No bairro do Moinho Velho, na Zona Norte de São Paulo, há uma papelaria que funciona como lan house, banco, centro da comunidade, minimercado e loja. Ela oferece serviços para enviar e-mails, estoca os mais queridos salgados e picolés para degustar, vende uniformes de escolas ao seu redor e facilita a vida dos vizinhos com pagamento de contas e recargas para o bilhete único e celular. Para as senhoras da velha guarda do bairro, a papelaria também serve como um oásis de reconhecimento, um espaço sem pressa, onde elas são as rainhas do pedaço. Não há surpresa que um espaço tão multifuncional é dirigido por uma mulher, a Fátima.

Fátima é natal de Ibiquera, uma cidadezinha quase 400 quilômetros a oeste de Salvador. A memória mais forte que ela tem da infância na Bahia é de água, e até hoje ele está muito ligada às águas. O pai faleceu quando ela era muito jovem, e sua mãe se desfez dos bens e veio para São Paulo, como outros milhões de baianos que fizeram o mesmo percurso—para “tentar uma melhoria de vida (estudo, trabalho). Não digo nem qualidade, porque qualidade tínhamos lá.”

Não foi a intenção da Fátima de ter uma loja. O desejo dela, desde a infância, simplesmente foi o preservar a sua independência. Quando ela era criança, ela via as opressões que as mulheres sofriam e atribuiu isso ao estado civil delas—o casamento. Ela decidiu, jovem, que não ia aceitar isso. Apesar de não ter a intenção de casar, ela encontrou o amor ainda jovem. No entanto, ela nunca perdeu o contato com sua individualidade. Para ela, sempre foi importante trabalhar e ter a própria fonte de renda—uma atividade totalmente sua. “Trabalhar é uma coisa que eu gosto. Ser uma pessoa tipicamente doméstica não combina comigo. Eu gosto da minha casa, gosto das coisas organizadas, mas eu não viveria só para isso.”

Queria ser historiadora, mas as pessoas falavam que com história ela só podia ser professora, então ela estudou três anos de decoração (que, naquela época, não existia curso superior na área) e, depois do casamento, trabalhou nessa área até a sua primeira gravidez que foi complicada. Sua filha não conseguiu mamar. Fátima ficou muito decepcionada com o próprio corpo. Como muitas mulheres, ela se sentiu culpada por não conseguir alimentar sua filha. Ela identifica essa época como um dos maiores desafios em sua vida. Isso só foi superado quando a segunda filha conseguiu mamar por dois anos e meio. Mesmo com o trabalho de duas meninas, ela se sentiu ociosa. “Tinha necessidade física e mental de trabalhar fora, de ter meus ganhos, não ficar naquela situação de dependência do dinheiro do marido, precisava ter meu próprio dinheiro para fazer o que eu quisesse.”

Antigamente, a sogra tinha uma papelaria, e Fátima resolveu montar uma nova papelaria do jeito dela. Há sacrifícios em ser mãe com o próprio negócio. No início, trabalhava 13 horas por dia. Agora ela trabalha menos, mas continua com pouco tempo livre. O dia da entrevista foi um domingo, o único dia que ela tem disponível—entre aspas. Durante a conversa, a máquina girava, os cachorros latiam, e, mais tarde, ela ia receber amigos para um almoço.

Durante a semana, ela trabalha a segunda a sábado, é responsável pelas compras, os pagamentos, a pesquisa de mercado e atendimento ao cliente. Paralelamente às responsabilidades na papelaria, ela responde às perguntas da família e coordena as necessidades de casa. “A maioria das mulheres passam por tudo isso, eu acho que é cultura. Tudo fica na dependência da mãe, a mãe tem que coordenar. Isso passa de mãe para filha, era assim com minha mãe e era assim com minha vó.”

O maior sacrifício é a qualidade de vida que ela tinha na infância na Bahia. No entanto, ela vê seu trabalho com o maior sucesso na sua vida. Anos atrás, ela participou de um curso que a incentivou a colocar no papel um bem precioso que ela queria. Enquanto outros no curso sonharam em carros, casamentos, etc. ela desenhou uma loja maior. Ela realizou seu sonho e a atual loja é uma réplica do seu desenho.

Seu conselho para outras mulheres pensando em abrir o próprio negócio: “Faça alguma coisa que te dá prazer. Cuidar de uma casa e cuidar de uma família não é uma coisa inútil, mas, para cabeça da mulher, não é só isso. A gente foi preparada para servir, isso é a real cultura (no Brasil), mas isso, graças a deus, está mudando. Na minha opinião, se a mulher se sente inútil, faça alguma coisa, cria alguma coisa.”