Eliana: “Eu já perdi muito tempo”

Até recentemente, Cinderela era um dos mais populares contos de fadas. Existem versões em vários países, e é difícil encontrar uma mulher que não conhece o enredo: uma jovem que sofre exploração pela madrasta quando o pai morre e—devido à sua beleza extraordinária—é salva por um príncipe. Uma das críticas mais frequentes ao conto é que Cinderela não tem autonomia, a vida dela é inteiramente determinada pelos outros. Se você fosse Cinderela—desprezada, xingada, sem nenhum dinheiro—o que você conseguiria fazer sozinha? Elaina, mãe de três meninos, empreendedora e sobrevivente vitoriosa de 20 anos de violência doméstica, conseguiu libertação total com sua grande força de vontade. Sua história é tão incrível como ela é e muito mais impressionante de qualquer conto de fada.

Quando Elaina era adolescente, ela não podia sair e participar das atividades de adolescentes. O grande medo do pai era que ela (e as irmãs) ia engravidar. “Não era a gente engravidar em si, era ele ser envergonhado diante da família. Quando a gente se casou, ele falou assim: ‘ufa, de todos meus irmãos, as minhas filhas foram as únicas que não casaram grávidas’. ” Devido às restrições em casa, ela se casou com 17 anos. Ela entende que a decisão de se casar “foi um modo de fugir, de se libertar. ”

Eliana personifica bom humor. Ela gosta de rir. É fácil não ver as cicatrizes físicas e emocionais que ela carrega, mas existem e são profundas. Seu casamento não foi uma fuga, foi um pesadelo. Desde o início, ela entendia que o marido era abusivo, mas a mensagem externa foi de que a culpa era dela (ela não o cuidava, não arrumava seu cabelo, não cozinhava o feijão), e ela acabou se culpando. Depois de quase nove anos de casamento, Elaina começou a pesquisar para entender o que estava acontecendo com ela e percebeu que realmente não era normal.

As pessoas perguntam por que ela permitiu o abuso por 20 anos de casamento. É uma pergunta que ninguém tem direito de fazer, mas ela tem uma resposta clara. Ele separava ela da família, ela não tinha uma rede de apoio, não tinha dinheiro (porque ele não permitiu que ela trabalhasse fora de casa), ele sujou o nome dela, e ela tinha que pensar em o que fazer com três filhos. Ela tinha muito medo, tremia quando ele chegava em casa, e ele fazia de tudo para alimentar seu terror. Ele agrediu Eliana quase todos os dias. Quando eles saíram de casa, ele ficava com o dinheiro e a chave. Se alguém olhasse para ela, ou ele imaginasse que ela olhava para alguém, ele a agredia. Um dia, ele a agrediu no ônibus, e ela não saiu porque não tinha para onde ir ou a chave para voltar para casa. A pergunta que as pessoas devem fazer é: como ela teve coragem para se separar nessas condições?

Um dia, algo desencadeou nela e o medo dela acabou. Nesse dia, ela chamou a polícia, mas já eram 17 horas, e a delegacia da mulher estava fechada. O policial falou para ela que ela precisava ir no dia seguinte. Àquela noite, ele a torturou: colocou uma faca no seu pescoço e a prendeu contra a parede. De repente, livre do medo que dominava sua vida, ela falou “se você não quiser que eu vá, então me mate hoje, porque eu vou.” Até hoje, ela não entende o que mudou para ela. Demorou mais alguns anos, mas finalmente ela conseguiu a liberdade.

A venda de roupas ajudou em sua saída. Sua irmã a estimulava a trabalhar e conseguir mais autonomia. Eliana comprou roupa no Brás e vendeu em poucos dias. Com o dinheiro que ela ganhou, conseguiu fazer coisas pela primeira vez na vida. “Nunca tinha ido a um cinema na minha vida e fui ao cinema depois que eu comecei a trabalhar. Fui ver Harry Potter com os meninos (com trinta e poucos anos). Foi muito bom e paguei para todo mundo com meu dinheiro. O que me deu alegria foi isso (pagar com meu dinheiro).”

Quando ela começou a vender roupa, o marido parou de trabalhar e nunca mais contribuiu em casa. As vendas não cobriam as contas e a mesma irmã conseguiu um emprego para ela, fazendo faxina. “Eu não gosto de trabalhar (numa casa de família), não porque não é um trabalho digno, é porque eu acho que é muito humilhante, é um serviço não valorizado, não reconhecido, e você acaba fazendo coisas que não é para você fazer”. Com a crise, é normal escutar a patroa falar que: “a empregada do Fulano ou meu funcionário da loja—com essa crise, é só mandar ele embora, porque tem um monte de gente procurando emprego.” Além da ameaça sutil desse tipo de fala, não há limites no que se entende sobre o que é o serviço dela. Ela cozinha, limpa, lava e passa roupa duas vezes por semana. Quando ela não está trabalhando, a família não faz as tarefas domésticas, então os dois dias que ela trabalha ocorre realmente uma acumulação da semana inteira.

Eliana lida com as humilhações cotidianas que fazem parte da faxina porque ela quer realizar seus sonhos. 2013 foi o início dessa realização: ela terminou o ensino médio, divorciou-se e começou a tirar a habilitação para dirigir. “Hoje eu tenho vontade de me arrumar, tenho vontade de levantar cedo e fazer tudo que eu tenho que fazer, eu não consigo ficar parada. Acho que eu estou perdendo tempo, eu preciso sempre estar fazendo alguma coisa, porque, se não, eu me sinto inútil, porque, na minha cabeça, eu já perdi muito tempo”.

Seu maior desafio atual é a loja. “Eu acho que a loja, tanto pela internet ou física, vai me dar autoestima. Eu preciso de um trabalho que me dê dignidade, que eu tenha orgulho, tenha vontade de levantar todo dia e fazer o que eu gosto, o que eu quero. Quero fazer o que eu gosto.”

Ago 2016—NOVIDADE! Eliana lançou sua própria marca de calça leggings. Por favor, apoiem seu trabalho!!! Eliza Confecção