre deu ar de liberdade, liberdade de você conhecer e investigar, descobrir outras coisas, ver muito mais coisas do que você imagina, sair daquela coisa de serviço burocrático.” Ela cursou magistério com o intuito de trabalhar e conseguir pagar a faculdade, mas não foi possível, a mensalidade era maior do que o seu salário. Ela passou no vestibular em uma universidade privada, mas a necessidade de ajudar com as despesas de casa e trabalhar não permitiram dedicação em tempo integral para passar numa pública. Foi muito frustrante ter um sonho e não conseguir realizá-lo. Mesmo depois de muitos anos, ainda não chegou ao ponto de dizer que desistiu dele. “Deixei ali no cantinho, quietinho. O que nos move são sonhos. Gosto muito dessa coisa de explorar, ainda quero explorar, mas não sei se será como jornalista.”

Hoje ela trabalha como professora de educação infantil na rede municipal de ensino (atualmente afastada, trabalha no setor administrativo). Ela gosta muito de dar aula para crianças, mas não é quem Raquel é. Ela se define como “mulher, militante de esquerda desde os 16 anos, mãe solo, decidida por objetivo mesmo não por consequência, sonhadora.”

Raquel tem endometriose e estava sem esperança de conseguir engravidar, mas não desistiu do seu sonho, e hoje sua filha é a maior realização na vida, o que torna como ela se identifica ainda mais significativo: mãe solo. “Mãe solo” é uma expressão que ela utiliza para combater o preconceito contra a mulher que propositalmente escolhe viver fora dos padrões da sociedade. “O termo mãe solteira para mim carrega a mãe abandonada, a mãe que não se cuidou—porque é a mulher que não se cuida, e não o pai—então, o termo mãe solteira nunca soa legal para mim. Até hoje, apesar de muita coisa ter mudado culturalmente, as pessoas ainda não te olham com os mesmos olhos. Tem gente que olha para mim como coitada. Eu não sou coitada. Hoje as pessoas estão se identificando mais, estão se expondo mais, e aí a “sociedade” é obrigada a conviver. Eu poderia muito bem dizer, ‘vivi com o pai dela, mas a gente se separou— o relacionamento não deu certo’ e seria muito mais aceitável, não me olhariam como coitada.”

Ela entende que o maior desafio para mulher brasileira é quebrar os paradigmas, principalmente na política. “A mulher que se dedica à política e tem filhos está abandonando os filhos, a mulher que não se dedica à política, acomodou-se e está se escondendo—é difícil conciliar isso. Não são respeitados ainda os limites e nem oferecidas mais oportunidades (para mulheres na política). Eu acho que o maior desafio é isso, é ocupar mais espaços reais. Que ela tenha voz, que ela possa se colocar e não seja uma reprodutora (da fala e as ações) de homens.”