Elaine: “Isso é muito difícil, de gostar de ser mulher”

Quantas músicas você precisa cantar para ser cantora? Quantas pessoas precisam te amar para ser amável? Quantos quilos você pode pesar e ser linda? Quem decide? E se não há afirmação de alguém externo—da sua profissão, valor ou beleza—você ainda pode se identificar como quiser?

Eliane, paulistana de trinta e seis anos, formada em microeletrônica, responde sim. Nesses últimos anos, ela tem explorado sua identidade em vários âmbitos, particularmente a paixão profissional. “Assumi a identidade de fotógrafa há sete anos, quando iria completar 30 anos. Comecei a me apresentar como fotógrafa, a fotografar mais, sair flanando. Percebi que sempre fiz isso, mas nunca dei nome, o olhar sempre prevaleceu, mas nunca dei importância. Foi nessa virada para balzaquiana que me acolhi por completo como mulher e como fotógrafa.”

Olhar para o mundo e capturar uma imagem basicamente não tem custo: a maioria da população tem acesso a uma câmera no celular, não há gastos com revelação, e a internet é uma fonte inesgotável para quem quer aprender e compartilhar as imagens. A arte de fotografar nunca foi tão acessível. No entanto, se proclamar fotógrafa não foi fácil para Elaine. “É bem difícil (assumir a identidade) porque você imagina que fotógrafa é aquele que fotografa ou modelos incríveis ou cenas incríveis, então você nunca acha que você é. Eu sempre achei que precisasse de um certificado, de alguém falando que você é. (Por vários motivos) eu fugi da fotografia, só que chegou um momento em que eu tive que abraçar a fotografia, então resolvi fazer mais cursos, estudar mais, me dedicar mais.”

Elaine relata a dificuldade de assumir não só a identidade de fotógrafa, mas também nas questões de raça e gênero. Ela se identifica como mestiça, mesmo que a família negue esses traços e se identifique como branca. Agora ela entende que a identidade dela, sim, é influenciada pelas raízes indígenas (por parte de mãe) e ciganas (por parte de pai), não só na aparência, em que ela aponta várias características, mas também em como ela vê o mundo. Porém, esta insegurança na busca de sua identidade não é tão aparente. Ela se senta com uma postura ereta, olha nos seus olhos e se expressa sem hesitação, numa voz sonora.

Assumir várias identidades sem afirmação externa exige coragem, e ela leva essa coragem para seu trabalho. Seu emprego formal é na área de programação e é onde ela mais lida com a questão de gênero. Ela é coordenadora de uma equipe que antigamente era composta por uma maioria de homens. Ao longo do tempo, os homens foram saindo e, em seus lugares, mulheres foram contratadas. Como coordenadora, Elaine leva a sério seu papel como porta voz para as outras, especialmente na questão de gênero. Falar que ela trabalha numa equipe composta principalmente por mulheres provoca uma série de comentários sobre os estereótipos a respeito das mulheres: elas gostam de novela, uma fofoca com a outra, uma briga com outra. Elaine não tem essa experiência, ao contrário: “A equipe está muito melhor, produzindo muito mais do que nunca produziu antes, e, mesmo assim, o chefe fala, ‘ah, agora só tem mulher aqui, né?’ Eu responde, ‘agora pelo menos todo mundo trabalha, né?”

Falar com ousadia, sem desculpa, é algo novo para a Elaine. “Antes eu não falava nada, eu ficava quieta, porque eu seguia aquela coisa de ‘se você dar trela vai ficar pior’, só que eu percebi que nada muda se você não der trela. A pessoa continua igual, fazendo as mesmas coisas, falando as mesmas besteiras, e elas acham que, como você não reclamou, você aprovou. É isso que me pegou, o fato de me incomodar é menor do que eu incomodar alguém que falou uma grosseria para mim.”

A necessidade em falar nunca foi tão discutida. Há várias campanhas apontando que silêncio faz parte de uma cultura de violência, principalmente contra a mulher. No contexto atual, Elaine entende que o maior desafio para a mulher brasileira é “ocupar espaços em todos os lugares, principalmente na política. Acho que a mulher ainda tem muito medo de ocupar o espaço político e ela também não se identifica com a parte de mulheres que estão na política hoje em dia. Em todos os lugares, a gente tem muito medo. É muito importante esse feminismo jovem que está aparecendo, e estão gostando de ser mulher. Isso é muito difícil, de gostar de ser mulher. Gostar de seus períodos menstruais, gostar de você e seus defeitos.”

E é isso que as identidades assumidas, de fotógrafa, de mulher, de mestiça, trazem para a Elaine—a possibilidade de se amar como ela realmente é. Ela pretende continuar ocupando espaços e sonhando em que é possível. Atualmente, “estou fazendo pequenos ensaios paralelos com os estudos. A meta é fotografar vida, felicidade, retratos do tempo, recortes emocionais, pessoas.”