Gabriela: “Isso é outro jeito de ser mulher”

Seja verdadeiro consigo mesmo. Ser você é ser livre. Seja autêntico. Corra atrás do seus sonhos. São ditos comuns, com a intenção de inspirar e motivar as pessoas na busca da felicidade. Será que valem para todo mundo? E, se sim, a qual custo? O que você sacrificaria para ser verdadeiro? Quem você enfrentaria para ser autêntico? O que você faria se a maioria da população negasse a legitimidade de seus sonhos? Para Gabriela, que acabou de fazer 24 anos, essas perguntas não são hipotéticas. Ela vive sacrifício, ameaça e negação todos os dias e continua sendo verdadeira consigo mesma.

Gabriela, que nasceu em São Paulo e atualmente mora em Sorocaba, não faz questão de praticar as gentilezas sociais. Ela se identifica como uma pessoa que “não tenho muitas capacidades sociais, não sou carismática, simpática”. Depois de uma hora de conversa profunda e contemplativa com ela, sem nenhuma fala grosseira ou pausas desajeitadas, ficou claro que isso não era uma avaliação objetiva. Gabriela é introspectiva e aprendeu cedo que a melhor forma de lidar com o preconceito e transfobia na sociedade é com uma certa distância e desconfiança. “Ser pessimista é bom porque sempre dá uma surpresa boa…principalmente com as pessoas. ”

Por que essa necessidade, se ela simplesmente está vivendo sua própria verdade? Porque a grande parcela da população não só não aceita quem ela é, mas também vê sua existência como ameaça. “O peso de saber que a grande parte do mundo te odeia—não é uma aversão, tem gente que odeia você—esse peso eu não sei como lidar com ele.” No seu cotidiano, violência, seja verbal ou física, é sempre possível. Apesar disso, ela não desiste do seu caminho. Ela explica seus motivos, “antes de você se assumir, você não enxerga o futuro—você não tem visão a longo prazo, você não sabe o que você quer ser da vida, você não faz nada, porque, dentro, aquilo que se formava, você não parece que quer alguma coisa. Quando eu comecei a olhar para frente e perceber o que eu queria ser, eu via uma mulher. Quando eu sonhava com uma estética, com comportamento, com uma visão de mim mesma que era confortável, via uma mulher. Quando eu realmente tive a percepção do que eu queria ser—sem aparência, sem roupa, sem cabelo, sem nada—era uma mulher. Não sei que foi que eu vi de mulher ali, mas era mais fácil para mim aquele rótulo do que os outros. Mesmo que meu jeito de ser mulher seja estranho, diferente, que eu não seja feminina, que eu não seja padrão, que eu não seja nada disso. Eu prefiro ser assim.”

Tomar a decisão de ser quem ela realmente é teve consequências financeiras e com a família. “Não adianta negar que emprego é um problema agora que eu transicionei.” Atualmente, ela está trabalhando como empreendedora, mas o sonho dela é entrar numa faculdade para fazer Ciências da Computação e trabalhar com design de games. Isso é a luta primária dela, agora que as coisas estão mais tranquilas com a família. Sua mãe não a expulsou de casa, mas, devido às crenças religiosas, teve dificuldade em aceitar Gabriela. É só agora que sua mãe consegue usar o pronome feminino.

Ela imaginava que a transição ia resolver todos os conflitos e angústias internas que ela sofria, mas a realidade é outra. “Não sou passável. As pessoas sempre vão saber que eu sou trans. Tem gente que, por sorte do destino, consegue fazer essas transições estéticas com facilidade, tem gente que não. Todas mulheres trans, passáveis ou não, são mulheres? São? Ótimo, mas a sociedade não vai ver dessa forma. Você vai ter que dar uma grande inchada em que é uma mulher para abarcar essas pessoas, que é muito mais difícil acontecer, ou assumir que isso é outro jeito de ser mulher. Porque atualmente é, querendo ou não, é um outro jeito. ”

Mesmo com todas as dificuldades, sua transição foi o maior sucesso da sua vida até agora. Ela não vê a decisão como uma ação de coragem. Para ela, é simplesmente uma questão de vida ou morte. “Mesmo que eu voltasse—porque tem pessoas que destransacionam, que voltam para trás, por mil motivos, eu iria voltar pra um lugar sem futuro, sem anseio, sem substancia. Mesmo que eu vivesse uma vida longa e próspera como fulano, eu não teria mais uma grama de mim mesma. Ia virar um zumbi e provavelmente desistir de tudo. As vezes eu penso se por isso ou aquilo não seria melhor enfrentar isso, mas ai percebo que não tem o que enfrentar. Agora, mais que antes ainda, se eu perder eu mesma eu não vou conseguir viver nem mais um dia.”

Referências para mais informações:

CID-11 (publicação prevista para 2018)

Edith Modesto (terapeuta)

Daniela Andrade (ativista)