As pessoas que já assistiram ao parkour, o esporte francês que utiliza somente o corpo para se deslocar de um ponto a outro e para superar os obstáculos no caminho, sabem o quanto as técnicas do esporte—os saltos, os pulos e os giros—fluem como uma dança. Os praticantes entram no pulso da cidade, e se movimentam com um ritmo igual ao dos melhores parceiros de tango ou valsa. É marcante assistir ao parkour ao vivo. Ao conhecer Patrícia, praticante do Parkour Brazil, não é necessário assisti-la fazê-lo para saber que ela leva a vida da mesma forma: impactante e impecável.

À primeira vista, ela é uma mulher com 1,65 metro de altura, magra e com cabelos castanhos que caem como uma onda ao lado de seu rosto e terminam embaixo de suas orelhas. Tudo sobre ela é compacto e ligeiro: a armação dos óculos prateadas, seu nariz, suas mãos. Porém, não há nada de diminuto sobre a paixão que ela tem pela vida. Enquanto a roupa gira na máquina de lavar, e seu filho de treze anos escova os dentes, e a querida cachorra da família pede para passear, ela gesticula para explicar o que ela faz para se amar e ter a coragem de praticar parkour.

Parkour é uma atividade física que incorpora as explorações, conquistas, e aprendizagens da vida. Ela começou a praticá-lo em agosto 2015, e, para ela, é uma atividade complementar à meditação, que ela pratica desde jovem. Parkour exige atenção plena e, como a meditação, provoca várias mudanças internas. “Além da mudança corporal, mudaram os caminhos das minhas sinapses. Mudou meu olhar sobre a cidade, mudou meu jeito de pensar, mudou minha compaixão com meus medos, a minha tolerância com os outros, mudou minha ansiedade.”

Aos quarenta e quatro anos, casada, mãe de dois meninos e uma dachshund, ela passou na prova da Ordem dos Advogados do Brasil em janeiro 2016, depois de quase 10 anos de formada. No entanto, esses rótulos não englobam tudo que ela é. Patrícia sempre buscou explorar seus limites, externos e internos. Com vinte e um anos, ela foi passar as férias na Inglaterra por um mês e acabou ficando por dois anos. Com uma disposição intrínseca à sua personalidade, ela posava como modelo para alunos de arte, cantava numa banda de maracatu, fantasiava-se para animar festas, trabalhava em catering e fazia faxina para se sustentar.

A humildade que possibilitou sua permanência na Inglaterra, fazendo qualquer bico, serve-lhe bem no parkour. Ela entende o esporte como mais uma lição na vida para respeitar seus limites sem desistir. Uma vez, ela levou três pontos na canela, mas não permitiu que isso a impedisse de uma nova tentativa. Ao mesmo tempo, ela não ignora os riscos. Às vezes, ela não consegue acompanhar o rigor das técnicas e faz uma aula com as crianças. “Eu não me incomodo de fazer aula com as crianças. Essa vaidade não me pega.”

Sua simplicidade não significa falta de autoestima ou amor-próprio. As experiências da sua vida, inclusive com o parkour, levaram-na a acreditar que, no contexto atual, as mulheres brasileiras precisam “ter conversas abertas. Talvez nós tenhamos uma tendência, aqui no Brasil, de deixar as coisas chegarem até o insuportável para tomar algumas ações. A gente (mulheres) precisa se posicionar (em referência à desigualdade de salário, a um governo somente com homens, e à cultura do estupro). Outra tendência é de não dizer o que não gosta para não arriscar a amizade. Precisa mudar a cultura. Pode ser dócil e se posicionar.”

Ser mulher, para Patrícia, é cuidar dos outros, abraçar as exigências físicas do corpo (cólica, TPM, amamentação) e ser dona da sua própria vida. Para ela, o principal sucesso da vida é o caráter dos seus filhos. Ela intencionalmente os criou para serem homens que rompem com o padrão de assédio brasileiro.

Ela atua como corretora de imóveis autônoma e dá aulas particulares de inglês. Além desses trabalhos, ela se dedica em tempo integral à família, algo que ela percebe que é pouco aceito. Ela notou, quando uma matéria saiu sobre Marcela Temer, identificando-a como uma mulher sortuda e retraída, que muitas críticas foram feitas sobre o fato de Marcela está sem fazer nada—algo que Patrícia ouve sobre a própria vida. Isso incomoda, mas ela está mais confortável do que nunca de que “eu sou o que eu sou. Eu não tenho a preocupação mais de atender às expectativas dos outros.”

Na sua trajetória de vida ela viajou pelo mundo, terminou um relacionamento abusivo, construiu um segundo casamento de respeito mútuo e igualdade, trabalhou para um multinacional, abriu uma ONG de amamentação, e passou cinco anos sem comprar nada como um exercício de desapego. Para ela, “tudo tem seu tempo. A vida é um exercício de fé. Nós somos responsáveis por nós mesmas, inclusive pelos nossos pensamentos.” Para a mulher, seu desejo é que ela seja, “mais carinhosa com relação a si mesma, mais respeitosa com a relação aos seus medos e limites e que possa olhar para sua sombra com carinho.”